UOL Notícias Internacional
 

07/12/2004

Al Qaeda ataca consulado dos EUA na Arábia

The New York Times
Neil MacFarquhar

Em Jidda, Arábia Saudita
Nesta segunda-feira (06/12), cinco agressores supostamente ligados à Al Qaeda realizaram um audacioso ataque diurno ao consulado dos Estados Unidos nesta cidade, a mais cosmopolita do reino, arrombando o portão fortificado do amplo complexo e iniciando um tiroteio de três horas que matou cinco funcionários do consulado e quatro agressores.

Foi o primeiro ataque mortal contra um grande alvo estrangeiro neste país em sete meses, e o primeiro contra uma missão diplomática ocidental desde o início da onda de violência terrorista aqui, em maio de 2003.

O ataque ocorreu exatamente um ano depois do Ministério do Interior ter tomado a medida sem precedente de listar os 26 terroristas mais procurados ligados à Al Qaeda na Arábia Saudita. Nos 12 meses que se seguiram, cerca de 17 deles foram mortos ou capturados em vários confrontos por todo o reino.

Mas o ataque desta segunda-feira foi um lembrete de que o grupo cada vez mais fragmentado ainda é capaz de violência letal. A escolha de um alvo americano, e um altamente protegido, pode ser uma tentativa de a Al Qaeda reconquistar parte do apoio que perdeu aqui ao matar civis, incluindo muitos sauditas e outros árabes, em uma série de ataques contra complexos residenciais.

Um breve anúncio do Ministério do Interior, divulgado pela Agência Saudita de Imprensa oficial, disse que "membros de um grupo divergente lançaram explosivos contra o portão do Consulado dos Estados Unidos". A terminologia é a habitual do ministério para as ramificações da rede terrorista da Al Qaeda que operam dentro da Arábia Saudita.

A declaração disse que as forças de segurança sauditas querem assegurar à população que estão determinadas a esmagar qualquer um que tente trazer "cismas e corrupção" ao país.

O ataque provocou a paralisação de uma grande área de Jidda, o centro financeiro e comercial da Arábia Saudita.

As ruas ao redor do consulado americano foram fechadas. O consulado fica próximo da zona portuária. Algumas pessoas pararam para observar um helicóptero que circulava acima da grande coluna de fumaça preta que subia de um prédio em chamas no interior do complexo ao céu cinzento de inverno.

Segundo relatos de funcionários do governo americano daqui e de Washington, assim como de testemunhas, o ataque teve início por volta das 11h15 da manhã, com homens armados tentando invadir com um veículo uma entrada lateral do complexo, geralmente usada por funcionários e pessoas à procura de vistos.

O complexo, que era a embaixada antes de a capital ter sido mudada para Riad e que cobre quase todo um quarteirão da cidade, há muito tempo é cercado por muros de arenito de 3 metros, que até recentemente eram cobertos por arame farpado entrelaçado com buganvília.

As flores e o arame farpado foram removidos, substituídos por um metro a mais de cerca composta por barras de ferro com pontas. Outros acréscimos de segurança incluem uma casa fortificada da guarda e mais câmeras externas, disse J. Adam Ereli, um porta-voz do Departamento de Estado, em uma coletiva de imprensa em Washington.

O veículo de alguma forma conseguiu passar pela primeira barreira até uma pista fechada utilizada para afunilar o tráfego no complexo, mas foi detido por uma barreira, disse Carol R. Kalin, a porta-voz da embaixada americana em Riad.

Os agressores, usando uma combinação de disparos e talvez algumas granadas ou pequenos explosivos, criaram distração suficiente para passar pela casa da guarda e entrar no complexo.

"Todos os guardas de segurança sauditas estavam disparando pesadamente", disse Muhammed Mahmoud Fouad, um egípcio que trabalha aqui e que estava preso no trânsito a cerca de 100 metros do tiroteio. "Havia um guarda na torre e ele também estava disparando. Havia tantas pessoas disparando que era impossível dizer quantas estavam envolvidas."

Cerca de 15 minutos depois do início do tiroteio, disse Fouad, houve uma explosão e colunas de fumaça se ergueram do complexo.

Um dos primeiros prédios atacados pelos atiradores foi o quartel dos marines, que pegou fogo, disseram funcionários americanos. Então os agressores tentaram sem sucesso entrar no prédio principal do consulado, um bangalô de concreto de um único andar.

