UOL Notícias Internacional
 

28/11/2004

Só cínicos são felizes em 'Desperate Housewives'

The New York Times
Virginia Heffernan

Em Nova York
Em 1958, John Cheever publicou "The Housebreaker of Shady Hill" [O arrombador de Shady Hill], uma das fábulas que definiu a mística suburbana na qual ficamos presos desde então. A história relata o desmoronamento de Johnny Hake, um morador do que Cheever estranhamente chama de "banlieue" [periferia em francês] de Nova York, um suburbanita para quem a vida é -o que mais?-- coquetéis e trajetos de trem para a cidade.

Hake perde o emprego no início da história; então tenta começar um novo negócio e fracassa. De repente ele fica sem dinheiro, fato que oculta de sua mulher. Além disso, mantém as aparências, até fingindo trabalhar, tudo com "cheques borrachudos chegando à compensação". Finalmente Hake passa a assaltar as casas de seus vizinhos, entrando nas mansões pelas portas abertas e roubando carteiras. O dinheiro o sustenta até que ele consegue um novo emprego, e se safa.

"Desperate Housewives" [Donas-de-casa desesperadas], o sucesso da ABC sobre as histórias entrelaçadas de quatro mulheres que moram num subúrbio não identificado, mistura comédia e suspense de uma maneira que será familiar para os antigos fãs de Cheever (quem o lê hoje?).

Embora ele consiga apoio por estar na moda (uma matéria de capa na revista "Newsweek" diz que o programa alimenta a mania de Hollywood por roteiros do tipo "O Que as Mulheres Querem"). O programa ousadamente descartou a exigência de temas atuais no horário nobre e adotou um modo abertamente literário. Não é uma inovação, mas uma reversão esperta, um trabalho de nostalgia total e um tributo ao tema típico de Cheever, o gótico suburbano.

Até 21 de novembro, todas as tramas do show tornaram-se escuras. Escuras como a morte. Bree Van De Camp (Marcia Cross), que começou a série apenas como uma dona-de-casa tensa com um casamento fracassado, agora é a mãe de um adolescente que dirige bêbado e acaba de mandar alguém para o hospital num atropelamento seguido de fuga; ela e seu marido encobrem o crime.

Gabrielle Solis (Eva Longoria), até recentemente uma simples esposa-troféu entediada que trai impunemente seu marido bêbado, agora está mais perto de ser apanhada; é possível que seu marido cabeça-quente a mate.

Lynette Scavo (Felicity Huffman) tornou-se uma viciada que roubou pílulas de uma amiga. E Susan Mayer (Teri Hatcher) não apenas está saindo com uma figura traiçoeira e possivelmente violenta, como supervisionou uma invasão a um hospital mental. Ela também está prestes a fazer perguntas demais sobre o suicídio de Mary Alice Young (Brenda Strong), o evento que deu início à série.

O cordão sanitário --chame-o de dinheiro-- que separa a banalidade da criminalidade é um dos assuntos preferidos de Cheever, e aqui, quase meio século depois, o tema recebe uma nova oportunidade. Grande parte do que faz o subúrbio funcionar nas histórias de Cheever são os gramados, as cercas, as entradas para carros e outros meios visíveis de separar uma vida da outra.

Em Wisteria Lane, onde vivem as donas-de-casa desesperadas, os moradores mantêm as cercas altas, cultivando --em contraste com outros programas sobre amigas-- uma grande ignorância recíproca.

Com sua ênfase para mulheres adultas e mal-amadas, o programa tem sido comparado a "Sex and the City", mas naquele programa o caso de Gabrielle com o jardineiro teria sido exaustivamente discutido por suas amigas; aqui está seu segredo, conhecido apenas por todos os fantasmas que tudo vêem de Mary Alice. O mesmo vale para o novo problema de drogas de Lynelle, e particularmente para o crime do filho de Bree, que ela deve manter em segredo especialmente de Gabrielle, cuja sogra foi a vítima.

No contexto de tanta privacidade cuidadosamente protegida, a maior ofensa em "Desperate Housewives" não é o furto, mas o outro crime de Johnny Hake: invadir residências.

Em um episódio recente chamado "Pode entrar, estranho", os moradores de Wisteria Lane formam uma patrulha paranóica em reação a uma invasão durante a qual nada é roubado; no mesmo capítulo, o filho desequilibrado de Mary Alice entra na casa dos Van De Camp apenas para enfeitá-la com decorações de Natal.

A invasão sem furto é assustadora porque implica, acima de tudo, reconhecimento. A velha piada sobre como esvaziar uma cidade --mande para todo mundo um bilhete dizendo "Tudo foi descoberto. Fuja!"-- ganha vida em "Desperate Housewives", no qual um bilhete que afirma um conhecimento terrível põe em ação a investigação amadora da turma sobre a morte de Mary Alice (o bilhete diz: "Eu sei o que você fez. Isso me enoja. Vou contar").

Na semana passada, tivemos uma pista de que a autora do bilhete pode ser Edie Britt (Nicollette Sheridan, cuja recente aparição escandalosa em "Monday Night Football" para promover "Desperate Housewives" colocou a rede em dificuldades).

Se for verdade, será bom para o programa. Entre outros personagens arquetípicos no beco sem saída --a adúltera, a bêbada, a lasciva--, ela é o oráculo: aquela que enxerga através das mentiras e fala a verdade.

Mas ao contrário de "Beleza Americana" ou "Six Feet Under" (A Sete Palmos), em que os personagens grosseiros ou sensíveis que desvendam a mentira são tratados como heróis, "Desperate Housewives" apresenta os oráculos no verdadeiro gótico suburbano como meras inconveniências. Eles não entendem o princípio básico de seu gênero: ser feliz é mais importante que dizer a verdade.

"Desperate Housewives" fez sucesso porque, assim como o melhor da televisão-realidade, ele atinge o suspense ameaçando seus personagens de expulsão. Todos os personagens parecem fazer parte da trama --mas somente por enquanto. A cerimônia de eliminação de Wisteria Lane parece perpetuamente próxima. E se de fato Edie, como corretora de imóveis, for uma invasora profissional que está fazendo o papel de oráculo, terá de ser expulsa.

Como Johnny Hake conclui sobre Shady Hill, apenas meio ironicamente, os subúrbios "estão abertos a críticas de planejadores urbanos, aventureiros e poetas líricos, mas, se você trabalha na cidade e tem filhos para criar, não posso imaginar um lugar melhor". Série é apresentada no Brasil pelo canal Sony às 21h das quintas Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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