UOL Notícias Internacional
 

26/11/2004

Irã se recusa a abandonar seu projeto nuclear

The New York Times
Elaine Sciolino

Em Viena, Áustria
Nesta quinta-feira(25/11), o Irã se recusou a abandonar os planos para operar equipamento de enriquecimento de urânio que poderia ser utilizado tanto para fins de energia como em um projeto de bomba nuclear, disseram autoridades européias e iranianas.

A recusa ameaçou pôr a pique um acordo nuclear que o Irã acertou 10 dias atrás com França, Grã-Bretanha e Alemanha para paralisação de todas as atividades iranianas de enriquecimento de urânio, acrescentaram autoridades européias. Também deu nova munição para o governo Bush, que afirma que o Irã tem um programa secreto de armas nucleares e não é confiável.

O impasse coincidiu com a abertura aqui de reuniões cruciais para analisar o programa nuclear do Irã na Agência Internacional de Energia Atômica (Aiea), a agência da ONU de monitoramento nuclear que tem autoridade para submeter o Irã à ONU para possível censura ou sanções.

Mohamed ElBaradei, o chefe da agência, disse em um discurso na quinta-feira que o Irã até o momento fracassou em cumprir sua promessa de suspender plenamente seu enriquecimento de urânio devido à sua insistência de operar 20 centrífugas para pesquisa.

Lembrando a longa história do Irã de ocultamento de suas atividades nucleares, ElBaradei disse: "Foi criado um déficit de confiança, e a confiança precisa ser restaurada. A cooperação ativa do Irã e a plena transparência é portanto indispensável".

Ele também expressou esperança de que a disputa em torno das centrífugas "se resolverá" na sexta-feira, e um de seus assessores disse que ele está pressionando os iranianos a recuarem.

As centrífugas são máquinas que giram em velocidade supersônica para purificar ou enriquecer urânio para uso em reatores nucleares. Quando o urânio é enriquecido em um grau elevado, ele pode ser usado em uma arma nuclear.

Mas a nova exigência iraniana, contida em duas cartas formais à agência, colocou os europeus em dificuldades.

Por um lado, eles declararam que o acordo deve permanecer como está e disseram aos iranianos que uma isenção por qualquer motivo seria inaceitável.

Por outro lado, eles estão dispostos a salvar seu acordo conquistado arduamente e já abrandaram os termos em uma resolução que criticava as atividades nucleares do Irã, que será aprovada pelos 35 países que compõem a junta diretora da agência.

"Alguém terá que recuar", disse um diplomata ocidental envolvido nas negociações. "Tanto o Irã quanto os europeus estão em uma situação muito difícil no momento."

Em um golpe aos esforços do governo Bush para punir o Irã por suas atividades nucleares, o trio europeu rejeitou mais de uma dúzia de propostas americanas para uma resolução com termos mais duros contra o Irã, disseram diplomatas envolvidos nas negociações.

Entre as propostas rejeitadas estava a ameaça de levar o Irã ao Conselho de Segurança, para possível censura ou até mesmo sanções caso retomasse qualquer atividade relacionada a enriquecimento, disseram os diplomatas.

Os europeus disseram aos americanos que tal ameaça seria incompatível com o acordo deles com o Irã, que exige que o Irã suspenda todas as atividades de enriquecimento de urânio em troca de possíveis recompensas que seriam negociadas com o tempo.

Outra proposta rejeitada pelos europeus foi uma emenda muito mais branda que saudaria a decisão do Irã de suspender suas atividades de enriquecimento como uma "medida de formação de confiança", mas que também notificaria formalmente o Conselho de Segurança sobre o acordo fechado com os europeus. Para os americanos, tal medida pelo menos colocaria a questão nuclear do Irã na agenda do Conselho de Segurança e facilitaria o debate da questão lá.

As autoridades americanas disseram que foram avisadas que suas propostas iam contra o espírito do recente acordo. Quando a delegação americana questionou a validade de tal abordagem, foi informada repetidas vezes por seus aliados europeus de que os Estados Unidos terão que confiar neles.

O trio europeu, que está liderando a elaboração da resolução, disse aos americanos e outras delegações que não a apresentará formalmente para consideração dos 35 países a menos que a agência possa certificar que o Irã suspendeu todas as suas atividades de enriquecimento.

As autoridades européias disseram estar convencidas de que os iranianos estão usando sua exigência de realizar pesquisa de enriquecimento como moeda de troca para obter concessões de última hora na resolução.

"Nós achamos que é para chamar a atenção", disse uma autoridade britânica. "Mas os iranianos deviam saber que não há espaço para isenções. O acordo está estabelecido em concreto."

De fato, os membros da delegação iraniana sugeriram aos jornalistas e outros delegados que estavam dispostos a descartar sua nova exigência em troca de uma resolução mais branda.

Mas o trio europeu ficou suficientemente alarmado a ponto de dizer em um encontro das delegações dos maiores países industrializados do mundo, na quinta-feira, que o acordo seria "nulo" a menos que os iranianos cedessem, disseram participantes do encontro.

Como as negociações estão em andamento e as questões são muito delicadas, as autoridades e diplomatas falaram sob a condição de não serem identificados.

Em Teerã, na quinta-feira, o presidente do Irã, Mohammad Khatami, chamou o esboço original da resolução de "uma resolução ruim", acrescentando que "negociações intensas" estavam em andamento para mudá-la. "Nós somos contra critérios duplos de ocupação e imposição de políticas a outros países", disse ele.

O Irã insiste que tem o direito soberano de desenvolver tecnologia nuclear pacífica e que sua suspensão das atividades de enriquecimento é tanto voluntária quanto temporária.

Para provar seu argumento, o Irã se recusou a permitir que os inspetores da Agência Internacional de Energia Atômica selassem as 20 centrífugas que deseja utilizar para fins de pesquisa, disse um membro da agência.

As centrífugas estão na fábrica de enriquecimento de Natanz, uma vasta instalação que foi mantida em segredo dos inspetores da ONU até que um grupo iraniano de oposição revelou sua existência dois ano atrás.

Endurecimento

Há apenas três dias o Irã informou a agência que tinha suspendido "todo o processo de enriquecimento" em cumprimento ao acordo.

A nova resolução abrandada, que ainda é confidencial mas que circulou entre as delegações na quinta-feira, aparentemente ainda é dura demais para o Irã.

A agência de notícias oficial iraniana, Irna, citou um diplomata iraniano não identificado em Viena como tendo dito que o texto revisado ainda inclui uma ameaça implícita de submeter o Irã ao Conselho de Segurança caso a Aiea decida que o Irã violou a suspensão.

De fato, o mais recente esboço pede a ElBaradei que "continue verificando se a suspensão continua em vigor e informe sem atraso" à junta "caso a agência descubra que a suspensão não está sendo cumprida plenamente ou caso a agência seja impedida de verificar todos os elementos da suspensão", segundo o texto.

Outra cláusula do texto pede que o Irã permita que a agência tenha acesso aos locais dentro do Irã "considerados necessários" pela agência, um abrandamento do pedido original para que o Irã forneça "acesso irrestrito" à agência. Decisão contraria ONU e confirma teoria de Bush sobre eixo do mal George El Khouri Andolfato

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