UOL Notícias Internacional
 

07/12/2004

Putin diz que aceitará vontade do povo ucraniano

The New York Times
C.J. Chivers

Em Moscou
O presidente Vladimir V. Putin ajustou a sua posição linha-dura quanto à eleição presidencial na Ucrânia, afirmando nesta segunda-feira (06/12) que aceitaria a escolha do povo ucraniano e que trabalharia com qualquer candidato que vencesse a segunda eleição, marcada agora para 26 de dezembro.

Putin admitiu efetivamente que a sua preferência inequívoca para a presidência da Ucrânia, o primeiro-ministro Viktor F. Yanukovich, poderá não prevalecer na nova eleição, fazendo com que conte com poucas opções a não ser aceitar uma vitória do candidato da oposição, Viktor A. Yushchenko.

Ao reconhecer essa possibilidade, Putin adotou um discurso diferente daquele utilizado há algumas semanas, que o deixou na posição isolada de apoiar um candidato cuja campanha foi marcada por fraudes, e cuja história pessoal inclui condenações pela prática de crime violento.

Mas, além dessa mudança tática de discurso, Putin cedeu pouco. Ele reclamou abertamente da nova direção tomada pelas questões políticas ucranianas. E sugeriu que as manifestações favoráveis à democracia e outros eventos em Kiev, a capital da Ucrânia, que levaram à anulação da vitória de Yanukovich em 3 de dezembro pela Corte Suprema, criaram um perigoso precedente e demonstraram os males de uma democracia desorganizada.

"Se permitirmos na era pós-soviética que as leis existentes sejam alteradas sob qualquer circunstância para se adequarem a uma ou outra situação, isso não conduzirá à estabilidade, mas, ao contrário, desestabilizará essa grande região que é muito importante para o mundo", disse Putin em um comentário feito pela televisão na Turquia, país ao qual faz uma visita oficial.

"Isso é o que considero absolutamente inadmissível e não construtivo. Pelo contrário, é contraproducente", continuou Putin.

A crise política na Ucrânia, que paralisou a nação de 48 milhões de habitantes por mais de duas semanas, se transformou em um desafio político para Putin. É uma questão na qual ele investiu o seu prestígio pessoal, e que expôs alguns dos limites do seu poder e, segundo alguns críticos, da sua capacidade de avaliação.

Bem antes dos protestos de massa que paralisaram Kiev, Putin se intrometeu na corrida presidencial, fazendo campanha favorável a Yanukovich e, a seguir, cumprimentando-o publicamente pela vitória --mesmo que os votos ainda estivessem sendo contados e os observadores ocidentais e governos o advertissem de que a eleição fora marcada por intimidação e fraude governamentais.

O fluxo dos eventos deixou Putin na difícil posição pública de apoiar um candidato cujos aliados logo mostraram ser motivados por interesses monetários.

Várias regiões do leste da Ucrânia ameaçaram buscar autonomia como forma de tentar preservar os votos fraudados, e a mulher de Yanukovich declarou na televisão que os manifestantes receberam dinheiro e que estavam sobre a influência de laranjas recheadas com drogas (as suas declarações foram recebidas com gratidão pelos opositores nas ruas de Kiev, quando nada porque foram motivo de risos).

No dia anterior à determinação da Corte Suprema, Putin voltou inesperadamente a se meter na discussão, reunindo-se com Leonid D. Kuchma, o presidente da Ucrânia que se despede do cargo, para uma aparição breve na televisão em Moscou, onde Putin disse que não haveria nova eleição.

A decisão da corte no dia seguinte foi exatamente o oposto do que Putin sugeriu, fazendo com que ele mais uma vez parecesse estar fora de sintonia com a situação e desprovido de influência.

A percepção em Moscou de que a Ucrânia está rumando para uma direção não antecipada pelo Kremlin gerou uma série de declarações especialmente estridentes da elite política russa, assim como uma contínua intervenção em programas de televisão e em jornais. Uma manchete que apareceu em 3 de dezembro no jornal "Trud" sintetizou o humor oficial evidente: "A Guerra Fria Nunca Acabou".

Na sexta-feira passada, a Duma, uma das casas do Parlamento, que é controlada em grande parte por Putin, divulgou uma declaração que criticava duramente a participação de mediadores e observadores na crise da Ucrânia. Ela acusou o Ocidente de "encorajar, na prática, uma fração radical da população a cometer ações perigosas, que ameaçam provocar distúrbios de massa, caos e a divisão do país".

A votação gerou críticas enfáticas de Dmitri O. Rogozin, chefe do partido nacionalista russo Rodina, que disse que, se "órgãos do governo continuarem a protagonizar palhaçadas e a parodiar um parlamento real, então o governo legalmente eleito poderá perder o controle da situação".

Putin reluta em admitir os seus erros. Ele ainda discutiu publicamente a fraude eleitoral em grande escala. E tampouco reconheceu publicamente o apoio palpável à oposição em grande parte da Ucrânia.

E, nesta segunda-feira, quando começava a dar declarações conciliatórias, mudou subitamente de tom e citou cenários potenciais, usando uma linguagem reminiscente de momentos da Guerra Fria.

"Não quero que dividamos a Ucrânia em um povo no oeste e outro no leste, em um povo de primeira e outro de segunda categoria", afirmou.

A seguir, eles disse que "o povo de segunda categoria", um grupo que tem, "figurativamente falando, pele política escura", poderia ficar sujeito à punição com "bombas, como ocorreu em Belgrado". Isso foi uma referência à guerra liderada pelos Estados Unidos contra a Sérvia, que pareceu sugerir que aqueles que não seguissem o candidato preferido pelo Ocidente poderiam de alguma forma correr o risco de sofrerem um ataque.

A declaração provocou mal-estar na Rússia e no exterior. "Quando Putin está desligado da tomada, é possível ouvir praticamente qualquer coisa, e creio que estamos ouvindo o Putin desligado", disse, em uma entrevista por telefone, Stephen R. Sestanovich, membro do Conselho de Relações Internacionais.

"Ao tentar descrever o abismo que separa o Ocidente e a Rússia quanto à eleição ucraniana, Putin colocou a si próprio em uma posição não invejável e insustentável, ao argumentar que promover uma eleição livre e justa é o mesmo que prevenir uma eleição livre e justa, e ele não vai achar muita gente que aceite tal argumento", acrescentou Sestanovich.

Grigory A. Yavlinsky, líder do partido liberal Yabloko, que faz oposição a Putin, foi além, dizendo que o presidente da Rússia atualmente "está sem vínculos com a realidade".

Ele disse que Putin se colocou em uma posição embaraçosa, da qual ainda não é capaz de sair. "Essa tentativa de modificar a orientação geopolítica da Ucrânia foi um profundo e sério erro de cálculo", concluiu. Declarações do presidente russo, porém, remetem à Guerra Fria Danilo Fonseca

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