UOL Notícias Internacional
 

01/12/2004

Falcão da segurança interna dos EUA renuncia

The New York Times
David Stout*

Em Washington
Tom Ridge, que recebeu a tarefa de aglutinar uma miríade de agências federais em um novo departamento para enfrentar uma guerra de características novas após o 11 de setembro, disse nesta terça-feira (30/11) que renunciaria ao cargo de secretário de Segurança Interna, que ele foi o primeiro a ocupar, em 1º de fevereiro. Ridge é considerado um dos assessores mais próximos do presidente americano, George W. Bush.

Ridge, que descreveu a sua decisão em uma coletiva à imprensa como "muito difícil", estaria planejando há muito tempo a sua saída do governo Bush por motivos pessoais, de forma que a notícia da sua renúncia não chegou a surpreender.

"Quero apenas sair de cena e dedicar um pouco mais de atenção a questões pessoais", disse Ridge nesta terça, observando que no caso das pessoas que trabalham no governo "a família inteira acaba vestindo o uniforme do serviço público".

Ridge disse estar satisfeito com o fato de a agência haver progredido na tarefa de conter as ameaças representadas por terroristas, mas reconheceu que "sempre haverá mais trabalho a fazermos com relação à segurança interna".

Referindo-se aos 180 mil funcionários do departamento, Ridge disse: "As decisões individuais tomadas por esses homens e mulheres nos portos de entrada têm tanto a ver com a segurança do país quando qualquer decisão individual que posamos tomar nos centros de poder".

"Temos que estar certos mais de um bilhão de vezes por ano", disse Ridge. "Isso significa que temos que tomar centenas de milhares, ou até milhões, de decisões todos os anos, e os terroristas só precisam estar certos uma vez".

O senador Charles E. Schumer, democrata de Nova York, elogiou os esforços de Ridge, mas culpou a administração Bush por não fornecer ao secretário e ao novo departamento os recursos apropriados.

"Tom Ridge é um homem decente e um ótimo servidor público, mas infelizmente não contou com a autonomia e os recursos para incrementar a segurança nacional da forma que deveria ser feito", disse Schumer. "Esperamos que quem quer que o governo escolha para sucedê-lo receba as ferramentas necessárias para realmente fazer o trabalho".

Vários nomes estão circulando como possíveis sucessores de Ridge, entre eles:

  • Asa Hutchinson, 53, um ex-congressista de Arkansas e ex-chefe da Agência de Combate às Drogas (DEA na sigla em inglês), que atualmente está subordinado a Ridge, como subsecretário de segurança de fronteiras e de transportes.

  • Frances Townsend, 42, ex-promotora, que atualmente é assessora de segurança interna da Casa Branca. Anteriormente, ela atuou como vice-assessora de segurança nacional no setor de contra-terrorismo, mas jamais administrou uma burocracia tão vasta quanto a Secretaria de Segurança Interna. O seu currículo inclui serviços prestados como comandante-assistente de inteligência na Guarda Costeira e assessora da procuradora-geral Janet Reno durante o governo Clinton.

  • Mike Leavitt, 53, administrador da Agência de Proteção Ambiental desde novembro de 2003 e ex-governador de Utah, com experiência em questões de segurança interna.

  • Mitt Romney, 57, governador de Massachusetts desde novembro de 2002, e membro do Comitê Assessor de Segurança Interna. Romney, um republicano, advogado e especialista em finanças, foi presidente e diretor-executivo do comitê organizador das Olimpíadas de Inverno de 2002 em Salt Lake City, que transcorreu sem incidentes após o 11 de setembro.

  • Bernard Kerik, assessor enviado presidencial norte-americano ao Iraque. Anteriormente, foi ministro interino do Interior no Iraque e, antes disso, comissário de polícia da cidade de Nova York.

  • Joe Allbaugh, diretor da Agência de Gerenciamento Federal de Emergência, que possui 2.500 funcionários que fiscalizam atividades de auxílio em casos de desastres de expressão federal.

    Sistema colorido

    Ridge, 59, é ex-governador da Pensilvânia e ex-congressista republicano de Erie, a cidade portuária dos Grandes Lagos, na extremidade noroeste daquele Estado. Ele tomou posse como o primeiro diretor do Departamento de Segurança Interna em outubro de 2001, apenas algumas semanas após os ataques terroristas de 11 de setembro.

