UOL Notícias Internacional
 

06/12/2004

Mercado negro de Botox ameaça consumidores

The New York Times
Alex Kuczynski
Em Nova York
Para milhões de americanos, Botox é uma mágica. Algumas picadas e, em um dia, o rosto volta a ser quase aquele da adolescência, sem rugas ou as marcas do insulto incansável da vida adulta.

No entanto, os devotos da poção da juventude ficaram chocados, na semana passada, quando quatro pessoas foram internadas após os tratamentos contra as rugas, possivelmente com botulismo.

Há várias questões não respondidas no caso. Os investigadores desconfiam que o ex-osteopata da Flórida deu aos pacientes e a si mesmo injeções de um Botox falso, feito em casa ou ilegalmente importado. (Ele também ficou doente).

O Botox, que deriva de uma toxina e temporariamente paralisa músculos minúsculos que causam rugas, é fabricado pela Allergan Inc., uma empresa da Califórnia. Mas os médicos dizem que há um mercado negro crescente de compostos similares ilegalmente importados ou fabricados caseiramente. Eles custam muito mais barato, mas não foram aprovados para uso nos EUA.

Os Centros de Controle e Prevenção de Doenças, junto com os Departamentos de Saúde de Nova Jersey e da Flórida, estão avaliando se um casal da Flórida e o ex-médico, junto com um funcionário da clínica, estão envenenados com botulismo. Tim O'Connor, porta-voz do Departamento de Saúde do Condado de Palm Beach, disse que o casal da Flórida "apresentava todos os sinais de botulismo" e tinha sido tratado com um antídoto.
Leonard Hochstein, cirurgião plástico em Aventura, Flórida, administra o Botox há cinco anos e não suspendeu seu uso por causa dos casos recentes. No entanto, ele disse: "Acho que haverá uma redução da procura pelo Botox, ao menos por um tempo. Toda que vez que temos esses casos horripilantes de cirurgia amadora, isso afeta a todos nós."

A Allergan defendeu seu produto na semana passada. Uma porta-voz da empresa, Stephanie Fagan, emitiu uma declaração dizendo que apenas dois frascos de Botox tinham sido vendidos ao centro Médico Integrado Avançado nos últimos 12 meses, o suficiente para um número de dois a oito tratamentos. (Um tratamento padrão na cidade de Nova York custaria entre US$ 400 e US$ 1.000, ou entre R$ 1.080 e R$ 2.700). Em mensagem eletrônica, Fagan escreve que a empresa avaliou todos os processos de qualidade e segurança na fabricação e não encontrou nenhuma irregularidade. Nenhum outro médico ou paciente reclamou de efeitos adversos, disse ela.

O caso veio à atenção do público quando Eric S. Kaplan, quiroprata do Sul da Flórida, e sua mulher, Bonnie, disseram aos médicos que ficaram doentes depois de receberem injeções de Botox na clínica em Oakland Park, durante a semana do Dia de Ação de Graças. Os Kaplan, que foram internados no Centro Médico Palm Beach Gardens no dia 26 de novembro, estavam em estado grave, porém estável, na quinta-feira (02/12).
Bach McComb, 47, o homem que teria aplicado as injeções, também foi hospitalizado, com sua companheira, Alma Hall. McComb, que trabalha na clínica, e Hall foram admitidos no Centro Médico Bayonne, em Nova Jersey. (McComb, que mora na Flórida, tinha vindo a Jersey para visitar sua mãe). Os dois passaram ao menos parte da semana passada usando máquinas para respirar. Um homem atendeu ao telefone na casa da mãe de McComb em Bayonne e disse que ela estava emocionada demais para falar.

O'Connor disse que a agência de saúde da Flórida e os Centros de Controle de Doenças estavam investigando o material que McComb injetara nos pacientes e nele mesmo, se era Botox ou uma fórmula caseira de botulinum ou outra coisa.

Florence Evermon, irmã de Hall, disse na quinta-feira de sua casa na Geórgia que os médicos estavam otimistas. "Ela é jovem e saudável", disse ela. "E eles acham que ela vai melhorar."

McComb foi licenciado como médico osteopata, mas sua licença foi suspensa pela Flórida em abril de 2003, depois que foi preso no condado de Sarasota sob acusações de tráfico de drogas contra a dor, inclusive Oxycodone. Seu julgamento será em fevereiro.

Ele é conhecido nos círculos da cirurgia cosmética como um empresário que dá seminários que ensinam a produzir nos consultórios fórmulas cosméticas, como colágeno ou a toxina botulinum do tipo A, que é usada no Botox, nome do produto distribuído pela Allergan.

"Não é preciso ter equipamentos sofisticados, salas estéreis etc. A maior parte dos médicos já tem o necessário", proclamava um panfleto de propaganda enviado a cirurgiões na cidade de Nova York, no ano passado, com promessas de lucros rápidos e fáceis. Os panfletos convidavam os médicos ou membros de suas equipes a um seminário de dois dias, no qual, por US$ 1.150 (em torno de R$ 3.105) eles aprenderiam a fazer remédios contra rugas.
Os seminários prometiam ensinar métodos "simples, seguros e lucrativos. É possível preparar centenas de centímetros cúbicos de produtos de uma só vez, em menos de uma hora", dizia o panfleto, ao custo de US$ 1 (em torno de R$ 2,70) por dose.

Zahra Karim e Chad Livdahl, médicos naturopatas que organizaram as conferências, não responderam às mensagens deixadas com a recepcionista de Powderz Inc., empresa que fundaram no Arizona.

