UOL Notícias Internacional
 

26/11/2004

Fundamentalista cristão quer um exército antigay

The New York Times
James Dão

Em Washington
A advertência veio em dezembro de 1995: "Vocês aí no continente sabem o que está acontecendo aqui?" perguntou a Phil Burress um amigo do Havaí. Burress, de um subúrbio de Cincinnati, fazia uma cruzada contra a pornografia. Ele confessou que não. "Eles vão legalizar o casamento gay, e depois a onda vai chegar aí", disse o amigo, referindo-se ao caso julgado pela Suprema Corte do Havaí sobre o direito de casais do mesmo sexo de se casarem.

Burress, que se diz ex-viciado em pornografia, passou grande parte dos anos 90 combatendo clubes de strip-tease e livrarias de pornografia. Mas havia algo maior para suas crenças fundamentalistas cristãs e seus valores tradicionais da família: algo que chamou de "programa gay".

"Deparamo-nos com um plano dos defensores dos homossexuais", lembra-se Burress. "Se fosse seguido, a homossexualidade seria ensinada nas escolas como igual à heterossexualidade. E vimos que, aquilo que não conseguissem do legislativo, iam tentar obter na justiça."

Assim, Burress tornou-se um Paul Revere do movimento contra o casamento do mesmo sexo. Não apenas soou alarmes pelo país, mas também estabeleceu a estrutura para um movimento conservador com base na igreja, com o intuito de transformar a política de Ohio nos próximos anos.

Em janeiro de 1996, ele ajudou a organizar uma conferência de conservadores cristãos, na qual um programa de seis etapas para combater o casamento de pessoas do mesmo sexo foi criado. Naquele outono, eles persuadiram o Congresso e o presidente Bill Clinton a sancionarem uma lei definindo o casamento como entre homem e mulher.

Depois de quatro anos, mais de 30 Assembléias Estaduais tinham feito o mesmo. E, neste ano, eleitores em 11 Estados, inclusive Ohio, aprovaram por grande maioria emendas às Constituições Estaduais proibindo o casamento de mesmo sexo.

Em menos de 90 dias, a organização de Burress reuniu 575.000 assinaturas para que o referendo fosse acrescentado à cédula de Ohio. Depois, ajudou a levar milhares de eleitores conservadores às urnas no dia das eleições. Seu apoio foi considerado crucial para a vitória estreita do presidente Bush naquele Estado indefinido.

"Em 21 anos de organização, nunca vi nada igual", disse Burress. "É um incêndio florestal, com ventos de 150 km por hora."

É fácil pensar na campanha para proibir o casamento gay como fenômeno recente, orquestrado por conservadores cristãos proeminentes e membros do Partido Republicano. Mas a estrutura do movimento é construída por ativistas pouco conhecidos, como Burress, ex-sindicalista que dedicou a última década de sua vida a proibir o casamento gay.

Para entender Burress, não só é preciso ver de onde vem seu movimento, mas também para onde vai. Poucos dias antes das vitórias estrondosas das eleições do outono, Burress e outros líderes conservadores cristãos reuniram-se em Washington para discutir as batalhas constitucionais para o ano que vem, que se concentrarão em cerca de 10 Estados, inclusive Arizona, Flórida e Kansas.

Eles esperam que essas lutas sejam o prelúdio de seu verdadeiro objetivo: mudar a Constituição dos EUA para que proíba o casamento entre pessoas do mesmo sexo, um processo que pode levar anos.

Além disso, Burress planeja levar seu movimento de base em Ohio para um novo nível, usando um banco de dados com 1,5 milhão de eleitores para construir uma rede de líderes conservadores cristãos, candidatos e políticos.

Ele quer fazer pequenos encontros com as comunidades, no início do ano que vem, em 88 condados de Ohio, para identificar os problemas, recrutar organizadores e treinar voluntários. Com 15 a 20 líderes em cada condado, ele acredita que os conservadores religiosos poderão dirigir conselhos escolares, conselhos municipais e promotorias dos condados, dentro de poucos anos.

