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28/11/2004

Líder xiita do Iraque rejeita adiamento da eleição

The New York Times
Edward Wong

De Bagdá (Iraque)
O mais poderoso clérigo xiita do Iraque se opõe a qualquer adiamento nas eleições previstas para 30 de janeiro, como exigida por outras facções políticas, disseram líderes xiitas iraquianos no sábado.

A mais alta autoridade civil americana no Iraque, o embaixador John D. Negroponte, deu seu apoio de peso, dizendo que as eleições serão realizadas em janeiro, acrescentando: "Nós queremos fazer todo o possível para criar as condições para que todos aqueles aptos a votar neste país possam fazê-lo".

O escritório do clérigo xiita, o grão-aiatolá Ali Al Sistani, deixou sua posição clara em conversas por telefone, na sexta-feira, com os líderes muçulmanos sunitas que estão se mobilizando para um adiamento de seis meses das eleições, disse um dos líderes xiitas.

Ao longo da última semana, um movimento encabeçado pelos sunitas para adiamento das eleições ganhou força. Na sexta-feira, 17 grupos políticos, a maioria dominado pelos sunitas mas também incluindo grupos curdos, endossaram uma declaração pedindo à Comissão Eleitoral Iraquiana o adiamento da eleição de 30 de janeiro por causa da violência que toma conta de grande parte do país.

Entre os grupos que participam do protesto estão alguns dos maiores aliados da política americana no Iraque, como o partido político do primeiro-ministro interino, os principais partidos curdos e o partido de Adnan Pachachi, um antigo estadista sunita.

Os sunitas e os curdos, que correspondem cada um a um quinto da população do país, temem que a maioria xiita conquistará um poder irrestrito nas eleições. Os muçulmanos sunitas governaram a região por séculos, até a derrubada de Saddam Hussein, e estão preocupados com a perda de poder, e os curdos estão tentando assegurar que os xiitas não sairão das eleições com poder suficiente para se intrometerem nos esforços curdos para manter um governo razoavelmente autônomo no Norte.

O primeiro-ministro interino, Ayad Allawi, não apóia o adiamento das eleições, disse um porta-voz no sábado, apesar de que o adiamento o manteria no cargo por mais tempo.

Aqueles que fazem lobby pelo adiamento da data de 30 de janeiro, que foi estabelecida há uma semana, dizem que a não redução da violência nas regiões sunitas do centro e norte do Iraque afastarão os eleitores das urnas, colocando em dúvida a legitimidade dos resultados.

Os ataques rebeldes continuaram no sábado, com os guerrilheiros tomando escritórios do governo em Khalis, a 65 quilômetros a nordeste de Bagdá, e tropas americanas se envolveram em batalhas nas ruas devastadas de Fallujah.

Pelo menos um marine foi morto na sexta-feira, disseram oficiais militares no sábado.

Os defensores do adiamento das eleições dizem que precisam de tempo para persuadir poderosos grupos religiosos sunitas como a Associação dos Eruditos Muçulmanos para que recuem dos pedidos de boicote das eleições.

Mas as linhas de batalha foram traçadas no sábado, à medida que 40 grupos políticos, a maioria deles liderado por xiitas, se reuniram em Bagdá para divulgar uma declaração dizendo que não deve haver adiamento das eleições.

"O adiamento das eleições gerará novos problemas reais", disse Abdul Aziz Al Hakim, um proeminente político xiita que organizou a reunião. "Não há lado no Iraque que tenha direito de adiar as eleições."

Hakim, que mantém contatos com Al Sistani, disse que os motivos apresentados para o adiamento "não são suficientes" para convencer o aiatolá da necessidade de adiamento.

A Comissão Eleitoral Iraquiana, que é independente do governo interino iraquiano, divulgou uma declaração dizendo que a comissão não tem autoridade legal para adiar as eleições.

A Constituição interina aprovada na primavera passada ordena que as eleições ocorram até o final de janeiro, notou a comissão.