Os marines do consulado, alertados pelo barulho do ataque, se dirigiram ao prédio principal e conduziram a maioria dos funcionários a um abrigo não especificado. Não se sabe se os marines estiveram envolvidos no tiroteio.

O governo americano não disse quantos funcionários trabalhavam no consulado, mas há um grande contingente de pessoas aqui devido ao grande volume de comércio que passa por Jidda.

Cinco funcionários locais foram mortos e quatro ficaram gravemente feridos. Entre estes nove, nenhum deles americano, estava um guarda de segurança local.

Os demais eram na maioria motoristas e mecânicos do complexo, que parecem ter sido pegos do lado de fora dos prédios.

Quatro outras pessoas ficaram feridas, todas aparentemente no complexo em busca de vistos ou outros assuntos, apesar dos relatos às vezes serem confusos.

Cinco policiais que ficaram feridos quando a Guarda Nacional Saudita correu para o complexo foram tratados e liberados, disse a declaração do Ministério do Interior.

A declaração informou que três dos agressores foram mortos no local e o quarto morreu posteriormente devido aos seus ferimentos.

A declaração disse que os feridos incluíam dois iemenitas, dois paquistaneses, um libanês, um filipino, um indiano e um cingalês.

Nenhum americano foi morto e uns poucos sofreram pequenos arranhões e hematomas, disseram funcionários. Na embaixada saudita em Washington, Adel Al Jubair, um assessor do príncipe regente Abdullah, disse aos repórteres que os agressores telefonaram para um número de emergência do reino para anunciar que faziam parte das Brigadas de Fallujah, e que tinham feito 15 reféns. Mas tanto ele quanto os funcionários americanos disseram que em nenhum momento foram feitos reféns dentro do complexo.

A embaixada americana em Riad e o consulado americano em Dhahran foram fechados por precaução logo após o início do ataque em Jidda e permanecerão fechados na terça-feira, disse Kalin.

Baluarte do ateísmo

Uma série de ataques na primavera passada, incluindo a terrível decapitação de Paul M. Johnson Jr., um engenheiro de helicópteros, abalou as comunidades americana e estrangeiras aqui, com a embaixada americana alertando todos seus cidadãos para que deixassem o país.

Segundo algumas estimativas, incluindo o número de crianças na escola americana em Riad, a comunidade americana de cerca de 35 mil encolheu em 20%.

Mas a longa série de ataques que matou mais de 75 pessoas desde maio de 2003 parecia ter cedido, com a embaixada americana divulgando um alerta de ameaça ligeiramente reduzido em outubro, notando que os esforços de contraterrorismo da Arábia Saudita tinham tolhido a capacidade de agir dos extremistas.

Nos últimos dois meses ocorreram vários ataques contra abrigos utilizados pela Al Qaeda em Jidda, com relatos de que um dos poucos líderes conhecidos remanescentes tinha morrido em um destes ataques. Mas na edição do início de novembro de um boletim, o "Sawt Al Jihad", o grupo zombou da idéia de que o ataque das forças de segurança tinha minado sua capacidade de agir.

O ataque parece ter conseguido retorno imediato em apoio daqueles que aplaudem tal violência por meio de vários murais de Internet populares entre os extremistas.

Uma mensagem elogiava a "destruição de um baluarte do ateísmo", enquanto outra dizia: "Nós temíamos por nossos irmãos na península árabe, mas isto prova que estão bem, graças a Deus".

Mas também havia críticas, que diziam entre outras coisas que o ataque ajuda a destruir a imagem do Islã, mata almas inocentes e provoca medo entre os fiéis. "É isto o que Osama Bin Laden prometeu duas semanas atrás, quando disse que combateria os americanos?" escreveu um colaborador de Internet. "Matar uma alma islâmica inocente significa enfrentar os americanos?"

Por este motivo, a maioria dos clérigos militantes e outros tem exortado seus seguidores a realizarem a jihad no Iraque, a ponto do governo ter buscado desencorajá-los, temendo o mesmo tipo de reação que sofreu após a jihad dos anos 80 no Afeganistão. Mas não se acredita que algum combatente saudita que partiu para o Iraque tenha voltado para promover uma jihad local. Atentado a área protegida é visto como demonstração de força George El Khouri Andolfato

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