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03/12/2004

Museu de NY abre grandiosa mostra de arte latina

The New York Times
Holland Cotter

Em Nova York
Museu Paulista, USP/The NY Times

"Mulher da Bahia", clássico brasileiro de autoria incerta, integra a mostra
Que bom que as grandes instituições de arte da cidade de Nova York estão finalmente atingindo o nível do El Museo Del Barrio, que começou pequenino em um prédio do East Harlen em 1969 e que agora se debruça, maior, grandioso, ainda arrojado --e pouco visitado-- sobre a Quinta Avenida.

Durante 35 anos o museu se dedicou a exibir trabalhos de artistas latino-americanos, o que basicamente significava apresentá-los ao público, já que ninguém mais o fazia. E, durante todo esse período, ele contribuía para uma grande e nova história.

Hoje, Nova York é uma cidade latino-americana: bem mais de um quarto dos seus habitantes têm raízes na América Latina. Essa proporção continua crescendo, e o El Museo, onde uma exposição esclarecedora de retratos latino-americanos será inaugurada nesta sexta-feira (03/12), cresce com ela.

E cresce também o interesse pela arte da América Latina, a julgar pela sua visibilidade nos museus. Destaca-se entre as exibições especiais a exposição "O Império Asteca", no Guggenheim, cujo tema são materiais do México pré-colombiano.

A exposição é simplesmente fantástica. Não se trata apenas da mais intensa experiência artística em Manhattan, mas também, possivelmente, da mais intensa experiência teatral. Ela vai virar de ponta cabeça as suas noções de arte-como-beleza-e-bondade e se infiltrar nos seus sonhos.

"Os Andes Coloniais: Tapeçarias e Pratarias, 1530-1830" no Metropolitan Museum dramatiza a gloriosa fusão e a colisão ruinosa das culturas nativa e européia que ocorreram no Novo Mundo. E o reaberto Museum of Modern Art também tem a América Latina em mente: uma pequena pintura branca do artista venezuelano Armando Reveron (1889-1954) atualmente flutua, como uma tira de nuvem caribenha, entre os Pollocks e Picassos.

O que nos traz de vota ao El Museo, onde "2.000 anos de Retratos Latino-Americanos" proporciona uma pitada de tudo o que foi mencionado acima. Reveron está aqui. E também as pinturas coloniais e esculturas pré-colombianas.

Organizada em conjunto com o San Antonio Museum of Art e a National Portrait Gallery em Washington, a exposição segue os passos de uma outra, de natureza morta, feita no El Museo há quatro anos, sendo, entretanto, bem mais ambiciosa em escopo e escala, com cerca de cem peças de uma dúzia de países latino-americanos.

O período de dois milênios é um problema; um exame detalhado de qualquer período específico seria bem mais satisfatório. Mas com tanta arte da América Latina, de todas as eras, e ainda tão pouca coisa conhecida, a abordagem da exposição é compreensível. E, além do mais, existe uma exposição menor simplesmente fascinante, dentro da mostra principal.

A fim de demonstrar a antiguidade da tradição retratista na América, a exposição começa bem antes de Colombo ou dos Astecas, com seis vasos de cerâmica feitos pelo povo Moche, no Peru, entre os séculos 2º e 7º. Todos têm o formato de uma cabeça masculina, e a face de cada um mereceu intensa atenção e individualização, sendo possível perceber rugas e pequenas cicatrizes.

A partir daí, porém, seguimos para o século 16, e para uma pintura de Andres Sanchez Galque, denominada "Los Mulatos de Las Esmeraldas" (1599), que pertence ao Prado e que é um dos destaques da exposição.

O mais antigo retrato datado conhecido da América do Sul colonial, ele mostra três homens elegantes de pele escura, descendentes de índios e escravos africanos, na região que hoje corresponde ao Equador. Identificados por nomes e idades em inscrições, eles vestem sedas européias com golas altas, mas também usam anéis nos lábios e adornos nasais de ouro, enfeites nada europeus.

Para o rei espanhol, para quem foi feito, o retrato teria sido uma prova exótica de soberania geográfica. Aos olhos do século 21, a sua mistura de elementos africanos, europeus e nativos destila a essência de um continente multicultural e de uma sociedade construída de acordo com categorias de raça e classe minuciosamente calibradas.

A arte da era colonial, ou vice-real (1492-1810), se constitui na parte principal da exposição e é, por si só, um espetáculo fascinante. Esse foi um período de religiosidade florescente e de retratos seculares, de extravagância barroca e de contenção iluminista, de sofisticação real e de inspiração regional, de brutalidade expressa por meio da beleza.

Artistas espanhóis, crioulos e mestiços, vários deles autodidatas, compartilharam o patrocínio de uma sociedade colonial faminta por imagens e geraram uma arte única para a América.

Parte do seu caráter distinto reside nos detalhes: o maracá entalhado utilizado pela jovem filha de um governador colonial e a pequena casa de fazenda em uma ilha, atrás da amazona chique, em retratos feitos pelo maravilhoso artista porto-riquenho Jose Campeche (1751-1809).