Enquanto percorria a cidade de Fallujah, em grande parte destruída pelas forças lideradas pelos americanos durante uma ofensiva de uma semana, Negroponte disse aos repórteres no sábado que as eleições não serão adiadas.

"As eleições nacionais ocorrerão em 30 de janeiro do próximo ano, e nós queremos fazer todo o possível para criar as condições para que todos aqueles aptos a votar neste país possam fazê-lo", disse ele em uma coletiva de imprensa em um centro jovem.

As autoridades americanas têm dito que a meta mais ampla no Iraque é estabelecer um modelo de democracia para o Oriente Médio, e o adiamento das eleições no Iraque poderia ameaçar tal empreendimento e adiar qualquer oportunidade para reduzir a presença dos 140 mil soldados americanos aqui.

As autoridades americanas queriam originalmente que os iraquianos redigissem uma Constituição permanente para o país antes de realizarem eleições gerais. Mas no ano passado, Al Sistani e os líderes xiitas defenderam eleições para a Assembléia que redigirá a Constituição, argumentando que o país precisa ser entregue a um governo iraquiano legítimo o mais cedo possível. As autoridades americanas cederam e têm apoiado plenamente o prazo desde então.

Um diplomata ocidental disse que se o prazo de 30 de janeiro for adiado, então outros importantes prazos em 2005, ligados à redação da Constituição iraquiana permanente e às eleições de mandatos plenos poderão ser descartados, provocando caos no processo de transição.

Mas a manutenção da data de 30 de janeiro tem uma grande desvantagem para os americanos: os partidos seculares preferidos pelo governo Bush não foram capazes de se organizar e fazer campanha para serem conhecidos. Os candidatos religiosos, particularmente os xiitas, presumivelmente dominarão as eleições caso sejam realizadas no prazo.

Um grande temor dos americanos é que o governo iraniano seja capaz de exercer influência aqui por meio de líderes governamentais xiitas, e de que os líderes religiosos sunitas promovam a disseminação do salafismo, uma corrente fundamentalista do Islã sunita que conta com Osama Bin Laden e o militante jordaniano Abu Musab Al Zarqawi entre seus adeptos.

Mas se as eleições forem adiadas, um dos maiores aliados dos Estados Unidos, o primeiro-ministro Allawi, poderia permanecer no cargo por pelo menos mais alguns meses.

Na sexta-feira, um representante do partido de Allawi, o Acordo Nacional Iraquiano, expressou apoio à petição a favor do adiamento, apesar do partido não ter somado sua assinatura às dos 15 grupos políticos no documento. Um participante disse que Allawi temia que qualquer tentativa de sua parte a favor do adiamento poderia ser vista como sendo de interesse próprio.

"Ele não está certo de que o adiamento das eleições garantirá automaticamente uma maior participação", disse o porta-voz, Thaier Al Naqib.

Nos 20 meses de guerra, a insurreição se tornou mais forte e mais letal, com o número de ataques e mortos aumentando mês a mês.

Em um ataque no sábado em Khalis, uma cidade a nordeste da capital, rebeldes armados com rifles automáticos e granadas propelidas por foguete realizaram uma ataque matutino contra um centro de segurança normalmente guarnecido por forças iraquianas e americanas, disseram militares americanos. Os rebeldes realizaram o ataque a partir de uma escola próxima.

Os soldados americanos responderam e eventualmente dominaram a escola, onde encontraram um depósito de granadas propelidas por foguete e morteiros, disseram os militares.

Na cidade sagrada xiita de Najaf, onde vive Al Sistani, líderes religiosos expressaram sua desaprovação do adiamento das eleições, independente do nível de violência.

"As eleições se tornaram uma preocupação diária para o povo iraquiano", disse Muhammad Hussein Al Hakim, filho e porta-voz do aiatolá Muhammad Said Al Hakim, um dos quatro grandes clérigos xiitas. "A data não é uma questão que pode ser debatida porque nós chegamos aos estágios finais dos preparativos para ela." EUA pretendem que o pleito se realize na data oficial: 30 de janeiro George El Khouri Andolfato

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