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05/12/2004

Mais longo dos dias inicia temporada mais difícil

The New York Times
Joe Rhodes

Chatsworth, Califórnia
Isabella Vosmikova/Fox via The New York Times

Produtores se esforçam para manter o pique e a coerência das tramas do agente Jack Bauer
Sem nenhum motivo, a não ser talvez para se torturar, o produtor e roteirista Robert Cochran mantém uma detalhada tabela da história e dos personagens desde a primeira temporada de "24 Horas" --a série em tempo real de suspense e espionagem que ele e John Surnow criaram há quatro anos-- pregada ao quadro de avisos de seu organizado escritório.

É uma planilha que abrange, episódio por episódio, as ações e interações de cada personagem importante, os pontos vitais da trama e de cada virada. Estava tudo ali, para seis episódios, meticulosamente planejado antes mesmo que o piloto fosse ao ar: cada explosão, desabamento, traição, drama nacional, complô de assassinato, momento de suspense, que logo transformariam "24 Horas" no programa de televisão mais comentado de 2001. O seriado é apresentado no Brasil pelo canal pago Fox.

Considerando as complexidades das tramas, e o fato de que os episódios de 24 horas de duração de cada temporada (com um relógio constantemente marcando a redução do tempo na tela) mostram um único dia cheio de crises na vida do país, um esquema preciso parece mesmo indispensável.

Só que não funcionou assim.

"Isso foi o mais longe que conseguimos planejar", diz Cochran melancólico, aproximando-se da tabela da primeira temporada, tocando-a como se fosse uma relíquia há muito perdida. "Conseguimos planejar com antecedência talvez cinco ou seis episódios naquela temporada. Na segunda, talvez três ou quatro."

E este ano? Ele parece um pouco embaraçado. "Este ano... eu diria que... nenhum."

Embora pareça difícil de acreditar --e Cochran diz que ninguém de fora jamais acredita-- os autores de "24 Horas" o estão criando praticamente conforme avançam, este ano mais que nunca. E quando a quarta temporada estrear na Fox no domingo, 9 de janeiro (depois passará para um novo horário na segunda à noite), eles estarão fazendo isso em meio a mudanças radicais de elenco, embarcando em enredos drasticamente novos e testando ainda mais a lealdade de um público que já viu praticamente todos os personagens importantes --incluindo o agente Jack Bauer, a peça principal do programa, interpretado por Kiefer Sutherland-- cair em desgraça, ser comprometido, torturado e, em alguns casos, morto.

Quando a nova temporada começar, estarão faltando no elenco Dennis Haysbert, que fez o nobre mas indeciso presidente David Palmer; Elisha Cuthbert como Kim, a filha de Jack Bauer constantemente em perigo; Carlos Bernard como o chefe da unidade antiterrorismo Tony Almeida, que no final da última temporada foi preso por traição; Reiko Aylesworth como a espiã Michelle Dessler; e a mulher de Almeida, que passou a maior parte da última temporada acreditando que ia morrer por causa de um vírus disseminado por terroristas.

Na verdade, além de Sutherland, somente um membro do elenco da última temporada voltará (embora muitos dos outros façam breves aparições ao longo da temporada). Preenchendo as lacunas estarão William Devane, Shohreh Aghdashloo --indicada ao Oscar por sua atuação em "House of Sand and Fog"-- e várias caras novas.

"Adoramos os personagens e adoramos os atores, mas simplesmente ficamos sem coisas para eles fazerem na configuração que tínhamos armado", diz Cochran, explicando por que ele e Surnow acharam necessárias essas mudanças drásticas.

"Não tenho certeza se a rede gostou muito, mas realmente tínhamos colocado os personagens em situações em que não havia para onde levá-los."

De fato, a rede não gostou muito. "Eu tive dúvidas, é claro, qualquer um teria", diz Gail Berman, presidente de entretenimento da Fox, quando questionada como reagiu inicialmente à idéia de reformular um dos programas mais importantes de sua rede. "Mas '24 Horas' é um animal diferente. Ele tem uma audiência que passou a esperar o inesperado."

Surpreender essa audiência tem sido a marca registrada do programa desde a primeira temporada, que terminou com a morte de um personagem importante, a mulher de Jack Bauer, assassinada pela ex-namorada dele, que, sim, também se revelou uma maligna espiã da Alemanha Oriental.

Na metade da segunda temporada, houve uma explosão nuclear no deserto da Califórnia que provocou rebeliões e quase uma guerra total. O roteiro de "24 Horas" do ano passado incluiu, além de várias fugas de prisões, tiroteios e tramas de extorsão, a morte agonizante de hóspedes inocentes num hotel, expostos a um vírus modificado, e o agente Bauer correndo para impedir que os terroristas envenenassem a cidade de Los Angeles, enquanto, incidentalmente, também lutava contra a abstinência de heroína. Foi um dia bastante longo.