Em Nova York, Michale A. C. Kane, cirurgião plástico e autor de "The Botox Book" (O livro do Botox, St. Martin's Press, 2002), enfureceu-se com a idéia de que pessoas sem licença médica estejam produzindo a toxina botulinum ou colágeno.

"É loucura", disse Kane. O ambiente e os procedimentos usados para fazer tais produtos farmacêuticos "estão muito além da capacidade de um consultório médico, muito menos de pessoas sem diplomas de medicina."

Apesar de não se saber se os quatro que adoeceram foram injetados com um produto fabricado por McComb, claramente eles estavam procurando adquirir uma aparência mais jovem pelo uso de compostos farmacêuticos. Com a aprovação do Botox pelo Departamento de Alimentos e Drogas (FDA), em 2002, para uso cosmético no tratamento de rugas da testa, as vendas subiram vertiginosamente. Em 2003, a Allergan vendeu US$ 564 milhões (cerca de R$ 1,52 bilhão) em Botox. Com o aumento de sua popularidade, também cresceu o mercado ilegal: no ano passado, fiscais do FDA encontraram carregamentos de botulinum ilegais vindos de todas as partes do mundo. Grande parte vem da China, onde a toxina é vendida sob as marcas BTX-A e Botutox.

Kane e vários outros cirurgiões disseram que recebem freqüentemente anúncios de Botox e outros produtos mais baratos. Uma carta a Kane dizia que o Botutox "tem melhor qualidade, maior efeito e menor preço que o Botox" e prometia economias de 70 a 80%. (O Botox custa aos médicos US$ 488, ou cerca de R$ 1.317, por frasco).

Outra carta prometia "uma toxina Tipo A de clostridium botulinum muito estável" e, em letras pequenas, advertia: "Não serve para uso em humanos". Um telefonema ao fabricante, Toxin Research International, foi atendido pela mesma recepcionista que atendera o telefone da Powderz, no início do dia. Ela disse que ia passar outra mensagem a Karim e Livdahl (nenhum dos dois retornou a ligação). De acordo com um artigo de sexta-feira (03/12), do The Sun-Sentinel, do sul da Flórida, os documentos e arquivos da Toxin Research Internationl foram encontrados na clínica. Um homem respondeu ao telefone e não quis se identificar ou fazer comentários.

Michelle Copeland, cirurgiã plástica de Nova York, disse que recebe regularmente anúncios desse tipo. "Você sabe que são falsos", disse Copeland. "São tão baratos. Não sei de onde vêm. Eu nunca compraria."

De acordo com Fagan, a Allergan vende o Botox apenas para profissionais licenciados. A Advanced Integrated, entretanto, tem apenas licença de salão de massagem terapêutica e não de clínica médica, de acordo com os registros do Estado. O diretor da clínica, Thomas P. Toia, é um quiroprata e não um médico.

Fagan escreveu em mensagem eletrônica que não ia comentar sobre os motivos que levaram a Allergan a enviar Botox para a Advanced Integrated, citando a investigação em curso.

"Quando uma conta é aberta, exigimos provas de licenciamento do clínico", acrescentou. Uma mensagem que responde ao telefone de Toia, na clínica, disse que sua caixa de mensagens estava cheia. A clínica estava fechada.

É quase impossível contrair um caso de botulismo por Botox, de acordo com entrevistas com vários cirurgiões plásticos e dermatologistas. Alastair Carruthers, cirurgião dermatológico de Vancouver que estudou a toxina A do botulinum por três décadas, explicou que as doses utilizadas da toxina purificada são extremamente pequenas. A toxina se liga às terminações nervosas dos músculos injetados, bloqueando a liberação da substância química que de outra forma faria o músculo se contrair.

"A dose necessária para produzir o botulismo seria de cem frascos ou mais", disse Carruthers. "E teria que ser injetada diretamente no diafragma."
Carruthers disse que é improvável que a Allergan tenha vendido um lote com defeito. "É mais provável que alguém tenha produzido Botox na cozinha da sua casa ou no porão e tenha errado", disse ele.

Mas como qualquer pessoa pode conseguir a toxina A do botulinum?

"Olhe lá fora", disse ele. "Toda pá de sujeira contém o organismo que produz a toxina". Apesar de a bactéria e os esporos serem inofensivos, a toxina produzida quando os esporos são mantidos em um ambiente anaeróbico pode causar fraqueza e paralisia e pode ser fatal.
Nos EUA, há em média 110 casos de botulismo por ano, de acordo com as estatísticas dos Centros para Controle de Doenças. Dessas, aproximadamente 25% são alimentares, 72% são infantis e o resto de botulismo por ferida, freqüentemente associado com uso de drogas intravenosas.

Apesar das ações da Allergan terem mergulhado na semana passada, voltaram ao normal no final da semana. "Isso não criou pânico", disse Steven A. Teitelbaum, cirurgião plástico de Los Angeles. "As pessoas razoáveis sabem que centenas de milhares, se não milhões de pessoas já passaram por tratamentos de Botox", disse ele, e ninguém jamais contraiu botulismo antes.

Ele sugeriu que os pacientes usem o bom senso. "Primeiro, assegure-se de que seu médico é médico", disse ele. "Segundo, assegure-se de que de fato foi treinado no que está fazendo. Terceiro, faça uma pesquisa na Internet e, se o segundo item na primeira página dos resultados for de uma história de prisão por venda de drogas ilícitas, então considere procurar outro." Comércio irregular põe em risco a qualidade do produto utilizado Deborah Weinberg

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