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27/11/2004

Políticos do Iraque querem adiamento da eleição

The New York Times
Edward Wong*

Em Bagdá, Iraque
Alguns dos mais poderosos grupos políticos do Iraque, incluindo o partido liderado pelo primeiro-ministro interino, pediram nesta sexta-feira (26/11) pelo adiamento em seis meses das eleições marcadas para 30 de janeiro, citando preocupações com a segurança.

A lista dos grupos que pedem o adiamento inclui alguns dos que apóiam mais fortemente a política americana no Iraque, e o pedido deles indica a repentina força daqueles que pedem o adiamento. Os dois principais partidos curdos apoiaram o pedido de adiamento, marcando a primeira vez em que os curdos, aliados dos americanos, assumiram uma posição clara sobre o assunto.

O presidente Bush, falando aos repórteres em seu rancho em Crawford, Texas, disse que espera que as eleições sejam realizadas no prazo. Mas nos últimos dias, funcionários do governo envolvidos na política para o Iraque indicaram, em comentários privados, que insistirão com a data de janeiro para as eleições apenas se o governo iraquiano assim desejar.

O governo iraquiano propriamente dito não se juntou à petição à comissão eleitoral, e o partido do primeiro-ministro Ayad Allawi deu apenas apoio verbal em vez de assinar o documento assinado por pelo menos 15 grupos e dezenas de figuras políticas e religiosas, após uma agitada reunião de duas horas na casa de Adnan Pachachi, um proeminente político sunita, em Bagdá.

"Os participantes pedem o adiamento das eleições em seis meses para solução da atual situação da segurança e para que sejam concluídos os arranjos administrativos, técnicos e de sistema necessários", disse a petição.

Um participante disse que o partido de Allawi, o Acordo Nacional Iraquiano, se limitou a um acordo verbal por temer que um pedido por escrito do primeiro-ministro para adiamento da eleição pudesse ser visto como um esforço de interesse próprio para permanecer no poder.

Os muçulmanos xiitas, que correspondem a pelo menos 60% da população, têm sido inflexíveis na realização das eleições no final de janeiro. Os árabes sunitas, e em menor grau os curdos, têm expressado temores de que os xiitas dominarão amplamente o novo governo e exercerão seu poder de forma incontrolada. Os árabes sunitas e os curdos correspondem cada um a cerca de um quinto da população, e os sunitas governaram o que atualmente é o Iraque por séculos, até a derrubada de Saddam Hussein.

Uma Constituição interina, aprovada na primavera, diz que as eleições devem ser realizadas até o fim de janeiro. No domingo, uma comissão eleitoral iraquiana independente estabeleceu o dia 30 de janeiro como o dia da eleição. Mas mesmo antes disso, alguns partidos, particularmente os dominados pelos árabes sunitas, começaram a se mobilizar por um adiamento, argumentando que a violência nas regiões sunitas no centro e norte do Iraque afastarão os eleitores das urnas.

Na cidade de Mosul, por exemplo, os ataques aumentaram, e oficiais militares americanos disseram na sexta-feira que mais 15 corpos iraquianos, alguns decapitados, foram encontrados.

A maioria dos grupos que se reuniram na casa de Pachachi é secular e liderada por árabes sunitas. O pedido de adiamento aumenta ainda mais a crescente divisão política entre árabes sunitas e xiitas, e ressalta as grandes divisões sectárias que ameaçam desfazer a estrutura social deste país.

A maioria dos partidos seculares também é pouco conhecida no momento e quer mais tempo para organizar campanhas contra os candidatos religiosos.

Mas aqueles que pediram o adiamento na sexta-feira citaram a deterioração da condição da segurança como principal motivo.