E é por isso que quando começa a quarta temporada --ambientada 18 meses depois dos traumas da anterior-- o personagem de Sutherland está tentando levar uma vida menos conturbada. Depois de perder o emprego e deixar para trás o problema da droga, ele trabalha como consultor para o Departamento da Defesa e começa um novo relacionamento romântico, com a filha do secretário da Defesa, interpretada por Kim Raver.

Mas inevitavelmente ele é levado de volta ao turbilhão do contraterrorismo, e mais uma vez se vê enfrentando um dia em que vidas estarão em jogo, coisas terríveis acontecerão e não haverá possibilidade de um cochilo.

Além da existência de células terroristas "latentes" nos Estados Unidos, Cochran e Surnow não falam muito sobre as futuras tramas --em parte porque não querem estragar a surpresa, em parte porque ainda não sabem como as coisas vão se desenrolar.

"Cada temporada é como um quebra-cabeça totalmente novo", diz Cochran, tentando explicar por que, na quarta temporada, a equipe de redatores de sete pessoas ainda não consegue elaborar a trama com mais de uma ou duas semanas de antecedência. "Se conseguíssemos descobrir a fórmula mágica, ficaríamos muito felizes. Mas ainda não conseguimos."

"Às vezes", ele diz com humildade: "é simplesmente difícil pensar em coisas boas. E tudo nesse programa afeta tudo o mais. Se eu estiver sentado no computador e tiver uma idéia que eu ache ótima para um personagem, corro para o escritório ao lado e talvez descubra que eles acabaram de matá-lo. Então tenho de dizer para esse redator: 'Não, não mate esse sujeito. Eu preciso dele'. Bem, agora aquele outro episódio está completamente estragado. Então precisamos sentar e repensar aquele episódio, e se parte dele já estiver gravada teremos grandes problemas".

"Então voltamos atrás, desmontamos tudo e remontamos de um jeito que encaixe com o que eu quero fazer no próximo episódio, e aí estamos a apenas uma semana da gravação. Então, é claro, o pessoal da produção chega e diz: 'Não podemos fazer isso', por algum motivo técnico. Então desfazemos tudo de novo. Depois disso tudo, será uma sorte conseguirmos gravar."

Os personagens muitas vezes são colocados em situações difíceis, e às vezes, os autores admitem, as soluções de última hora não são nada elegantes. Na primeira temporada, a mulher do agente Bauer (a quem os redatores costumam se referir como "aquela pobre mulher") sofreu uma conveniente crise de amnésia, o que a impediu de contar detalhes críticos a outros personagens. E na segunda temporada, para ocupar Kim Bauer, a filha com tendência para riscos, durante alguns episódios os autores a deixaram presa numa armadilha de caçador, acossada por uma onça.

"Às vezes o programa se desenrola estritamente com adrenalina e velocidade", diz Howard Gordon, que divide os créditos de produtor executivo com Cochran e Surnow. "Nosso trabalho é garantir que o trem corra bastante para que, mesmo que haja um buraco nos trilhos, continue andando."

E tudo isso, na opinião de Gordon, depende da caracterização de Jack Bauer feita por Sutherland, um personagem intenso e muitas vezes sinistro, constantemente obrigado a fazer opções terríveis --que às vezes inclui a morte de espectadores inocentes-- para salvar vidas e proteger as pessoas de quem ele cuida.

"Jack é um personagem realmente trágico", diz Gordon. "Ele é realmente o maldito ambulante. Não pode ter a vida que todos nós temos. Como que paga por nossos pecados."

Para Sutherland também não foi fácil. "A primeira temporada foi dura", reconhece o ator. "Foi um ato de fé. E depois de 48 filmes você acaba meio fraco no departamento fé. Havia tantas coisas sendo feitas no último minuto que me assustou. Mas agora confio que eles vão fazer as coisas direito." Isso inclui as mudanças radicais no elenco, cujos membros individuais --incluindo ele mesmo-- Sutherland considera menos importantes que o formato inovador do programa.

"O formato poderia continuar indefinidamente", ele diz. "Eles poderiam fazê-lo sobre o pior dia de um bombeiro, ou de alguém do exército. Ou de uma mulher grávida cujo carro quebra."

É claro que o astro não sabe se os produtores pensariam em fazer algo desse tipo. Nem eles mesmos sabem. Formato inovador impõe desafios para elaborar trama de "24 Horas" Luiz Roberto Mendes Gonçalves

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