Ao mesmo tempo, gêneros inteiros de arte foram inventados, como no caso de retratos de freiras usando coroas florais e medalhões enormes, ou "escudos", pintados em cenas religiosas. Tais imagens eram encomendadas quando uma freira finalmente fazia os seus votos finais, trocando a vida antiga por uma nova, e são tão fragrantes como símbolos de pureza e desejo quanto os buquês de casamento.

Retratos mortuários de crianças marcam um tipo de transição diferente. Em um deles, datado de 1805, um bebê chamado Jose Manuel de Cervantes y Velasco, jaz em seu caixão decorado com fitas, vestido como o arcanjo Miguel, com asas cravejadas de jóias e uma coroa emplumada.

O interessante é que o seu traje lembra um outro similar, mostrado em "Les Indes Gallantes", vestido pelo rei inca Tupac Amaru em um retrato do Metropolitan. Este quadro também é póstumo, mas foi feito quase dois séculos após o rei ter sido decapitado sem motivos por ordem do vice-rei espanhol, um ato de violência política que queimou como brasa na memória inca.

A arte na América Latina sempre foi um veículo para o comentário social e político. Isso se traduz em uma propaganda direta em um retrato em tamanho real do líder da independência Simon Bolívar, com o seu heroísmo alardeado por uma bandeirola escarlate, feito pelo pintor peruano Jose Gil de Castro, um artista a ser lembrado.

Em outros pontos da exposição as políticas de classe e raça são evocadas de maneira mais oblíqua, como no magnífico retrato do século 19 de uma mulher afro-brasileira da Bahia, que usa vestido de gola alta, luvas brancas e colares de ouro, em uma cena que poderia ter sido pintada em Gana.

Mesmo com o seu conteúdo especificamente cultural, essa pintura se encaixa facilmente nos estilos internacionais da sua época. É como o que ocorre com o modernismo latino-americano no início do século 20. Longe de estar fora do grupo, ele ajuda a criá-lo.

Diego Rivera desenvolveu um tipo vigoroso de cubismo em Paris, antes de mudar para o realismo descritivo da sua arte de mural. E ele mais tarde aplicou esse realismo aos retratos de socialites do Novo Mundo como Elisa Saldivar de Gutierrez Roldan, que ele pintou, certamente com ironia, em sandálias de dedo e com uma saia "camponesa" de babados, sinais autoconscientes de mexicanidade.

Frida Kahlo trabalhou essa mexicanidade, com as suas prolongadas associações revolucionárias, insistentemente pessoais. Nos seus auto-retratos, ela usa esse tipo de traje como uma armadura, um escudo de freira pintado com a crucificação.

Esse senso de identidade também impregna o quadro pintado por Maria Izquierdo, em 1940, das suas três jovens sobrinhas, mas aqui, ele irradia das faces mestiças, de forma morna e saturada, como a luz tropical.

Esses pintores extraordinários causaram forte impacto sobre artistas que os sucederam. Em um auto-retrato de 1991, feito pelo pintor mexicano Nahum Zenil, a face de Kahlo aparece como um coração gigantesco saindo do seu peito. E a dinâmica política intrínseca à arte latino-americana teve vasta influência, antecipando a arte baseada na identidade que varreu os Estados Unidos nos anos 80 e 90.

Na verdade, as realidades de raça, classe e poder implícitas em "Los Mulatos de Las Esmeraldas" no século 16 e em "Mulher da Bahia" no século 19 são tão complexas e modeladoras da história quanto sempre foram, e a nova arte reconhece esse fato.

A última peça na última galeria é uma pintura de 1998 de Inigo Manglano-Ovalle, "Carter, Anna e Daryl". Embora pareça abstrato, o quadro se baseia em imagens digitalizadas de amostras de DNA extraídas de membros da família do artista. Aqui, etnia e sexo parecem invisíveis, mas por meio da ciência, eles podem também ser manipulados, causando a impressão ligeira e imprecisa de que os retratos sempre foram ainda mais elusivos e efêmeros.

Quando chegamos ao fim da exposição --um esforço de equipe liderado por Marion Oettinger Jr., do San Antonio Museum, Fátima Bercht, do El Museo Del Barrio, e Carolyn Kinder Carr e Miguel Bretos, da National Portrait Gallery--, cobrimos um trecho cansativo de território cultural, grande parte dele desconhecido.

Se a experiência demonstrar ser, ao mesmo tempo, excessiva e insuficiente, o que podemos fazer? Os norte-americanos sabem muito pouco sobre a própria história, e a história da América Latina é atualmente a história de todo norte-americano. Conforme nos movimentamos através de "Retratos", começamos a aprender.

Também atravessamos um museu que traz lições próprias para nos ensinar.

Ele equilibra estética e política simplesmente ao reconhecer que ambas estão entrelaçadas. Ele pressiona e futuca o passado, quando deixá-lo simplesmente intocado e aparentando uma falsa beleza teria sido mais fácil.

E ele oferece algumas das obras de arte mais belas e inquietantes que existem. Há alguns motivos pelos quais o El Museo parece cada vez mais ser a primeira parada de uma peregrinação pelos museus, como se fosse o navio que lidera uma armada. Obras reforçam a tese de que a cultura está na raça, classe e poder Danilo Fonseca

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