UOL Notícias Internacional
 

26/11/2004

Assédio sexual vira arma ineficaz contra o terror

The New York Times
Maureen Dowd

Colunista do NYTimes

Em Washington
O fato sempre fez com que eu me sentisse humilhada, como se fosse uma das personagens daqueles filmes baratos sobre presidiárias, com títulos como "Engaioladas", "Garotas da Prisão" ou "Centro de Recuperação de Mulheres".

Primeiro é preciso tirar parte da roupa, abrir o zíper da bota, tirar o cinto e desabotoar o casaco enquanto qualquer sujeito que estiver por perto observa tudo. A seguir é necessário caminhar apenas de meias ou descalça. E depois ficar de pé com as pernas afastadas. Então uma musculosa agente de segurança corre as mãos pelos seus seios e em volta destes, enquanto os caras continuam em volta olhando.

Voando a negócios, passei por esse embaraçoso ritual mais de 20 vezes em aeroportos de todo o país nos últimos dois meses. Fui mais revistada do que Martha Stewart. Presenciei uma agente de segurança insistir bruscamente em que a minha amiga tirasse o blazer, embora ela só estivesse usando por baixo uma peça de lingerie --uma camisola transparente--, enquanto o homem atrás de nós observava tudo maliciosamente.

Os procedimentos de revista nos aeroportos são mais reativos que imaginativos. Se há uma tentativa de explodir uma bomba levada em um sapato, então todos os passageiros precisam ficar descalços.

Duas passageiras tchetchenas podem ter ou não levado explosivos para dentro de aviões russos, então, agora, algum gênio da Administração de Segurança nos Transportes (TSA na sigla em inglês) decidiu que todas as mulheres estão sujeitas a tirarem a roupa e serem revistadas.

Eu atraio medidas extras de segurança toda vez que compro passagens só de ida, algo que parece particularmente absurdo. Será que a TSA não entende que um terrorista cuidadoso como Mohammed Atta poderia ter pensado nisso e usado o seu dinheiro de uma instituição de caridade saudita para comprar passagens de ida e volta, ainda que não fosse voltar nunca?

Em dois artigos de The New York Times, Joe Sharkley descreveu a fúria das mulheres com os novos procedimentos de segurança nos aeroportos que aumentaram a quantidade e a intensidade das apalpadelas, ou "exames de mama", como definiu uma mulher.

Ele narrou a experiência de Patti LuPone, a cantora e atriz, no aeroporto de Fort Lauderdale, que se recusou a tirar a camisa e foi impedida de embarcar, e de Jenepher Field, 71, que anda com o auxílio de uma bengala, e que teve que passar por apalpadelas nos seios no aeroporto de Kansas City, Missouri. (Será que temos relatórios de inteligência dizendo que atualmente as vovós fazem parte da Al Qaeda?).

Até mesmo uma strip-teaser reclamou em uma mensagem de e-mail a Sharkey, dizendo ter passado por experiências degradantes: "Certa vez uma agente perguntou secamente se os meus seios eram falsos".

Queria que alguém me dissesse qual foi a quantidade de material explosivo encontrado por meio dessas operações, porque acredito que seja zero. Quantos bilhões estão sendo desperdiçados com isso?

Talvez ainda não tenhamos atingido o patamar de tecnologia de Philip K. Dick. Mas que tal criar um tipo de banco de dados positivo? Se a segurança dos aeroportos pode ter uma lista de malfeitores, por que não criar uma outra de gente de bem? Será que não poderia haver um arquivo com dados das norte-americanas confiáveis que viajam freqüentemente e que não levam objetos secretos no sutiã? Afinal, ninguém vai colocar algo ali sem o nosso consentimento. Será que elas não poderiam pelo menos ser submetidas a um detector eletrônico?

Sei que não são só as mulheres que sentem desconforto com a situação; um amigo me disse que, recentemente, um agente de segurança do aeroporto de Miami enfiou a mão na parte da frente da sua calça, fazendo com que ele se sentisse completamente "manipulado". E ouvi a triste história de um ruborizado empresário de Washington que foi obrigado a tirar os sapatos, o que fez com que todos vissem as suas unhas dos pés pintadas com esmalte vermelho, que ele se esquecera de remover.

Barry Steinhardt, do Sindicato Americano de Liberdades Civis (Aclu na sigla em inglês), disse à Court TV que os novos procedimentos não só são "um convite aberto ao assédio" --não há um número suficiente de agentes femininas para realizarem a revista, de forma que às vezes agentes masculinos apalpam as passageiras--, como também "não são especialmente eficazes".

Eu nunca quis reclamar porque assumi que os inconvenientes seriam um preço a pagar por uma maior segurança. Mas eu me sentiria menos assustada se soubesse que tais medidas fossem parte de uma estratégia geral efetiva para a proteção do país. Mas não acho que sejam.

O Iraque está drenando o dinheiro que deveríamos estar aplicando na nossa proteção. Apenas entre 3% a 5% dos contêineres que chegam aos nossos portos são examinados, e somente uma pequena percentagem da carga transportada por aviões, trens e caminhões é inspecionada.

O Congresso está transformando a segurança interna em um outro canal de desperdício financeiro. Tom Ridge ainda faz umas propagandas sensacionalistas dizendo às pessoas como planejarem as suas ações e convidando-as a visitarem o seu site, que não traz muita coisa além de menções a fitas adesivas.

Se estivéssemos selando as fronteiras e tornando as aeronaves mais seguras, tirar a roupa em público seria mais suportável. Mulheres devem se despir e ser apalpadas nos aeroportos dos EUA Danilo Fonseca

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