Confusão

Quatro funcionários de uma empresa de segurança britânica, a Global Risk Strategies, foram mortos e até 15 ficaram feridos quando um foguete atingiu o interior da fortificada Zona Verde de Bagdá, na quinta-feira, que abriga os escritórios do governo interino e a embaixada americana, disseram prestadores de serviço de segurança na sexta-feira. Vários relatos indicaram que pelo menos dois e talvez todos os quatro homens que morreram eram nepaleses e tinham vindo das fileiras dos famosos guerreiros gurka

As tropas americanas na devastada cidade de Fallujah continuaram realizando buscas de casa em casa por rebeldes, ocasionalmente se envolvendo em tiroteios. O general de exército John F. Sattler, comandante da 1ª Força Expedicionária Marine, disse que os soldados já revistaram quase metade dos prédios da cidade em quase duas semanas desde o fim da ofensiva liderada pelos americanos.

Milhares de soldados liderados pelos Estados Unidos continuaram uma varredura na província de Babil, uma área sunita imediatamente ao sul de Bagdá que é repleta de bandidos e rebeldes. Os soldados estão realizando incursões em cidades e aldeias ao longo da opulenta bacia do Rio Eufrates. Os marines tentaram uma ofensiva semelhante na mesma área, no mês passado, mas que não foi bem-sucedida.

Na cidade sagrada xiita de Najaf, os clérigos pediram nas orações de sexta-feira para todos participarem das futuras eleições. O grão-aiatolá Ali Al Sistani, o mais poderoso clérigo xiita no Iraque, insistiu para que as eleições ocorram na data marcada.

Um organizador ligado à comissão eleitoral iraquiana disse em uma entrevista que os comissários discutirão os novos pedidos de adiamento das eleições, mas expressou dúvida de que haverá alguma mudança.

"Nós conversaremos sobre isto amanhã, mas nós não achamos que adiaremos as eleições", disse o organizador, Adel Al Lami. "Há um cronograma e nós precisamos nos ater a ele."

Al Lami disse que a comissão já está levando em consideração a situação precária da segurança no país em seu planejamento. O prazo até o qual os grupos políticos devem apresentar uma lista de candidatos para as cédulas foi prorrogado até 10 de dezembro, disse ele. A comissão também prorrogou até 30 de novembro a data de registro para os grupos políticos situados nas províncias mais violentas do Iraque, ele acrescentou.

Mas parece haver uma certa confusão entre os comissários sobre quem tem poder para adiar a data de 30 de janeiro. Al Lami disse que a comissão pode adiar as eleições em caso de circunstâncias extraordinárias. Mas o chefe da comissão, Abdul Hassan Al Hindawi, disse em uma recente entrevista que ninguém tem autoridade legal para empurrar a eleição para além de janeiro.

Os iraquianos elegerão membros para uma assembléia nacional de 275 cadeiras, que por sua vez escolherá um primeiro-ministro e outros membros do Executivo saídos de suas fileiras. A assembléia também estará encarregada de redigir uma Constituição permanente. As eleições para um governo de mandato integral estão previstas para o final de 2005.

Há duas outras duas votações também previstas para 30 de janeiro, a de líderes para as 18 províncias do país e a de uma assembléia curda no Norte.

Os políticos reunidos na casa de Pachachi não disseram o que farão caso as eleições sejam mantidas na data prevista. Se os partidos e eleitores sunitas decidirem abandonar as eleições, o resultado poderá ser considerado ilegítimo e a guerrilha liderada pelos sunitas poderá se intensificar. Um proeminente grupo sunita, a Associação dos Eruditos Muçulmanos, já pediu pelo boicote das eleições.

"Nós cruzaremos tal ponte quando chegarmos nela", disse Pachachi em uma entrevista, quando perguntado sobre o que os grupos farão caso a data das eleições não seja mudada. "Nós teremos que olhar para a situação como um todo e ver o que é razoável."

*Colaboraram Khalid Al Ansary de Bagdá, Richard Oppel Jr. de Mosul, Robert Worth de Fallujah, e Steven Weisman de Washington Partidos alegam que não há segurança suficiente para a campanha George El Khouri Andolfato

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