UOL Notícias Internacional
 

05/12/2004

Pulverização mata a papoula do Afeganistão

The New York Times
Carlotta Gall

Em Nimla, Afeganistão
Líderes tribais e agricultores desta pitoresca aldeia agrícola no leste do Afeganistão confirmaram as declarações do governo afegão de que aviões não identificados têm pulverizado os campos de papoula, matéria-prima do ópio, com produtos químicos tóxicos.

Há mais de um mês, um avião escuro sacudiu as janelas durante a noite enquanto voava de um lado a outro, pulverizando uma substância química nas casas, pomares e campos, disseram agricultores e líderes tribais na sexta-feira. Os pés de papoula começaram a amarelar. A plantação morrerá, eles disseram.

"As pessoas estão surpresas e infelizes", disse Muhammad Hasham, 45 anos, um ancião da aldeia cuja plantação de papoula começou a morrer após a pulverização.

Seu irmão, Hajji Kamaluddin Popalzai, o chefe da aldeia, disse que o governo ordenou que parassem de cultivar papoula, mas eles esperavam alguma ajuda para começar a cultivar plantações alternativas. "Apenas aparecer e pulverizar, isto é injusto", disse ele.

A pulverização é um mistério, aparentemente até mesmo para o governo afegão. Na semana passada, o presidente Hamid Karzai convocou os embaixadores da Grã-Bretanha e dos Estados Unidos, os dois principais doadores envolvidos nos esforços de combate aos narcóticos no Afeganistão, para explicar a pulverização aérea em vários distritos da província de Nangarhar.

Ambos os países negaram qualquer envolvimento, segundo o porta-voz de Karzai, Jawed Ludin. Mas uma delegação do governo afegão, enviada para investigar, voltou com amostras do minúsculo pó cinza, do tamanho de grãos de açúcar, que foi pulverizada nas plantações, assim como amostras de solo para análise.

"Nós não apoiamos pulverização aérea como instrumento de erradicação", disse Ludin em uma coletiva de imprensa, na semana passada. "Nós nunca autorizamos no passado, no presente, e nunca autorizaremos no futuro o uso de substâncias químicas na pulverização da papoula."

"O governo do Afeganistão não autorizou qualquer entidade estrangeira, qualquer governo estrangeiro, qualquer empresa estrangeira, ou qualquer outro a executar uma pulverização aérea", disse ele.

Ludin disse que o governo afegão não estava convencido de que todas as outras medidas para combater os narcóticos tinham sido esgotadas, e também se preocupa com o impacto que as substâncias químicas poderão ter sobre as pessoas e as plantações legítimas. Mais importante, ele disse, a pulverização sem a autorização do governo foi uma violação da soberania do Afeganistão.

"Esta é uma questão de soberania, uma questão de estar ciente do que está acontecendo no país, e é claro que isto é algo que temos que tratar seriamente", disse Ludin.

As Forças Armadas americanas negaram qualquer envolvimento ou conhecimento da pulverização, e na quarta-feira o embaixador americano, Zalmay Khalilzad, negou ter contratado o serviço de alguma companhia ou agência.

"Eu posso dizer categoricamente que os Estados Unidos não o fizeram e que os Estados Unidos não contrataram ou subcontrataram qualquer um para fazê-lo", disse ele. Ele acrescentou não saber quem foi o responsável pela pulverização.

Mas o assunto vinha sendo discutido há meses, e os americanos argumentavam a favor da erradicação química, disseram autoridades afegãs e estrangeiras envolvidas no programa antinarcóticos.

Os Estados Unidos anunciaram recentemente que fornecerão US$ 780 milhões para o combate de drogas ilícitas no Afeganistão, a principal fonte mundial de ópio, ao longo do próximo ano. Parte do dinheiro irá para a firma de segurança americana DynCorp para treinamento da nova Força de Planejamento Central e Erradicação, uma força policial afegã dedicada à eliminação das plantações de papoula.

As autoridades afegãs disseram não saber quem foi o responsável, mas culparam rapidamente os Estados Unidos.

"Os americanos controlam o espaço aéreo do Afeganistão, e nem mesmo um pássaro pode voar sem o conhecimento deles", disse Hajji Din Muhammad, o governador de Nangarhar, a província onde ocorreu a pulverização. "Não havia necessidade de pulverização de produtos químicos, e nós não estamos felizes com isto."

Em Nimla, os aldeões disseram achar que o presidente Karzai provavelmente tinha conhecimento do plano. "Ele é como um pastor para seu povo e o pastor sempre sabe sobre suas ovelhas", disse Hasham. "Se não souber, ele não deveria ser um pastor."

Como outros agricultores daqui, Hasham disse que estava cultivando papoula porque não pode sobreviver se usar seus pequenos campos para cultivar trigo.

"Eu tenho dois campos", disse ele. "Se eu plantar trigo eu consigo 30 quilos de grãos, o que não é suficiente para alimentar minha família. Se plantar ópio, eu posso comprar grãos suficientes, além de óleo de cozinha e todas as outras coisas que precisamos."

Outro agricultor, Lala Gul, estava ocupado removendo os pés de papoula que estavam morrendo e semeando trigo em seu lugar, mas disse que terá prejuízo.

"Desde que os americanos chegaram a este país eu não ganhei nenhum dinheiro com minhas terras", disse ele.

Os agricultores pobres e trabalhadores sem-terra agora estão enfrentando a ruína, disse Hasham.

"Eu vou ter que vender minha terra", disse Ghulam Sayed, um agricultor de 65 anos e pai de oito. Ele disse que pegou dinheiro emprestado para plantar papoula em seu lote e teria que pagar a dívida na próxima colheita com dois quilos de ópio, derivado das plantas.

"Eles destruíram minha plantação e agora terei que plantar trigo, mas não vou conseguir pagar minha dívida", disse ele. "Eu já devo para uma pessoa 10 mil afeganis" - cerca de US$ 200 - "do ano passado, quando eles também pulverizaram". País é o maior produtor de ópio do mundo, feito a partir da planta George El Khouri Andolfato

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