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30/11/2004

Crise do "Le Monde" faz o editor-chefe renunciar

The New York Times
Doreen Carvajal

Em Paris
Edwy Plenel, há muitos anos editor-chefe do jornal francês "Le Monde", renunciou ao seu posto nesta segunda-feira (29/11). O principal diário francês no momento enfrenta uma crise, com quedas nos anúncios publicados e na circulação do jornal.

O editor declarou num comunicado da empresa que estava se retirando para se devotar "às simples alegrias do jornalismo e da escrita". Ele comandou o jornal durante quase nove anos, inclusive num período turbulento em que o "Le Monde" foi duramente investigado pelos autores de um best-seller chamado "A Face Oculta do 'Le Monde'".

O jornal enfrentou três anos seguidos no vermelho e cortou de sua folha de pagamento 90 pessoas, como conseqüência de uma queda brusca no faturamento, que a empresa atribui à diminuição das receitas de circulação e publicidade.

Nesta segunda, Plenel não esteve disponível para nada além de sua declaração oficial, de acordo com um assistente. Mas na redação do jornal sua saída foi saudada com algumas manifestações de alívio.

"A maioria dos jornalistas daqui queria ele fora daqui agora", disse um jornalista do "Le Monde", insistindo no anonimato com medo de más repercussões na carreira dele. "O que acontece é que perdemos circulação, sendo que algumas pessoas dizem que nós também perdemos credibilidade, por causa do livro e por causa de fortes manchetes na capa que não eram acompanhadas de matérias substanciais".

Numa declaração distribuída aos empregados, Jean-Marie Colombani, o diretor-executivo do "Le Monde", louvou o trabalho enérgico de Plenel e a extraordinária devoção ao jornal, observando que a renúncia do editor-chefe encerrava um período de 10 anos em que os dois estiveram inseparáveis.

Plenel, 52 anos, começou sua carreira no "Le Monde" em 1980 como repórter da área de educação e depois se mudou para editoria policial, se firmando como repórter investigativo que causava sobressaltos em políticos de primeira linha como Francois Mitterrand, presidente francês na década de oitenta.

Plenel ficou em evidência no que as autoridades consideraram ser uma conspiração por escuta telefônica, que levou a julgamentos alguns dos mais próximos assessores do presidente, sob acusações de violação de privacidade.

Como editor-chefe, Plenel se manteve sempre sob os holofotes, aparecendo em programas da televisão e escrevendo um livro premiado, "Segredos da Juventude", em que descreveu seu passado de trotskista.

Bertrand Pecquerie, diretor do Fórum Mundial de Editores, sediado em Paris, declarou que a partida de Plenel representaria o início da reorganização da imprensa francesa.

"Essa é uma renúncia muito importante para os franceses", disse Bertrand. "Essa não é uma história que diga respeito apenas ao 'Le Monde'. Tem a ver com toda uma comunidade de jornalistas e editores, que se emocionam com o assunto. É o resultado de muitas e muitas perdas. É o resultado da falha de uma estratégia. Nesse momento, eles precisavam de uma vítima".

O "Le Monde" foi fundado em 1944 pelo jornalista Hubert Beuve-Mery, a pedidos do general Charles de Gaulle. A condição era que Hubert criasse um jornal independente lançado às noites e que pudesse ser como a "consciência da nação".

Mas, no ano passado, a credibilidade do "Le Monde" foi atacada por um livro de Pierre Pean e Philippe Cohen, que acusava o jornal de inflar suas cifras de circulação e de abusos de poder para "levar vantagens que permitiam colocar suas contas numa melhor posição de mercado".

Os principais diretores do "Le Monde" contestaram vigorosamente as conclusões desse livro. Mas, desde então, a posição do "Le Monde" despencou --em dois anos, a circulação caiu de 407.000 para 380.000, numa tendência de baixa que também afetou muitos outros jornais franceses.

As dívidas do "Le Monde", enquanto isso, só aumentam. Agora em novembro, um relatório previu que as perdas financeiras esse ano poderiam chegar aos 35 milhões de euros (equivalente a mais de R$ 135 milhões) até o final de 2004.

Essas perdas intensificaram especulações de que o "Le Monde" buscará uma âncora de salvação. Esse mês o jornal alemão "Handelsblatt" noticiou que o Le Monde estaria procurando um investidor europeu que se interessasse em comprar até 25% da participação acionária do jornal. O "Le Monde" nega.

Mas, desde então, tem havido conversações com o Grupo Prisa, proprietário do diário espanhol "El Pais", de acordo com um informante que tem contatos nos dois jornais e que pediu para não ser identificado, devido à natureza delicada dessa negociação. O jornal atravessa crise de credibilidade, circulação e publicidade Marcelo Godoy

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