UOL Notícias Internacional
 

08/12/2004

CIA prevê violência e caos crescentes no Iraque

The New York Times
Douglas Jehl

Em Washington
Uma mensagem sigilosa enviada pelo chefe do escritório da Agência Central de Inteligência (CIA) em Bagdá advertiu que a situação no Iraque está se deteriorando e que as coisas não devem melhorar tão cedo, segundo autoridades do governo norte-americano.

A mensagem, enviada no final de novembro, quando o oficial de inteligência da CIA terminou o seu período de um ano à frente do escritório, apresentou uma avaliação sombria quanto às questões relativas à política, à economia e à segurança, disseram as autoridades. Segundo as fontes, essas conclusões básicas foram confirmadas por relatórios de missão apresentados por um outro oficial de inteligência graduado que visitou recentemente o Iraque.

Essas autoridades descreveram as duas avaliações como sendo "mistas", dizendo que elas realmente atestam que foram feitos importantes progressos no Iraque, especialmente quanto ao processo político, e reconhecem o otimismo dos iraquianos.

Mas, acima de tudo, as autoridades descreveram a mensagem enviada pelo chefe do escritório da CIA em Bagdá como sendo uma avaliação sem retoques das dificuldades que há pela frente no Iraque. Elas dizem que o documento adverte que a situação da segurança provavelmente piorará, incluindo mais violência e embates sectários, a menos que o governo iraquiano promova rapidamente melhoras significativas, em termos de capacidade de impor a sua autoridade e de construir a economia.

Juntas, as duas avaliações, que se seguiram a vários outros alertas semelhantes feitos por autoridades em Washington e na zona de conflito, foram bem mais pessimistas do que a imagem que o governo Bush vem oferecendo à população antes das eleições iraquianas, marcadas para o mês que vem.

A mensagem sigilosa foi enviada para a sede da CIA após as forças norte-americanas completarem aquilo que os comandantes militares descreveram como uma vitória significante, com a retomada de Fallujah, uma das principais bases da insurgência iraquiana, em meados de novembro.

Segundo as autoridades, o embaixador norte-americano no Iraque, John D. Negroponte, teria escrito uma carta de reclamação, se opondo a uma das conclusões por considerá-la demasiadamente pessimista, alegando que os Estados Unidos fizeram mais progressos do que foi descrito no relato do combate à insurgência iraquiana.

O principal comandante militar norte-americano no Iraque, general George W. Casey Jr., também examinou a mensagem e inicialmente não se opôs ao seu conteúdo. Uma autoridade ouvida pela reportagem, no entanto, disse que o general Casey pode ter manifestado objeções nos últimos dias.

A mensagem do chefe do escritório da agência no Iraque foi bastante disseminada fora da CIA, e foi inicialmente descrita por uma autoridade do governo que leu o documento e que o elogiou por ser de uma honestidade inusual.

Outros membros do governo que leram o documento ou foram informados sobre ele descreveram mais tarde o seu conteúdo. As autoridades se recusaram a ser identificadas pelo nome ou filiação devido à sensibilidade do assunto. A identidade do chefe do escritório não pode ser publicamente divulgada porque ele continua a trabalhar na clandestinidade.

Quando lhe perguntaram sobre a mensagem, Sean McCormack, um porta-voz da Casa Branca, disse não poder discutir assuntos relativos à inteligência. Um porta-voz da CIA disse apenas que não poderia fazer comentários sobre um documento sigiloso.

Não ficou claro como a Casa Branca está respondendo à mensagem do chefe do escritório. Nos últimos meses, alguns republicanos, incluindo o senador John McCain, do Arizona, acusaram a agência de procurar minar o presidente Bush ao revelar relatórios de inteligência cujas conclusões contradizem o governo ou as suas políticas.