    Em 24 de janeiro de 2003, Ridge se tornou o primeiro secretário do Departamento de Segurança Interna, uma nova e vasta burocracia federal composta de cerca de 180 mil pessoas de diversas agências que já existiam antes de os ataques terroristas precipitarem a criação do novo órgão.

    A criação do departamento, que colocou sob uma mesma orientação os órgãos encarregados da alfândega, da imigração e do controle de fronteira, e entre outros, consistiu na mais significativa reorganização governamental em mais de meio-século, desde a criação do Departamento de Defesa, pouco depois da Segunda Guerra Mundial.

    Ridge conheceu o presidente Bush em 1980, quando trabalhou em uma fracassada campanha presidencial para o pai do atual presidente. Amigos de ambos disseram em 2002, quando Bush nomeou Ridge para o seu posto no Gabinete, que os dois haviam cultivado uma relação estreita e quase fraternal durante a campanha de 1980 e que a amizade se fortaleceu nos anos seguintes. Ao anunciar a nomeação de Ridge, Bush elogiou o amigo, dizendo que este possuía a força, a experiência e a determinação para presidir o novo departamento.

    "Ele é o homem certo para essa nova e grande responsabilidade", disse Bush.

    Embora Ridge parecesse ter cometido erros no seu primeiro período como diretor de segurança interna do presidente, cargo precursor daquele de nível de Gabinete como secretário de Segurança Interna, especialmente no que se refere à sua atuação quanto aos casos de ataque com antraz pouco após a sua chegada a Washington, parlamentares de ambos os partidos acabaram admitindo que ele fizera um bom trabalho e acabaram confirmando o seu nome no Senado por unanimidade.

    Mas o mandato de Ridge enfrentou percalços, e até alguns embaraços, incluindo o seu sistema de códigos de cores para designar os níveis de ameaça terrorista, que foi alvo de muitas piadas. Por outro lado, foram poucos os funcionários do governo já chamados para participar da criação de um órgão tão grande.

    Segundo assessores, a magnitude da tarefa de reformar o sistema de segurança doméstica face às constantes ameaças de terrorismo e as batalhas burocráticas internas que acompanharam a mudança sobrecarregaram o secretário.

    Por vezes os democratas e outros críticos acusaram Ridge de ter politizado a questão da segurança nacional. Eles alegam que os vários alertas de ameaças terroristas foram alarmes falsos. E os próprios assessores de segurança nacional de Bush eclipsaram Ridge em momento críticos.

    O relatório elaborado neste ano pela comissão independente e bipartidária sobre os ataques de 11 de setembro é uma crítica contundente ao progresso feito pelo governo na tarefa de proteger os Estados Unidos da ameaça de um outro ataque terrorista. Em uma entrevista no final de agosto, Ridge reconheceu que é preciso que se faça mais, mas garantiu também que foram feitos muitos progressos.

    Trajetória

    Ridge cresceu em Erie, Pensilvânia, cursou a Universidade Harvard com uma bolsa de estudos e serviu no Exército como sargento de infantaria, onde recebeu uma medalha Estrela de Bronze por mérito. Ele foi eleito para o Congresso em 1982, tendo sido o primeiro indivíduo que serviu voluntariamente no Vietnã a ser eleito para a Câmara. Ele foi reeleito cinco vezes. Foi governador de 1995 a 2001, quando Bush o chamou a Washington para ajudá-lo a formular a resposta do governo ao 11 de setembro.

    "Ele é um patriota que ouviu o som da batalha", disse, à época, Bush. "Ele é um líder que mostrou como conseguir o melhor do nosso povo e das nossas organizações. É um homem de compaixão que viu o que o mal é capaz de fazer".

    Ao anunciar que nomearia Ridge secretário de Segurança Interna, Bush o incumbiu não só de gerenciar aquilo que seria certamente uma difícil aglutinação de agências governamentais sem relação entre si, mas também de elevar a defesa dos norte-americanos no país a um novo patamar em face daquilo que as autoridades diziam ser ameaças terroristas sempre crescentes.

    O senador Joseph I. Lieberman, democrata de Connecticut, que foi um dos proponentes originais da criação de um departamento de nível de Gabinete, disse à época: "Ridge tem à sua frente uma tarefa monumental. É algo como pedir a Noé que construa a arca depois que a chuva começou a cair".

    *Colaboraram Mark J. Prendergast, de Nova York, e Brian Knowlton, do International Herald Tribune, de Washington. Tom Ridge alega motivos pessoais para justificar saída do governo Danilo Fonseca
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