UOL Notícias Internacional
 

02/12/2004

Apesar de sua economia, China continua atrasada

The New York Times
Nicholas D. Kristof

Colunista do NYTimes
Durante o último século, o título de "mais importante lugar no mundo" pertenceu aos Estados Unidos, mas parece provável que neste século tal papel se desloque para a China.

Sendo assim, cabe perguntar como são realmente os novos líderes chineses, Hu Jintao e Wen Jiabao? São visionários que administram a maior explosão de riqueza que o mundo já viu? Ou são tiranos impiedosos que perseguem cristãos, seguidores do Falun Gong, líderes trabalhistas e jornalistas, em uma tentativa desesperada de preservar a sua ditadura?

Há evidências que apóiam ambas as possibilidades, e as duas são provavelmente corretas até certo ponto.

Quando Hu e Wen chegaram à cúpula do Partido Comunista há dois anos, muitos chineses esperavam que eles promovessem uma abertura para uma nação que é economicamente dinâmica, mas intelectualmente estagnada. Ao invés disso, a China se tornou mais repressora.

Agora a repressão engoliu um membro da família de The New York Times. Zhao Yan, funcionário do escritório do jornal em Pequim, está detido pelas autoridades chinesas desde setembro sem permissão para se comunicar com a família ou advogados.

Zhao é acusado de vazar segredos de Estado, uma acusação muito séria que pode ser punida com uma década de prisão. O governo da China parece acreditar que ele seja o responsável pela reportagem do chefe do escritório do NYTimes em Pequim, em setembro, que revelou que o ex-líder chinês, Jiang Zemin, estava prestes a se aposentar do seu último cargo formal.

Embora a política do jornal seja, sensatamente, a de nunca fazer comentários sobre as fontes das reportagens, a minha própria investigação particular indica que Zhao não foi a fonte para esse furo. Ele é inocente de tudo, exceto de ser um bom jornalista que, antes de ingressar em The New York Times, escreveu importantes artigos na imprensa chinesa sobre a corrupção.

(Na verdade, colocar jornalistas na cadeia por fazerem o seu trabalho não é um fenômeno exclusivamente chinês. Vários jornalistas norte-americanos - Jim Taricani, da NBC, Judith Miller, deste jornal, e Matthew Cooper, da "Time" - podem ser mandados para prisões norte-americanas nos próximos dois meses por se recusarem a revelar as suas fontes).

O caso de Zhao é tristemente semelhante àquele de outro jornalista chinês, Jiang Weiping. Ele está cumprindo uma sentença de seis anos de prisão por "revelar segredos de Estado", ainda que o seu crime real tenha sido revelar a corrupção do governo.

"A China mudou bastante economicamente, mas não politicamente", me disse Li Yanling, mulher de Jiang Weiping. "Para mim isso é um mistério".

As autoridades ordenaram a Li que nada falasse sobre a prisão do marido, e a prenderam quando ela não cumpriu a ordem. A filha do casal, atualmente com 15 anos, ficou traumatizada após perder primeiro o pai e depois a mãe para o sistema prisional chinês. Quando Li foi finalmente libertada, a filha telefonava para ela constantemente da escola, para se assegurar que a mãe não fora novamente presa.

A prisão de Zhao foi apenas a mais recente em uma grande onda repressiva na China. O Comitê de Proteção aos Jornalistas relata que 42 repórteres estão atualmente detidos em prisões da China, um número maior que o de qualquer outro país.

"Houve um período de abertura, um período de esperança, quando os novos líderes chegaram ao governo", disse Jiao Guobiao, professor de jornalismo da Universidade de Pequim. "Mas agora eles consolidaram o poder, e tudo voltou a se fechar".

Jiao deveria saber. Ele escreveu um ensaio neste ano denunciando a censura, e foi imediatamente censurado. Agora o governo proibiu Jiao de lecionar.

Eu também senti esse esfriamento político. Planejava visitar a China neste mês, mas o governo chinês se recusou a me conceder um visto. Foi a primeira vez que tive um visto recusado. Acho que o Ministério de Segurança de Estado se preocupou com a possibilidade de eu escrever um artigo sobre a prisão injusta de Zhao.

Adoro a China, e compartilho com os seus governantes a antipatia por aqueles que querem prejudicar o país. E é por isso que estou furioso com o fato de as autoridades de linha dura de Pequim estarem apresentando a China ao mundo como um país repressor, frágil, tirânico e atrasado. Eles estão também minando as perspectivas de longo prazo da China ao amordaçarem a população.

Atualmente a China deslumbra os visitantes com arranha-céus luxuosos, hotéis de cinco estrelas e estradas modernas. Esse surto de progresso é real e espetacular, mas para que a China seja uma nação avançada ela precisa não só de espaçonaves, mas também de liberdade.

Caso contrário todo o deslumbre não passará de uma miragem. Os líderes chineses deveriam se lembrar de uma velha expressão camponesa: lu fen dan'r, biaomian'r guang, que significa, "por fora o objeto brilha - assim como o estrume de burro". País censura a imprensa e prende jornalistas, como repórter do NYT Danilo Fonseca

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