"Estou montando um exército", disse Burress, em entrevista. "Não podemos deixar as pessoas voltarem às paróquias e dormirem". Para alguém que soa tão combativo, Burress, 62, parece tudo, menos isso. Alto e grisalho, ele tem um charme rupestre. Mas ele também demonstra uma firmeza interna, desenvolvida nos anos em que foi negociador sindical de motoristas de caminhão. Além disso, parece claramente disposto a fazer política dura.

Kelly J. Shackelford, presidente da Fundação Free Market, grupo conservador que está pressionando pela aprovação da emenda contra o casamento gay no Texas, chama Burress um dos heróis do movimento, porque enfrentou alguns dos Republicanos mais poderosos de Ohio, inclusive o governador Bob Taft, que se opôs à emenda.

"Ele estava na pior das situações. Até os Republicanos, as pessoas que supostamente apoiariam sua causa, foram contra ele. Mas as únicas pessoas que importavam, o povo, o defendiam", disse Shackelford.

Burress é elogiado por seus opositores por formular as questões de forma atraente para os eleitores. Mas eles também dizem que o ativista destorce essas questões, tem mente fechada e é intolerante com opiniões diferentes, sem mencionar estilos de vida alternativos.

"Ele é bastante assustador. Os porta-vozes de sua campanha parecem dizer que, se você não concorda com a opinião de Burress, há algo de moralmente errado com você", disse Alan Melamed, que administrou a campanha de Ohio contra a emenda constitucional.

Burress discorda dessas descrições. "Não tenho nada de homofóbico", disse ele. "O que me preocupo é com a imposição dessas coisas sobre nossa cultura".

Viciado em pornografia

Burress foi criado em uma fazenda no condado de Hamilton, perto de Cincinnati. Ele freqüentava uma pequena igreja evangélica duas a três vezes por semana e casou-se com uma paroquiana quando tinha 18 anos.

Aos 14, ele encontrou uma revista pornográfica na beira da estrada e ficou obcecado. A cada chance que tinha, ia até Cincinnati para comprar, ou até roubar, revistas ou vídeos.

Nas duas décadas que se seguiram, ele teve quatro filhas de dois casamentos. No entanto, sua obsessão com o mundo de fantasia sexual da pornografia arruinou os dois casamento e o afastou da religião.

"Eu vivia uma vida dupla", disse ele.

No dia 6 de setembro de 1980 --data que se lembra vividamente, como se fosse seu aniversário-- Burress assistiu um sermão dado por seu novo genro, o pastor de uma igreja evangélica. A experiência voltou a despertar sua tendência religiosa, e ele resolveu mudar sua vida.

Ele abandonou a pornografia, começou a freqüentar a igreja novamente e a se apresentar como voluntário para o grupo de combate à pornografia com base em Cincinnati, Citizens for Community Values. Dentro de poucos anos, ele estava dirigindo o grupo, aposentando-se de suas empresas de paisagismo e turismo. Em 1998, ele casou-se pela terceira vez, com uma mulher que conheceu em uma conferência contra a pornografia.

Para quem acha que o movimento de Burress é unânime entre os Republicanos, ele diz que não é bem assim. Apesar de fortemente apoiar Bush, ele está furioso com Republicanos poderosos como Taft, além do advogado geral Jim Petro de Ohio e os senadores George V. Voinovich e Mike DeWine, que se opuseram à emenda em Ohio. (Eles afirmaram que a emenda prejudicaria os negócios no Estado, proibindo que os benefícios dos funcionários fossem estendidos a seus parceiros).

Burress atacou esses Republicanos, dizendo que são eles que permitem o desenvolvimento do plano gay. Ele prometeu defender candidatos contra eles ou qualquer outro que se opusesse ao que ele considera políticas pró-família, anti-aborto e antigay.

"Não sou Republicano ou Democrata", disse ele. "Os dois partidos são movidos por interesses pessoais; são dirigidos por pessoas que são Republicanas ou Democratas apenas porque isso lhes beneficia, ou aos seus empregos. Nosso movimento é movido por paixão, valores e morais". Phil Burress lidera a oposição a uniões de pessoas do mesmo sexo Deborah Weinberg

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