UOL Notícias Internacional
 

27/11/2004

Adversários na Ucrânia fazem ato contra violência

The New York Times
C.J. Chivers*

Em Kiev, Ucrânia
O presidente em fim de mandato da Ucrânia, Leonid D. Kuchma, disse na noite desta sexta-feira (26/11) que os dois candidatos na contestada eleição presidencial concordaram em formar um grupo de trabalho para ajudar a evitar uma crise política nacional, e ambos concordaram em renunciar a violência como meio de resolver a disputa eleitoral.

Os acordos ocorreram após uma reunião de três horas no palácio presidencial Mariinsky, da qual participaram Kuchma e vários outros líderes europeus preocupados com a crescente agitação em torno do segundo turno eleitoral, realizado aqui no domingo.

Kuchma saiu da reunião para dizer a dezenas de milhares de pessoas reunidas na Praça da Independência para protestar contra os resultados da eleição, que todos os lados "se posicionaram contra qualquer uso de força que poderia levar a derramamento de sangue" e disse que o grupo de trabalho iniciará suas consultas imediatamente, segundo a agência de notícias "The Associated Press".

"Para supervisionar o processo de negociação, os lados criaram um grupo de trabalho para chegar a uma decisão conjunta para resolver a crise política", disse Kuchma, segundo a agência de notícias "Reuters". "O grupo começará a trabalhar imediatamente."

"Nós sem dúvida encontraremos uma forma digna de sair desta situação complicada. Nós entendemos que temos apenas uma Ucrânia, e que se fracassarmos em encontrar uma solução, as conseqüências serão as mais desfavoráveis."

Os resultados oficiais deram a eleição para Viktor F. Yanukovich, o primeiro-ministro, que é o candidato dos industrialistas e um aliado do presidente da Rússia, Vladimir V. Putin.

Milhares de simpatizantes do candidato de oposição pró-Ocidente, Viktor Yushchenko, que estão alegando fraude, bloquearam vários prédios públicos em Kiev na sexta-feira, faltando pouco para tomarem a capital.

Após a reunião da noite de sexta-feira, Yanukovich, parecendo descontente, deixou o palácio sem comentar.

Mas Yushchenko, que estava radiante enquanto apertava mãos de simpatizantes reunidos do lado de fora do palácio, disse para a multidão que insistirá em uma nova eleição e que uma solução para a crise será encontrada em questão de dias, segundo a "Reuters".

Yushchenko também disse para a multidão que ele rejeitou a proposta de Yanukovich de submeter as irregularidades aos tribunais.

"O primeiro-ministro não consegue ouvir vocês", disse Yushchenko. "Ele está oferecendo coisas que afastarão a Ucrânia ainda mais da solução desta crise política. Nós apenas negociaremos a realização de uma nova eleição."

No início da noite, em um discurso televisionado, Kuchma pediu à multidão de manifestantes presente nas ruas de todo o país que permanecesse pacífica.

"Acalmem suas paixões", disse Kuchma. "Qualquer revolução precisa terminar com paz. Quanto mais cedo esta revolução, esta chamada revolução, terminar, melhor será para a população cujo destino nos preocupa tanto."

Observadores eleitorais internacionais disseram que a eleição de domingo foi manchada por ampla fraude e abuso de poder por parte do Estado para favorecer o primeiro-ministro. Os países ocidentais, incluindo os Estados Unidos, condenaram os resultados oficiais e pediram investigações.

Segundo relatos, o presidente da Polônia, Aleksander Kwasniewski, esteve presente na reunião de sexta-feira, juntamente com Javier Solana, o chefe de política externa da União Européia, e o presidente da Lituânia, Valdas Adamkus. Há também relatos de que o presidente do Parlamento russo, Boris Gryzlov, esteve presente.

Resultado sub judice

Na quinta-feira, a Suprema Corte suspendeu temporariamente a vitória oficial de Yanukovich, impedindo a publicação dos resultados da Comissão Eleitoral Central até que o tribunal analise as queixas de fraudes e abuso.

O tribunal disse que anunciará uma decisão sobre os méritos das queixas da oposição já nesta segunda-feira (29). Além disso, o Parlamento da Ucrânia decidiu realizar uma sessão de emergência no sábado.

A decisão inesperada do tribunal, divulgada tarde da noite de quinta-feira, enquanto a campanha de Yanukovich oferecia aberturas para a oposição e anistia legal para seus membros, fortaleceu Yushchenko e os milhares de manifestantes na Praça da Independência, na capital.

