UOL Notícias Internacional
 

30/11/2004

Presidente ucraniano decide apoiar nova eleição

The New York Times
Steven Lee Myers

Em Kiev, Ucrânia
O presidente Leonid D. Kuchma propôs nesta segunda-feira (29/11) a convocação de novas eleições, para pôr um fim na crise política que ameaça dividir o país. Enquanto isso, a Suprema Corte da Ucrânia ouviu as queixas de fraudes nas eleições presidenciais da semana passada.

As observações de Kuchma representaram o colapso do que tinha sido uma posição unida do governo: que o primeiro-ministro Viktor F. Yanukovich vencera as eleições presidenciais do dia 21 de novembro, apesar das evidências de fraude e falsificações envolvendo milhões de cédulas.

"Se realmente quisermos manter a paz e a harmonia e realmente quisermos construir uma nova sociedade democrata regida pela lei, da qual falamos tanto, então que façamos novas eleições", disse Kuchma pela televisão, depois de uma reunião com líderes municipais em sua residência fora de Kiev.

No entanto, muito continuou obscuro, inclusive se Kuchma estava se referindo a uma nova disputa entre Yanukovich e seu oponente, Viktor A. Yushchenko, que a lei não permite, ou uma nova eleição desde o princípio. O comitê de campanha de Yushchenko descartou esta última, mais tarde.

Desviando-se das especulações que diziam que pretendia continuar no poder, Kuchma disse que não pretende concorrer a um terceiro mandato. "Deve ficar claro", disse ele. "Para mim, chega."

Yushchenko não respondeu imediatamente à proposta de Kuchma. De fato, ignorou-a, declarando a milhares de manifestantes na Praça da Independência que a luta seria decidida pela Suprema Corte e o Parlamento.

Nesta segunda, a corte começou a considerar as queixas de Yushchenko. O Parlamento, depois de, no sábado, tomar uma resolução invalidando os resultados das eleições, reunir-se-á novamente nesta terça-feira. Então, os partidários de Yushchenko exigirão a renúncia do governo de Yanukovich, assim como a do promotor geral e do ministro do interior, disse Yushchenko.

"Estou implorando a vocês para terem paciência", disse ele à multidão exaltada, deixando claro que ainda não estava pronto a aceitar a derrota em uma eleição que seus partidários acreditam que foi vencida. Ele apareceu esta noite com oficiais militares e policiais, que estão do seu lado, assinalando um racha na autoridade de Kuchma.

Nas ruas de Kiev, o anúncio de Kuchma aumentou a sensação de que a disputa está pendendo para o lado de Yushchenko. No London Cigar Club, na Rua Kreshchatik, maior avenida da cidade, o gerente, Sergey Yaresko, iniciou uma liquidação de 20% nos charutos cubanos.

"Temos um novo presidente", disse ele. "O governo ouviu a voz do povo."

A celebração pode ser prematura. Kuchma, presidente há 10 anos, sobreviveu a manifestações das massas antes e pode estar tentando encontrar uma solução política que não deixe Yushchenko assumir o cargo.

No domingo, líderes regionais da metade oriental do país, que fala russo, ameaçaram fazer referendos propondo a autonomia. Tais votações efetivamente dividiriam a Ucrânia em linhas étnicas, culturais e religiosas.

Uma porta-voz de Yanukovich, Hanna German, disse que a proposta de Kuchma era um esforço para encontrar uma solução. Entretanto, os diálogos entre os dois candidatos, promovido por diplomatas europeus na sexta-feira, agora parecem estar em um impasse, em grande parte porque o lado de Yushchenko está se sentindo forte.

German disse que o impasse estava ameaçando não só a estabilidade política, mas também a economia do país. O próprio Kuchma disse hoje que a economia poderia desmoronar "como um castelo de cartas", em questão de dias. Segundo relatos, houve corrida aos bancos e falta de dólares por causa do tumulto.

"Kuchma está procurando formas de fechar um acordo com a oposição", disse German, "mas esta responde na língua de ultimatos".

Kuchma reverteu sua posição, depois de oito dias de grandes manifestações nas ruas, que efetivamente fecharam Kiev e outras cidades, e depois de pressão diplomática contínua dos EUA e de países europeus, que se recusaram a reconhecer a eleição como honesta ou justa.

Ele fez sua proposta depois de conversar ao telefone com o secretário de Estado Colin L. Powell, que o instou a encontrar uma solução pacífica para preservar a Ucrânia unificada. A advertência de Powell foi reiterada por líderes políticos europeus.

"Reafirmei ao presidente Kuchma a posição dos EUA, que acho que é a posição de todos: que a integridade territorial da Ucrânia é importante. Reafirmamos que esperamos que os ucranianos encontrem uma forma legal de avançar em um processo político com base na lei constitucional para resolver o problema que estão tendo com respeito às últimas eleições", disse Powell em Washington.