Mas oficiais de inteligência graduados, incluindo John E. McLaughlin, o ex-vice-diretor de inteligência central, levantou dúvidas quanto a tais assertivas. Um membro do governo disse que novas avaliações podem sugerir que Porter J. Goss, o novo diretor de inteligência central, estaria disposto a ouvir opiniões diferentes daquelas expressas publicamente pela administração.

Uma Estimativa Nacional de Inteligência, independente e mais formal, preparada em julho e enviada à Casa Branca em agosto pelas agências norte-americanas de inteligência, também apresentaram uma previsão sombria quanto ao futuro iraquiano até final de 2005.

Entre os três possíveis cenários citados pelo documento, o melhor seria uma estabilidade tênue e o pior inclui uma cadeia de eventos que levaria a uma guerra civil.

Após reportagens da imprensa revelarem a existência da Estimativa Nacional de Inteligência, que também continua sob sigilo, o presidente Bush inicialmente minimizou a importância das conclusões, dizendo que não passavam de palpites. Porém, desde então, a violência aumentou no Iraque, incluindo a recente formação de uma milícia xiita com o objetivo de desfechar ataques contra militantes sunitas.

O relatório de fim de missão do chefe do escritório da CIA em Bagdá, que avalia a situação no terreno onde se desenrola o conflito, é um produto menos formal do que uma Estimativa Nacional de Inteligência. Mas foi escrita por um indivíduo muito respeitado dentro da CIA e que, como chefe do escritório em Bagdá, é o mais importante oficial de inteligência no Iraque desde dezembro de 2003.

O chefe do escritório controla uma operação de inteligência que inclui cerca de 300 pessoas, fazendo de Bagdá o maior posto externo da CIA desde Saigon, durante a Guerra do Vietnã.

O oficial graduado da CIA que visitou o Iraque e que a seguir informou a outras agências do governo sobre a situação foi Michael Kostiw, assessor de Goss. Uma autoridade governamental que ouviu os relatos de Kostiw os descreve como sendo "um retrato honesto da situação na zona de conflito".

Desde que assumiu o cargo em setembro, Goss e os seus assessores procuram desencorajar vazamentos de informações. Em um memorando enviado aos funcionários da CIA no mês passado, Goss disse que a tarefa da agência de inteligência é "fornecer a inteligência como a vemos", mas também "apoiar a administração e as suas políticas em nosso trabalho".

"Como funcionários da agência nós não apoiamos, fazemos oposição ou nos identificamos com o governo ou as suas políticas", disse Goss no memorando, afirmando que estava procurando "esclarecer para além de qualquer dúvida as regras da estrada". O memorando pede aos funcionários da agência que "deixem os fatos falarem por si próprios aos tomadores de decisões".

O próprio Goss fez a sua primeira viagem ao estrangeiro como diretor de inteligência na semana passada, com escalas que incluíram vários dias no Reino Unido e um dia no Afeganistão. Mas, segundo fontes do governo, ele não visitou o Iraque.

Na segunda-feira, na Casa Branca, o próprio presidente Bush não deu sinal algum de pessimismo ao se encontrar com o presidente iraquiano, Sheik Ghazi al-Yawar.

Apesar dos desafios no campo da segurança, Bush afirmou que os Estados Unidos continuam a apoiar a votação iraquiana marcada para 30 de janeiro, "para enviar a umas poucas pessoas no Iraque que estão tentando deter a marcha rumo à democracia a mensagem clara de que eles não são capazes de deter as eleições".

"O povo norte-americano precisa entender que a democracia simplesmente não ocorre da noite para o dia", afirmou. "Ela é um processo. Uma evolução. Afinal, olhem para a nossa própria história. Tivemos grandes princípios enunciados na nossa Declaração de Independência e na nossa Constituição, mas, mesmo assim, houve escravidão no país por cem anos. Demora um pouco até que a democracia se solidifique. E esse é o nosso principal passo em uma sociedade que permite que o povo expresse as suas crenças e as suas opiniões". Relatório secreto da agência adverte que situação do país só piora Danilo Fonseca

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