"Deus existe", disse Yushchenko para os manifestantes, muitos dos quais esperando, como ele, aproximar a Ucrânia da Europa. Assim que ele disse para a multidão que as queixas de abuso eleitoral seriam ouvidas pelo tribunal, a praça explodiu em comemoração.

A decisão provocou tensão perceptível no campo de Yanukovich, que tem inclinação para a Rússia e tem tentado vestir o manto de vencedor depois que o governo do presidente Kuchma validou os contestados resultados eleitorais na quarta-feira. Uma nova batalha pela autoridade legal e pela percepção pública estava em andamento.

Putin, em Haia para um encontro de cúpula da União Européia, chamou o resultado da eleição de "absolutamente claro". Em resposta à recusa da União em aceitar os resultados da eleição, Putin condenou a interferência na política ucraniana.

Os seguidores de Yushchenko também tiveram sua moral elevada quando um general da SBU, a sucessora da KGB na Ucrânia, apareceu no palco ao lado de Yushchenko no início da noite. Apesar de isto não ser um indício da disposição da SBU, a aparição do oficial uniformizado, que se identificou como sendo o general Skipalksy da região de Kiev, foi a primeira demonstração pública de apoio à oposição por parte dos serviços de segurança, cujo papel poderá ser crucial caso a crise política, até o momento pacífica, se torne violenta.

Oficialmente, Yanukovich recebeu 49,46% dos votos e Yushchenko recebeu 46.61 %. A decisão de quinta-feira foi processual e não oferece indício sobre se tais números serão confirmados.

Os juízes não pesaram os méritos das queixas de Yushchenko de irregularidades e fraude, mas sim ordenaram que os resultados não sejam publicados pelo governo até que as queixas possam ser estudadas. Segundo a lei ucraniana, até que os resultados da eleição sejam publicados oficialmente pelo governo, eles não são legais, disseram representantes de ambas as campanhas.

Mesmo esta decisão inconclusiva foi vista como sendo de grande significado pela oposição, que disse que ela sugere rachaduras públicas em um governo que Kuchma antes controlava firmemente. Além disso, ela animou os manifestantes, que permanecem sob frio e neve há seis dias, e abriu uma nova frente para publicidade e clamor público no esforço da oposição de anular os resultados.

"Esta decisão da Suprema Corte é um marco na luta para reverter a eleição", disse Oleg Rybachuk, o chefe de equipe de Yushchenko.

Mas apesar de a equipe de campanha de Yanukovich e simpatizantes admitirem surpresa e em alguns casos irritação e preocupação, seus líderes disseram que assim que o tribunal ouvir as queixas de Yushchenko, o primeiro-ministro prevalecerá novamente. Nem Kuchma nem Yanukovich fizeram comentários públicos sobre a decisão.

"A Suprema Corte nunca exigirá o cancelamento dos resultados da eleição", disse Stepan Gavrish, o chefe da facção de Yanukovich no parlamento ucraniano. "É praticamente impossível."

O anúncio da decisão da Suprema Corte ocorreu após Yushchenko ter passado o dia tentando expandir seu apoio e assegurar vitórias simbólicas, enquanto também tentava avaliar os efeitos de uma greve geral, que ele convocou na esperança de forçar Yanukovich e Kuchma a anularem os resultados.

A greve pareceu ter um feito dúbio; os serviços de transporte estavam funcionando normalmente, mas algumas fábricas teriam fechado e os universitários não foram às aulas.

Yanukovich também estava tentando assegurar vantagem e romper o impasse político oferecendo concessões. Suas propostas incluíam garantias de anistia legal aos membros da oposição, assim como a promessa de proteger os direitos políticos da oposição e das minorias, para encorajar mais vozes independentes na mídia ucraniana e transferir poderes presidenciais não especificados para o Legislativo.

Sua oferta, feita em uma coletiva de imprensa por Sergei Tihipko, seu gerente de campanha, foi rejeitada sumariamente pelo campo de Yushchenko. "Nós nunca, nunca aceitaremos os resultados desta eleição", disse Rybachuk.

Com o país em um impasse e a aceleração das ações dos dois campos, Yushchenko apareceu várias vezes durante o quinta-feira com Lech Walesa, o ex-presidente polonês, vencedor do Nobel e fundador do movimento Solidariedade, que veio a Kiev para pedir a ambos os lados que evitem a violência e negociem suas diferenças. Os sentimentos de Walesa pendiam claramente a favor da oposição.

