UOL Notícias Internacional
 

29/11/2004

Alunos gays reivindicam coroas de rei e rainha

The New York Times
Sarah Kershaw

Em Seattle, Washington
A cerimônia de coroação, uma tradição de outono americana, que apresenta reis e rainhas com faixas de cetim e tiaras brilhantes, é um assunto tumultuado nas universidades hoje em dia.

As universidades e colégios do país, levados em grande parte por protestos de estudantes homossexuais, estão reformulando a coroação de reis e rainhas, títulos que às vezes premiam o desempenho acadêmico e outras são meramente concursos de popularidade. Ocasionalmente são acompanhados de bolsas de estudo generosas.

Muitas universidades e escolas começaram a abandonar a tradição nos anos 90, substituindo o rei e a rainha com "realezas" ou "os 10 melhores". Algumas, inclusive a Duke, acabaram com as coroações nos anos 70, quando feministas argumentaram que os concursos eram arcaicos e machistas, que promoviam papéis sexuais estereotipados.

Em outros lugares, porém, inclusive aqui na Universidade de Washington e em algumas escolas do Sul, os alunos apegaram-se às coroações e iniciaram um debate furioso, que de muitas formas espelha o debate nacional sobre o casamento entre pessoas do mesmo sexo.

Neste mês, na Universidade Vanderbilt em Nashville, um aluno gay que concorreu à coroação como rainha e tomou seu lugar na corte vestido de mulher em um jogo de futebol criou grande estardalhaço. Em outubro, alunos da Universidade Estadual de St. Cloud, em Minnesota, elegeram sua primeira rainha homem. O aluno e a universidade disseram que receberam uma enxurrada de telefonemas hostis e mensagens eletrônicas de pais e ex-alunos.

"Sempre tivemos o Sr. Heterossexual Vanderbilt e a Srta. Heterossexual Vanderbilt, reis e rainhas perfeitos", disse Everett Moran, 21, rapaz gay que concorreu para rainha da Vanderbilt.

Moran não conseguiu a coroa, mas foi eleito para a corte da escola, aparecendo no jogo de futebol no dia 6 de novembro de vestido preto e luvas vermelhas até os cotovelos, acentuados pela faixa amarela comum aos 11 alunos da corte. Mas ele fez muitos inimigos no processo, com os críticos xingando-o no jornal da faculdade e em outros lugares.

"Quando os homossexuais evitam a comunidade em geral, desaparecem nas sombras", disse ele. "Eu realmente queria colocar na cara de todo mundo. Queria fazer os estudantes reconhecerem que, neste campus, temos estudantes homossexuais e, por mais que a administração queira manter-nos marginalizados, não vou defender isso."

Em algumas instituições, há bailes de formatura gays separados. Mas estudantes como Moran dizem que isso não basta. Eles vêem a cerimônia de coroação como oportunidade de integrar hetero e homossexuais, em um ritual classicamente heterossexual.

É difícil precisar o número de universidades e escolas que recentemente reformularam sua tradição de coroação para incluir candidatos gays ou simplesmente eleger duas rainhas, dois reis, um rei mulher, uma rainha homem, hetero ou homossexuais. Entretanto, nos últimos cinco anos, pelo menos meia dúzia de instituições questionou a tradição, inclusive a Escola de Ensino Médio Hayward, na região da baía de San Francisco, onde uma menina heterossexual foi eleita rei no ano passado. Ela concorreu a rei porque não queria competir com sua melhor amiga, que foi eleita rainha.

"Primeiro, eles se concentraram no baile da escola. Agora, começaram a dizer: 'Queremos ser incluídos nas coroações'", disse Kevin Jennings, diretor executivo da Rede de Educação Gay, Lésbica e Heterossexual, um grupo sem fins lucrativos com sede em Nova York.

Jennings disse que, no último ano, ouvir falar de um número crescente de estudantes perguntando sobre as mudanças na coroação para incluir gays. "Supõe-se que meninos estejam com meninas e assim por diante, mas os homossexuais estão dizendo que há outra forma de ser", disse ele. "Para algumas pessoas, isso é assustador."

Na Faculdade Estadual de St. Cloud, perto de Minneapolis, houve grande tensão entre pais e ex-alunos no mês passado. Uma sala de bate-papo da Internet, administrada por um jornal local, The St. Cloud Times, foi soterrada com a reação venenosa à seleção de Fue Khang, um rapaz de 22 anos, como rainha.

"A rainha deve ser mulher, e Fue deve entregar a coroa", disse Kim Ferber, 43, cuja filha candidatou-se à rainha em St. Cloud e que, recentemente, circulou uma petição na cidade para reverter a decisão, conseguindo 500 assinaturas. "A cidade está humilhada."

Ferber disse que a controvérsia da coroação lembrava o debate sobre o casamento entre pessoas de mesmo sexo. "A gente se pergunta o que virá depois", disse ela. "Temos que estabelecer um limite."

Khang, que não disse se é ou não gay, tornou-se uma espécie de celebridade entre homossexuais nas últimas semanas. Ele recusou-se a dar entrevista, dizendo por meio de uma porta-voz da universidade que estava com medo que mais atenção da mídia o colocasse em risco.

O presidente de St. Cloud, Roy H. Saigo, que apoiou a candidatura de Khang, emitiu uma declaração por correio eletrônico, pouco depois da eleição de Khang, que dizia: "As universidades há muito catalisam o trabalho de criar uma sociedade justa e aberta. Elas têm um importante papel em apoiar a justiça social, igualdade e oportunidade educacional, mesmo quando as tradições são questionadas".

Na Vanderbilt, funcionários disseram que não ofereceram resistência à candidatura de Moran -apesar de ter havido reuniões para discutir se permitiriam que aparecesse no jogo de futebol vestido de mulher. Os funcionários disseram que cabia aos alunos decidirem se modificariam a tradição da coroação.

Entre os alunos da universidade, houve muitas críticas, inclusive de um colunista do jornal da escola, que chamou a medida de "mais uma tradição que saiu pelo ralo".

"Estamos entre a cruz e a caldeirinha", disse Evan T. Mayor, editor do jornal, The Vanderbilt Hustler, que se viu inundado de cartas iradas quando Moran decidiu concorrer. "Estamos tentando ser uma instituição diversa, mas ao mesmo tempo, estamos no Sul, um lugar de profunda tradição. Acho que a coisa politicamente correta é nos livrarmos disso."

Aqui em Seattle, houve muito menos rancor quando a Universidade de Washington coroou duas rainhas, mas nenhum rei. As duas são heterossexuais, cujos títulos foram anunciados diante de um estádio lotado, quando o Washington Huskies perdeu para o Arizona Wildcats. Os alunos da universidade decidiram que as bolsas de US$ 1.000 (cerca de R$ 3.000) deviam ser distribuídas sem levar em conta o sexo.

"Acho que todo mundo está chocado com a mudança, que considero monumental", disse Emi Nomura Sumida, 20, uma das duas coroadas, pouco depois sua coroação, no jogo de futebol, usando uma faixa cor de lavanda e segurando buquês gigantes de crisântemos.

"Meus amigos ficaram muito felizes por nós", disse Nomura Sumida, que estuda comunicação. "Mas quando você fala com outras pessoas, elas dizem: 'Duas mulheres, isso é estranho.'"

A outra rainha, Glorya Cho, 19, que cursa relações internacionais, acrescentou: "Acho que os títulos específicos a um sexo estão se tornando obsoletos."

Contribuíram para este artigo Brian Alexander e Eli Sanders. Tradição ultrapassada funciona como meio de concessão de bolsas Deborah Weinberg

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