UOL Notícias Internacional
 

03/12/2004

Vladimir Putin ridiculariza nova eleição na Ucrânia

The New York Times
Steven Lee Myers

Em Kiev, Ucrânia
O presidente da Rússia, Vladimir V. Putin, se envolveu ainda mais na crise eleitoral da Ucrânia nesta quinta-feira (03/12), considerando inútil a exigência de um candidato de uma repetição do segundo turno da contestada eleição presidencial e criticando os esforços europeus de mediação.

Putin fez seus comentários em um encontro com o presidente em exercício da Ucrânia, Leonid D. Kuchma, que fez uma inesperada viagem à Rússia enquanto os legisladores ucranianos discutiam os detalhes da realização de novas eleições e a Suprema Corte ouvia os argumentos para anulação dos resultados da eleição presidencial de 21 de novembro.

O encontro --que ocorreu em um aeroporto fora de Moscou enquanto Putin se preparava para partir para uma visita de Estado à Índia-- aconteceu apenas horas depois de Kuchma e os dois candidatos presidenciais terem se encontrado com diplomatas europeus na noite de quarta-feira, chegando a vários acordos que visavam resolver um impasse cada vez mais amargo e tenso.

Ainda não se sabe qual será o impacto na Ucrânia dos comentários feitos por Putin aqui, mas ele claramente empregou todo o seu prestígio político em apoio a Kuchma, endurecendo o que despontou na quinta-feira como sendo posições profundamente divergentes sobre como realizar uma nova votação após o segundo turno de 21 de novembro entre Viktor A. Yushchenko e o primeiro-ministro Viktor F. Yanukovich, marcado por acusações de fraude.

Entre os acordos anunciados na noite de quarta-feira estava o de uma mudança rápida na lei eleitoral da Ucrânia para permitir a nova votação, desde que a Suprema Corte invalide os resultados que apontaram Yanukovich como vencedor. Durante um dia de negociações no Parlamento --e entre os próprios Yushchenko e Kuchma-- Yushchenko reiterou sua exigência de um novo segundo turno, confiante de que derrotará Yanukovich em uma votação honesta.

Kuchma insistiu em uma nova eleição começando do zero, abrindo a porta para um novo candidato pró-governo e pró-Moscou. E Putin o apoiou, ridicularizando a posição de Yushchenko de que qualquer nova eleição deve contar apenas com os dois candidatos do segundo turno --o próprio Yushchenko e Yanukovich.

"Uma repetição do segundo turno também poderá não produzir nada", disse Putin para Kuchma em comentários transmitidos detalhadamente pela televisão estatal da Rússia, que também é assistida na Ucrânia, como foi acompanhado e traduzido pela BBC. "O que acontecerá então? Haverá um terceiro, quarto, um vigésimo quinto turno até que um dos lados obtenha o resultado necessário?"

O papel de Putin na eleição --e, mais amplamente, da Rússia-- tem provocado fortes críticas aqui, na Europa e até mesmo na própria Rússia. Ele tem endossado Yanukovich, que prometeu manter as políticas de Kuchma de poder centralizado e melhorar as relações econômicas e sociais com a Rússia.

Putin visitou a Ucrânia antes de cada turno eleitoral, se encontrando com Yanukovich. Putin também convidou Yanukovich a ir a Moscou para seu aniversário em outubro. A televisão estatal russa, assim como analistas políticos russos com ligações com o Kremlin, ignoraram ou vilificaram Yushchenko.

Mykolo V. Tomenko, um membro do Parlamento e simpatizante de Yushchenko, criticou Putin de má fé nas negociações e disse que o encontro dele com Kuchma aumenta o temor de medidas drásticas, incluindo uma declaração de estado de emergência. "Eu acho que este encontro de Kuchma com Putin é uma retirada dos acordos acertados ontem com os europeus", disse ele em uma entrevista por telefone.

O presidente da Polônia, Aleksandr Kwasniewski, e o chefe de política externa da União Européia, Javier Solana, supervisionaram a reunião de quarta-feira, que reuniu os dois candidatos ucranianos apenas pela segunda vez desde a eleição contestada.

Entre os emissários estrangeiros presentes na reunião estava Boris V. Gryzlov, presidente da câmara baixa do Parlamento russo e um aliado de Putin. Por motivos que ainda não ficaram claros, ele chegou duas horas depois das partes terem começado a reunião. A certa altura, Yanukovich saiu da sala onde se realizava a reunião para perguntar onde Gryzlov estava.

Não ficou claro se foi Putin ou Kuchma quem requisitou o encontro de quinta-feira, que não foi anunciado até Kuchma já estar a caminho de Moscou. Um porta-voz do Kremlin, Dmitry Peskov, disse simplesmente que "os dois mantêm contato constante e regular", acrescentando: "Havia a necessidade de tal encontro, dada a situação".

Putin enfatizou o relacionamento estreito da Rússia com a Ucrânia e declarou novamente que a crise deve ser resolvida segundo as próprias leis do país. Ele desconsiderou o papel da diplomacia internacional na solução da crise, incluindo a diplomacia russa.

"Nem a Rússia, nem a União Européia, nem organizações internacionais resolverão os problemas", disse ele. "Todos podem fazer o papel de mediadores, mas o povo ucraniano tem a palavra final."

Mychhailo I. Wynnyckyj, um cientista político da Universidade de Kiev que apóia Yushchenko, disse que Kuchma provavelmente precisava informar Putin de soluções potenciais para a crise, incluindo a possibilidade de Yanukovich, que contou com forte apoio de Putin, poder não se tornar o próximo presidente.

"Minha esperança e suspeita é de que Kuchma está simplesmente arranjando uma saída em Moscou", disse ele. Um alto diplomata ocidental em Kiev, falando antes do encontro dos dois líderes, sugeriu que a Rússia se colocou em uma posição muito difícil.

"Eu acho que os russos não sabem o que fazer", disse ele. "Eles estão atônitos com os desdobramentos."

*Colaborou Erin E. Arvedlund, de Moscou. Presidente russo se reúne com líder ucraniano e zomba da proposta George El Khouri Andolfato

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