UOL Notícias Internacional
 

05/12/2004

Desvalorização do dólar preocupa americanos

The New York Times
Daniel Altman

Em Nova York
Dependendo de como os investidores se comportarem, a tendência de queda do dólar pode provocar desde uma brisa benigna a um furacão.

Se o dólar perder valor lentamente, dando às empresas e investidores tempo suficiente para ajustarem seus gastos e aplicações, o efeito principal poderá ser o de tornar a economia americana mais competitiva. Esta seria uma conclusão feliz.

Mas, se o dólar der um mergulho abrupto, as conseqüências poderão ser desastrosas. Empresas e consumidores poderão se ver destituídos de poder de compra e atados por taxas de juros estratosféricas.

As repercussões de longo prazo da desvalorização do dólar podem ser sutis, mas tem amplo alcance. Uma mudança permanente nos preços relativos de bens e serviços produzidos nos Estados Unidos e no exterior poderia até mesmo reverter algumas tendências econômicas antigas e importantes, como a crescente produtividade da força de trabalho americana.

"No balanço, será bom para as pessoas que investem no setor manufatureiro dos Estados Unidos se isto for permanente", disse Samuel S. Kortum, professor de economia da Universidade de Minnesota. "Soa muito ambíguo e potencialmente ruim se você pensar nisto para a economia como um todo."

No momento, os efeitos de curto prazo da desvalorização do dólar já são relevantes. Os importados estão se tornando mais caros para os americanos, e as exportações dos Estados Unidos estão se tornando menos caras para os estrangeiros. Para algumas empresas, estas mudanças já se tornaram bem reais.

Na divisão Cadillac da General Motors, que vende carros produzidos nos Estados Unidos para a Europa, as margens cresceram em conseqüência da desvalorização do dólar.

Para as concessionárias da Volkswagen nos Estados Unidos, que importam todos os seus automóveis, as vendas caíram 18% nos primeiros 11 meses do ano, em comparação ao mesmo período em 2003. As vendas gerais das marcas européias caíram apenas 6%.

Estes tipos de recompensas e penas provavelmente se multiplicarão com o passar do tempo, disse Maurice Obstfeld, professor de economia da Universidade da Califórnia, em Berkeley. "Leva tempo para realocar recursos para os setores de exportação de forma que possam produzir mais", disse ele. "Também leva tempo para a demanda externa se ajustar, adotando novas fontes de fornecimento."

Contratos de longo prazo podem contribuir para estes atrasos, disse Harvey D. Bronstein, um economista internacional sênior da Small Business Administration. "Você precisa desenvolver relacionamentos e um nível de confiança com os compradores em outros países. Isto demora muito mais do que as flutuações diárias e mensais nas taxas de câmbio."

A esta altura, a desvalorização do dólar mal começou a reduzir o déficit comercial do país. As exportações têm crescido constantemente por cinco trimestres consecutivos, segundo números corrigidos pelas variações sazonais e de preços pelo Birô de Análise Econômica, mas as importações têm crescido ainda mais rapidamente. Ambas as tendências seriam consistentes com a recuperação gradual da atividade econômica após uma desaceleração prolongada - e talvez tenha pouca ligação com a taxa de câmbio. Assim, será que a desvalorização do dólar algum dia eliminará o déficit comercial?

Não necessariamente, disse Obstfeld. Os americanos podem continuar comprando mais importados desde que os estrangeiros estejam dispostos a aceitar dólares - e os ativos financeiros que possam comprar em troca.

"A desvalorização do dólar é uma condição necessária, mas não suficiente para vencer o déficit comercial", ele disse. "Nós também precisamos de um ajuste nos padrões globais de investimento e poupança. A poupança do setor privado e do governo precisa aumentar, ou o investimento tem que diminuir. Ninguém quer ver uma queda dos investimentos nos Estados Unidos, assim estamos buscando algum tipo de ajuste na poupança. Mas não está claro como a desvalorização do dólar por si só fará isto."

A redução do déficit comercial poderá exigir taxas de juros de longo prazo mais altas, o que poderia encorajar os americanos a pouparem mais e contar menos com financiamento estrangeiro. Vários fatores nos mercados e na economia já estão prenunciando taxas de juros mais altas para títulos, hipotecas e outros empréstimos. O Federal Reserve, o banco central americano, já vem elevando as taxas de juros de curto prazo desde junho e deve manter a tendência em sua próxima reunião, em 14 de dezembro. Se os corretores de títulos acreditarem que as taxas de curto prazo continuarão aumentando, as taxas de longo prazo terão que subir também. E o potencial para déficits orçamentários maiores em Washington - e maior contração de empréstimo por parte do governo - poderá ajudar a elevar as taxas ainda mais. Finalmente, os credores estrangeiros poderão começar a exigir taxas de juros mais altas dos americanos, porque os pagamentos em dólar estarão valendo menos nas moedas locais dos credores.

