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01/12/2004

Líder da oposição ucraniana nega que vá desistir

The New York Times
Steven Lee Myers*

Em Kiev, Ucrânia
O homem declarado oficialmente como vencedor na contestada eleição presidencial da Ucrânia, o primeiro-ministro Viktor F. Yanukovich, disse nesta terça-feira (30/11) estar preparado para aceitar uma nova eleição e ofereceu não concorrer novamente, desde que seu oponente também não concorra.

Mas seu rival, Viktor A. Yushchenko, o líder da oposição que reivindica a vitória na eleição do domingo retrasado, rejeitou imediatamente a proposta, assim como a oferta de Yanukovich de nomear Yushchenko como primeiro-ministro e considerar emendas à Constituição que compartilhariam poder entre os blocos divididos do país.

"A eleição foi falsificada", disse Yushchenko em comentários televisionados. "Enquanto este problema não for selecionado, todos os demais problemas são secundários."

A Ucrânia permanece em um impasse cada vez mais tenso e amargo. O banco central do país reforçou nesta terça o controle sobre saques bancários e dólares, em meio a relatos de fuga de capital, particularmente no lado oriental do país que serve como base do apoio a Yanukovich.

Em Kiev, um punhado de simpatizantes de Yushchenko rompeu as barricadas no Parlamento e brevemente invadiu o saguão do prédio, após os deputados terem derrubado o voto de não confiança em Yanukovich e no presidente Leonid D. Kuchma durante uma sessão tumultuada.

O presidente do Parlamento, Volodymyr Lytvyn, deixou o prédio e pediu aos manifestantes que não o invadissem, pedindo paciência e dizendo que o Parlamento trataria novamente da questão da fraude eleitoral na terça-feira. "Este é o único organismo legal no país", ele disse à massa reunida do lado de fora do prédio, prometendo uma decisão que "agradará toda a Ucrânia". Os manifestantes, por ora, atenderam seu pedido.

A oferta de Yanukovich de desistir da disputa surgiu um dia depois de Kuchma ter proposto a realização de uma nova eleição para "manter a paz e a ordem". Ele não ofereceu detalhes, incluindo se pretende que seja a repetição do segundo turno entre Yanukovich e Yushchenko. E não fez nada para esclarecer o assunto na terça-feira.

Enquanto prosseguiam as manobras em torno da possibilidade de uma nova eleição, todos os lados aguardavam uma decisão da Suprema Corte. Os 21 juízes da Suprema Corte ouviram o segundo dia de apelação da campanha de Yushchenko para invalidação do segundo turno de 21 de novembro devido à grande fraude.

Os advogados de ambas as campanhas disseram que a decisão ainda poderá levar dias ou semanas, apesar do advogado de Yanukovich, Stepan Gavrish, ter levantado a possibilidade de um acordo político envolvendo a nova eleição. "Eu acho que as negociações devem seguir nesta direção", disse ele.

Com os esforços para solucionar a disputa empacados em várias frentes, os líderes europeus anunciaram que chegarão a Kiev nesta quarta-feira (01/12) para uma nova rodada de mediação. O presidente da Polônia, Aleksandr Kwasniewsi, e o chefe de política externa da União Européia, Javier Solana, participaram da reunião da última sexta-feira que aumentou as esperanças de um acordo pacífico. Um "grupo de trabalho" estabelecido durante aquela reunião já se reuniu uma vez, mas as negociações empacaram, com cada lado acusando o outro de agir de má fé.

Um líder da campanha de Yushchenko, Oleksandr O. Zinchenko, disse que eles estavam encerrando as conversas com os representantes de Yanukovich e retomando o bloqueio dos prédios do governo, suspenso temporariamente pelos manifestantes, permitindo assim que os funcionários e autoridades do governo voltassem ao trabalho.

A eleição da Ucrânia expôs as diferenças entre a Rússia e o Ocidente, revivendo tensões como as da Guerra Fria.

O chanceler da Alemanha, Gerhardt Schröder, discutiu novamente a crise com o presidente da Rússia, Vladimir V. Putin, cujo apoio explícito a Yanukovich tem enfurecido muitos ucranianos, assim como líderes políticos na Europa e nos Estados Unidos. Ambos disseram concordar que deve haver uma solução política que preserve a integridade territorial da Ucrânia.

A agência de notícias "Bloomberg" citou o gabinete de Schröder como tendo dito que Putin está preparado para aceitar os resultados de uma nova eleição. Isto representaria uma grande mudança de posição, já que Putin parabenizou duas vezes Yanukovich por sua vitória na semana passada. Em Moscou, a agência de notícias "Interfax" divulgou que Putin simplesmente destacou que a crise deve ser resolvida dentro da lei da Ucrânia e sem "qualquer pressão externa ou doméstica".

Os mais proeminentes críticos liberais de Putin, incluindo Irina M. Khakamada, Boris E. Nemtsov e o campeão de xadrez Garry Kasparov, divulgaram uma carta aberta nesta terça-feira pedindo a Putin que aceite a escolha da Ucrânia, que, segundo eles, é Yushchenko.

"A liderança da Rússia deve respeitar a escolha do povo ucraniano mesmo se esta escolha entrar em conflito com algumas preferências pessoais, mesmo que difíceis de explicar, do Kremlin", escreveram os críticos na carta, lida na rádio "Ekho Moskvy".

A oferta de Yanukovich de não participar de uma nova eleição representou seu crescente isolamento político. Ela também pareceu indicar um senso crescente de que ele provavelmente não será o próximo presidente do país, dado o vigor dos protestos que paralisaram Kiev e seu próprio governo.

No domingo, ele apareceu com líderes regionais na metade oriental do país enquanto estes ameaçavam realizar um referendo em busca de maior autonomia. A ameaça, que Yanukovich não endossou explicitamente, provocou reações furiosas na Ucrânia e no exterior, incluindo de seu próprio gerente de campanha, Sergei Tyhypko, que renunciou na segunda-feira, chamando a idéia de "insana".

Nesta terça-feira, os líderes das regiões orientais recuaram e disseram que não realizarão o referendo. O serviço de segurança do país, conhecido como SBU, anunciou que estava realizando uma investigação criminal das tentativas de dividir o país, apesar de não ter indicado quem poderia ser alvo.

"Se as eleições estão dividindo o Estado e levando ao separatismo, eu estou pronto para concordar que Yushchenko e eu não devemos participar das eleições", disse ele em uma coletiva de imprensa televisionada.

Mas Yanukovich condicionou sua proposta à decisão do tribunal de que os resultados da eleição foram inválidos. Ele também alertou que se o tribunal aceitar as acusações de Yushchenko de fraude em Donetsk e Lugansk, no Leste, então ele impetrará uma apelação buscando a invalidação dos resultados nas regiões do Oeste onde Yushchenko contou com maior apoio.

*Colaborou Erin E. Arvedlund, de Moscou. Yushchenko rejeita proposta do cada vez mais isolado Yanukovich George El Khouri Andolfato

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