A porta voz de Yushchenko, Irina Gerashchenko, desdenhou a proposta de Kuchma, chamando-a de estratagema. "Eles não estão prontos para assumir as fraudes falsificação das eleições e estão procurando saídas para manter o poder", disse ela, referindo-se ao governo de Kuchma.

Apesar de Yushchenko ter pedido várias vezes que o segundo turno de 21 de novembro fosse feito novamente, sua porta-voz descartou qualquer possibilidade de novas eleições. "Isso apenas prolongará a agonia do regime", disse Gerashchenko.

Yanukovich, que discursou desafiadoramente no domingo, parece ter perdido apoio significativo. Seu gerente de campanha, Sergei Tihipko, renunciou nesta segunda, levando grande parte de sua equipe. Ele também deixou o cargo de diretor do banco central do país, uma posição que mantinha apesar de supervisionar a campanha de Yanukovich. Tihipko tinha sido um dos porta-vozes mais proeminentes do primeiro-ministro em toda a campanha.

Ele partiu dizendo: "A melhor solução para resolver a situação seria refazer o segundo turno, o mais breve possível". Ele apareceu mais tarde no principal canal de televisão da oposição, 5, e disse que não podia descartar a possibilidade de concorrer à presidência, no caso de uma nova eleição.

Sua renúncia pareceu chacoalhar a campanha de Yanukovich, apesar de German, sua porta-voz, ter tentado diminuir sua importância. "Não chamaria de deserção", disse ela. "Ele apenas achou que, nessa situação, devia tomar uma posição diferente."

Yanukovich foi declarado presidente eleito há cinco dias, mas depois a Suprema Corte impediu sua posse. Ele sugeriu que também aceitaria uma nova eleição, mas citou apenas as duas regiões mais disputadas --sua região natal, Donetsk, e a vizinha Lugansk-- e somente "se houver evidências de falsificação".

Ele também declarou ter enviado sua família para um esconderijo, talvez no exterior, por causa da agressividade de manifestantes da oposição. A controvérsia sobre a eleição consumiu uma sessão extraordinária na Suprema Corte, que foi transmitida ao vivo em hotéis, restaurantes e em telas gigantescas ao ar livre, montadas por partidários de Yushchenko.

Com milhares de manifestantes reunidos do lado de fora, os 21 juízes da corte debateram com os advogados dos dois candidatos as queixas da campanha de Yushchenko, que alega que milhões de votos foram fraudulentos. O juiz Anatoly Yarema, teve que chamar a atenção dos advogados dos dois lados.

Não é possível prever a resolução da Suprema Corte, mas as questões formuladas pelos juizes indicaram que levaram a sério as acusações. O que aconteceu foi um exercício em jurisprudência, em um país que apenas começou a estabelecer tradições democráticas.

Pela manhã, o juiz Yarema recebeu uma caixa de papelão contendo documentos e fitas de vídeo e áudio, evidências que provam casos de violações da lei eleitoral, segundo um dos advogados de Yushchenko. O juiz também aceitou gravações secretas, que a campanha de Yushchenko disse incluir conversas entre os gerentes de campanha de Yanukovich, indicando que os resultados estavam sendo manipulados.

A fonte dessas gravações continua misteriosa, apesar de um alto diplomata dizer em entrevista recente que pareciam autênticas.

Às vezes, durante uma audiência que durou o dia todo, o juiz Yarema teve que chamar a atenção dos dois lados. Um dos advogados de Yushchenko, Yuri A. Karmazin, citou uma série de violações em postos de votação, inclusive irregularidades com cédulas de eleitores em trânsito e casos de múltiplas votações.

"Foi tudo banditismo", disse ele, sendo censurado pelo juiz Yarema. "Atenha-se ao texto de sua queixa". Quando a advogada de Yanukovich, Yelena L. Lukash, ficou criticando as alegações da oposição, ele a cortou várias vezes. "Não estamos fazendo uma conferência com a imprensa", disse.

Depois de quase oito horas de audiências, a corte interrompeu os trabalhos e marcou uma nova sessão para esta terça-feira. Do lado de fora, os partidários de Yushchenko acompanharam as discussões por alto-falantes.

Konstantin Gorbach, pedreiro da cidade de Zhitomir, disse que não precisava de uma resolução da Suprema Corte para saber que as eleições não tinham sido justas. Ele disse que se uniu aos protestos depois de perder o emprego por ter ignorado a ordem de seu chefe de votar em Yanukovich.

Como exatamente seu patrão soube em quem você votou? "Eu disse a ele. Por que haveria de esconder?"

*Colaborou C. J. Chivers. Decisão fortalece ainda mais o candidato da oposição, Yushchenko Deborah Weinberg

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