De fato, o mistério para alguns economistas é o motivo das taxas de longo prazo ainda não terem subido. "Eu realmente considero enigmático", disse Kortum.

Uma explicação parcial, disse David A. Wyss, economista-chefe da Standard & Poor's, é o enorme apetite dos bancos centrais estrangeiros por títulos americanos. Ele disse que os bancos compraram US$ 260 bilhões em títulos do Tesouro nos 12 meses até setembro.

Mantendo baixos os rendimentos do Tesouro, os bancos centrais estrangeiros estão tirando pressão das taxas de juros. Mas eles também impediram, ou pelo menos adiaram, uma maior desvalorização do dólar.

"Eu acho que o dólar vai cair ainda mais", disse Wyss. "O problema é que os bancos centrais estão lutando fortemente contra o mercado." Os bancos estão mais interessados na proteção do valor de suas reservas em dólar, disse ele, do que na proteção dos exportadores de seus países, que enfrentam maiores dificuldades para vender para os Estados Unidos quando o dólar desvaloriza.

Estes exportadores podem não ser as únicas empresas estrangeiras prejudicadas pela desvalorização do dólar. Segundo Kortum, as empresas americanas utilizarão menos bens intermediários importados - isto é, bens que são utilizados para produção de outros bens e serviços - à medida que se tornarem mais caros em dólares. Em vez disso, as empresas poderão usar mais trabalhadores americanos.

"Do ponto de vista de sua produção, eles considerarão a mão-de-obra americana barata em relação aos bens intermediários importados", disse ele. "Isto poderá levar a mais empregos, mais produção de trabalho intensivo em certo grau."

Apesar disto poder parecer uma boa notícia, ela se opõe a uma tendência econômica antiga e de muitas formas benéfica. Por décadas, os trabalhadores tiveram à sua disposição mais e mais capital - coisas úteis como computadores, máquinas e software - tornando a produção mais capital-intensiva do que trabalho-intensiva. Quando os trabalhadores têm mais capital para usar, eles tendem a ser mais produtivos - e a ganhar salários mais altos.

A desvalorização do dólar poderá também atrapalhar a capacidade da concorrência estrangeira de transformar as indústrias nos Estados Unidos, disse Kortum. "Empresas que fechariam as portas por causa dos importados permaneceriam em atividade", disse ele, e empresas que antes não exportavam poderão entrar nos mercados estrangeiros.

A curto prazo, muito dependerá da velocidade da mudança do câmbio, disse o economista. "O melhor resultado seria um aumento da poupança americana somado a uma desvalorização gradual do dólar até um nível sustentável", disse Obstfeld. "Não há dúvida de que o dólar precisa desvalorizar mais, e a economia conseguirá se ajustar mais facilmente se o ajuste for gradual."
Mas tal resultado está longe de ser certo. Se os investidores perderem a confiança nos negócios nos Estados Unidos, ou na capacidade do governo federal de pagar suas dívidas, o dólar poderá despencar acentuadamente e as taxas de juros dispararão.

Neste caso, os investidores exigirão um retorno mais alto para compensar o que considerarão como riscos maiores de emprestar dinheiro ou comprar ações nos Estados Unidos. Mas se o fluxo do investimento também diminuir, a demanda por dólares para compra de ações e títulos americanos diminuirá. Isto poderá provocar um ciclo vicioso, forçando uma maior desvalorização do dólar e a exigência por parte dos investidores de um retorno ainda maior.

Uma situação semelhante ocorreu duas décadas atrás.

"O risco é, se a desvalorização do dólar se tornar muito severa, isto poderia forçar uma elevação dos rendimentos dos títulos americanos como ocorreu no início dos anos 80", disse Wyss. "Então seria possível esperar por taxas hipotecárias de 15%, 20% novamente. Isto poderia causar uma recessão apesar da redução do déficit comercial."

A postura dos investidores poderia mudar abruptamente, disse Obstfeld, especialmente se eles se concentrarem em como uma notícia poderia mudar o panorama econômico. "Certamente, as medidas fiscais que estão sendo discutidas em Washington não são particularmente de ajuda", disse ele, se referindo a um passivo multitrilionário que poderia resultar da adição de contas privadas ao atual sistema do Seguro Social. "Está claro que se trata de uma grande mudança fiscal que poderia ter um impacto nos mercados."

Isto poderia trazer de volta lembranças desagradáveis dos anos 80, quando os "déficits gêmeos" no comércio e no orçamento federal prejudicaram a competitividade econômica da nação. Um dólar mais fraco não foi suficiente para cobrir os buracos na época, e também poderá não ser suficiente agora. Especialistas formulam teoria para entender fenômeno econômico George El Khouri Andolfato

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