"Por toda minha vida eu lutei por estes ideais", ele disse em uma breve aparição diante dos jornalistas. Posteriormente, na quinta-feira no palco na Praça da Independência, Walesa disse para milhares de manifestantes reunidos que ele admirava o espírito deles. Ele pediu para que não cedessem.

"Vocês podem contar com o apoio da Polônia e de Walesa", disse ele. "Mas não podemos fazer isto por vocês. Vocês mesmos têm que fazer isto."

O gênio saiu da garrafa

A Ucrânia, um país de cerca de 48 milhões de habitantes, se encontra em uma das encruzilhadas entre a Rússia e o Ocidente, e sua política interna reflete isto.

A maioria dos eleitores na Ucrânia Ocidental, onde os sentimentos nacionalistas são fortes, apóia Yushchenko, que tem defendido em parte uma maior aproximação entre o país e a Europa. A grande maioria na Ucrânia Oriental, uma região mais industrial, busca relações mais estreitas com a Rússia, que sempre manteve fortes ligações políticas, culturais e de língua com a Rússia.

Os eventos iniciais de quinta-feira exibiram os cálculos e pensamentos por trás das ações de Kuchma e Yanukovich, mas os eventos posteriores demonstraram que o controle antes autocrático dos governantes não era mais completo.

Yushchenko, um ex-presidente do banco central que serviu brevemente como primeiro-ministro, conta com um grupo grande e organizado de seguidores, incluindo um movimento jovem consciente que parece dispor da energia e da resistência para realizar manifestações por tempo prolongado.

O sentimento da população na capital está claramente ao lado dele, e os líderes e governos ocidentais têm apoiado seu pedido de investigações das fraudes e de uma eleição limpa para determinar o presidente.

Mas apesar de todo o apoio moral dado a ele, Yushchenko até a quinta-feira tinha fracassado em conseguir atrair elementos essenciais do governo de Kuchma para o seu lado, e membros da campanha de Yanukovich e do círculo interno de Kuchma disseram que ele já chegou ao máximo que podia.

Sergei Vasilyev, chefe do departamento de informação de Kuchma, descreveu as manifestações que ocupam vários espaços públicos como "teatro político" e previu que não durarão.

Muitos sinais no início da semana não eram encorajadores para a oposição. O esforço de Yushchenko para contestar a eleição no Parlamento fracassou quando ele não conseguiu reunir quorum para a convocação de uma sessão especial, e ele foi incapaz de impedir a Comissão Eleitoral Central de reunir o quorum para processar os resultados que o declararam oficialmente como perdedor.

E apesar das forças armadas, polícia e serviços de inteligência da Ucrânia não terem agido contra ele ou seus manifestantes, até a noite de quinta-feira elas não demonstraram sinais significativos de apoio, e fizeram pouco para dispersar os bandos de simpatizantes de Yanukovich, que começaram a percorrer a capital, freqüentemente zombando da oposição.

Apesar de numericamente muito inferiores, os homens que compõem as manifestações pró-Yanukovich são freqüentemente ameaçadores e rudes; hoje eles vaiavam os pedestres e o tráfego com alguns dos piores insultos russos.

Os simpatizantes de Yushchenko notaram na quinta-feira que algumas placas carregadas pelos simpatizantes do governo não são sustentadas por varas leves de plástico, como as usadas pela oposição, mas sim por espessas ripas e bastões de madeira, que poderiam ser considerados como porretes.

Tihipko, o gerente de campanha do primeiro-ministro, disse que a oferta de negociar feita na quinta-feira, começando pelas concessões de Yanukovich, visavam começar a acalmar as ruas após o que ele chamou de vitória irrevogável do primeiro-ministro. "Agora nós podemos falar de passos para a redução da tensão", disse ele. Ele também falou de uma rápida cerimônia de posse para o presidente eleito: tal opção, por ora, foi afastada.

Logo em seguida, quando a decisão do tribunal sugeriu que Yushchenko ainda tinha uma chance, a oposição tirou proveito do novo impulso e as ruas se tornaram ainda mais barulhentas.

A tensão teve um efeito evidente sobre uma pessoa da equipe do primeiro-ministro, Oleksandra Ruzhel, que disse que seu filho deixou de freqüentar as aulas na faculdade e se juntou à oposição.

"Eu me sinto péssima, é horrível", disse ela. "Primeiro foi euforia, e agora as pessoas estão gritando nas ruas. Eu estou tão cansada deste barulho, e também estou muito preocupado com as pessoas. Elas deixaram este gênio sair da garrafa."

*Colaborou Maria Newman, de Nova York. Yushchenko reinvindica realização de novo 2º turno em dezembro George El Khouri Andolfato

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