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03/12/2004

Bush está formando uma Geração Falida nos EUA

The New York Times
Thomas L. Friedman

Colunista do NYTimes
Uma notícia no jornal "The Washington Post" da última segunda-feira (29/11) foi talvez a maior dica jamais publicada de que um ministro deve começar a procurar outro emprego. O jornal dizia: "Uma alta autoridade disse que o secretário do Tesouro John W. Snow pode ficar o tempo que desejar, desde que não seja muito."

Desde que não seja muito!

Hei, senhor secretário, eu diria que alguém na Casa Branca quer vê-lo pelas costas! Se eu fosse o senhor, não renovaria o contrato do seu apartamento por mais de um mês --nem compraria bananas muito verdes para levar para o escritório. E aqueles livros que o senhor pegou emprestado na biblioteca do Tesouro? Será que daria, talvez, para o senhor devolvê-los nos próximos dias? O senhor sabe, só para garantir. Digo, tudo depende do significado de "muito tempo".

Sinto pena de Snow. Ler o obituário de sua própria carreira no café da manhã não deve ser muito legal. Mas sinto ainda mais pena do país. Não me lembro de jamais ter visto tamanha emasculação do Departamento do Tesouro pela Casa Branca.

Fui ao Tesouro noutro dia e observei uma placa grande do lado de fora dizendo que estava em reformas. Para quê? Quem notaria se fosse destruído? O país poderia tirar mais proveito do Tesouro se alugasse suas salas para casamentos, festas de formatura e bar mitzvas do que tirou nos últimos quatro anos dos conselhos vindos dali.

Aqui vai uma pergunta de conhecimentos gerais: quem é o subsecretário do Tesouro? É um cargo bastante importante, mas não tenho a menor idéia de quem seja.

Esta é uma época em que precisamos de um secretário do Tesouro realmente forte, capaz de lutar pela sanidade fiscal. Estamos prestes a embarcar em um período de 10 anos no qual os recentes cortes de impostos e gastos exorbitantes devem chegar a US$ 5 trilhões (em torno de R$ 15 trilhões) para o déficit cumulativo.

Na minha vida, vamos ter passado da Maior Geração da história dos EUA para Geração Desperdiçada e, enfim, a Geração Falida. Sim, estou falando com vocês que têm 20 anos. O presidente Bush pediu sacrifícios --mas não da própria geração. Ele está passando a conta para a sua.

"A crise de 11 de setembro tem sido usada como uma licença para gastar e cortar impostos, em vez de estabelecer prioridades e concentrar nossos recursos no que é criticamente importante para a segurança de nosso país", disse Robert Hormats, vice-diretor da Goldman Sachs International.

E o Congresso colaborou com isso, assim como pessoas como Josh Bolton, Stephen Friedman e Gregory Mankiw --assessores econômicos principais da Casa Branca de Bush. "Você tem consciência de que todos esses caras poderiam fazer melhor que isso", disse Clyde Prestowicz, chefe do Instituto de Estratégicas Econômicas.

Nos últimos anos, tivemos muitos fortes secretários do Tesouro, Republicanos e Democratas: George Shultz, Nick Brady, Jim Baker, Bob Rubin, Larry Summers. Mas justo quando precisamos de um que tenha bom senso e vontade de estabelecer prioridades, tudo indica que esta Casa Branca está procurando alguém mais fraco que Snow.

David Rothkopf, ex-membro do Departamento de Comércio de Clinton, que acaba de escrever a história do Conselho de Segurança Nacional, disse que Bush está obviamente "procurando consenso e homogeneidade. Mas o sistema funciona melhor quando o presidente tem escolhas. Se todo mundo está na mesma página e esta acaba sendo a página errada --realmente a pessoa fica em dificuldades."

Bush teve o luxo de fazer uma guerra de necessidade, no Afeganistão, e uma guerra de escolha, no Iraque, sem pensar duas vezes, justamente por causa dos superávits acumulados pelo governo anterior. Desde então, a equipe de Bush vêm cortando impostos em meio a duas guerras, enfraquecendo o dólar e criando uma enorme carga de dívida --assumindo implicitamente que nada dará errado no futuro.

Mas, e se houver outro 11 de setembro, ou outra guerra de necessidade? Estaremos fritos. Não haverá impostos, então a única opção será pegar mais emprestado e enfraquecer o dólar. Mas o que acontecerá se os chineses e outros estrangeiros --que atualmente detêm 40% dos títulos do nosso Tesouro-- decidirem que não querem mais segurar esses dólares decadentes, muito menos comprar mais?

Agora ficou claro para mim que depois da bolha das ponto.com entramos na bolha de 11 de setembro. As duas nos fizeram de bobos. A primeira foi financiada por investidores imprudentes; na segunda, a imprudência foi da Casa Branca e do Congresso.

No primeiro caso, o público foi mal orientado por analistas de Wall Street, que disseram que as velhas regras não funcionavam mais --que os elefantes podem voar. No segundo caso, o público foi mal orientado pelos economistas da Casa Branca, vendendo absurdo similar. O primeiro terminou em lágrimas, o que também acontecerá com o segundo. Porque, como provou a bolha das ponto.com, os elefantes voam --"desde que não por muito tempo." "Bolha do 11 de Setembro" autoriza governo a fazer gastos obtusos Deborah Weinberg

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