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10/12/2004

Bush e Rumsfeld dizem que vão 'blindar' militares

The New York Times
Thom Shanker*

Em Washington
O comandante das forças terrestres americanas no Oriente Médio prometeu nesta quinta-feira (09/12) fornecer veículos blindados para todos os soldados no Iraque, ao mesmo tempo em que estatísticas do Congresso revelavam uma profunda escassez de blindagem para caminhões de transporte de alimento, combustível e munição nas rotas perigosas.

Após soldados terem confrontado o secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, na quarta-feira, com queixas de que o Pentágono os estava enviando para a guerra sem equipamento blindado suficiente para protegê-los, tanto o presidente Bush quanto Rumsfeld não mediram esforços para rebater as críticas públicas.

"As preocupações manifestadas estão sendo tratadas, e esperamos que nossos soldados tenham o melhor equipamento possível", disse Bush. "E eu disse para as muitas famílias que encontrei que estamos fazendo todo o possível para proteger seus entes queridos em uma missão que é vital e importante."

Nesta quinta-feira, o Comitê de Serviços Armados da Câmara divulgou estatísticas que mostram que apesar de muitos jipes Humvee serem blindados, a maioria dos caminhões de transporte, que atravessam o Iraque para suprir as tropas, não é.

O comitê disse que mais de três quartos dos 19.854 jipes Humvee no Iraque, Afeganistão e Kuwait possuem blindagem protetora, que pode variar em qualidade. Os mais seguros são os Humvees blindados de fábrica, e as forças armadas americanas receberam 5.910 dos 8.105 destes Humvees que os comandantes disseram que requisitaram. Mas apenas 10% dos 4.814 caminhões de transporte de peso médio têm blindagem, e apenas 15% dos 4.314 veículos de transporte pesado têm.

A revolta em torno do equipamento expôs alguns dos desafios cruciais enfrentados pelo Pentágono: como equipar e treinar as tropas para uma guerra cuja própria natureza tem mudado.

Uma insurreição cheia de recursos tem se aproveitado da vulnerabilidade americana --a escassez de veículos blindados-- e atacado as linhas de suprimento com bombas de estrada. Estes caminhões são dirigidos principalmente por reservistas enquanto os soldados da ativa são empregados em combate direto, e as disparidades entre estes soldados já levou o Departamento de Defesa a promover amplas mudanças na forma como os soldados americanos são treinados e equipados.

A falta de veículos blindados fez com que 18 reservistas no Iraque se recusassem a transportar combustível em 13 de outubro, um incidente que atraiu atenção para as queixas das famílias dos reservistas de que eles foram enviados para a guerra sem o equipamento apropriado.

O assunto ganhou nova intensidade e ampla atenção por ter sido levantado não nos limites seguros de uma audiência no Capitólio ou de uma sala do Pentágono, mas por um batedor da Guarda Nacional do Tennessee, que pressionou diretamente o secretário de Defesa nos desertos do Kuait, poucos dias antes do soldado ser enviado ao Iraque por uma ano.

No Campo Buehring, uma base de trânsito para os soldados americanos que entram e partem do Iraque, o especialista Thomas Wilson disse que sua unidade tem sido forçada a revirar ferros-velhos locais para encontrar sucata suficiente para fixar em seus caminhões, para proteção contra as bombas de estrada no Iraque. O incidente foi surpreendente em parte devido à disposição do soldado de confrontar o secretário, mas na quinta-feira foi noticiado que um repórter de jornal inserido na tropa ajudou a orquestrar o questionamento.

Rumsfeld, após deixar o Kuait para uma visita oficial à Índia, disse ser importante que altos oficiais do Pentágono ouçam diretamente as preocupações dos soldados, mas não ofereceu nenhuma mudança imediata na forma como o Exército está reagindo aos problemas.

"Eu acho que é bom as pessoas questionarem", disse ele. "Isto dá à alta liderança militar, que é responsável por estes assuntos, uma chance de ouvi-los, de conversar com eles".

Já se foi o tempo em que as forças armadas americanas podiam planejar o combate ao longo das perigosas linhas de frente, ao mesmo tempo em que contavam com uma área de retaguarda relativamente segura para logística.

"No ano passado, nós começamos a ver um aumento dos ataques com dispositivos explosivos improvisados contra nossas forças, principalmente contra os comboios que atravessavam o Iraque", disse o general de exército R. Steven Whitcomb, comandante da coalizão de forças terrestres no Oriente Médio. "E eles começaram a ter um impacto sobre nossos soldados, um impacto mortal, como todos sabemos."

Em uma vídeo conferência arranjada às pressas do Kuwait para os repórteres do Pentágono, Whitcomb disse que o Exército já está enviando às pressas veículos blindados para a região e reforçando a blindagem dos outros.

"Eu tenho metal suficiente, eu tenho pessoal suficiente, eu tenho tempo suficiente para cumprir nosso cronograma, que assegura que nenhuma unidade de combate em veículos com rodas entrará a partir de agora no Iraque sem ser blindada", ele acrescentou. "Assim, continuamos trabalhando febrilmente para assegurar que nossa exigência seja atendida, e que ninguém irá para o norte sem ela."

A escassez levou os soldados enviados para o Iraque a procurarem por aço e vidro à prova de bala para aumentar a proteção, no que passou a ser chamado de "blindagem caipira".

Nos campos de trânsito no Kuait, motoristas do Exército e da Corporação Marine soldaram aparas antiestilhaço nos capôs de seus caminhões, para desviar estilhaços de explosões e ao mesmo tempo manter a visibilidade. Sacos de areia são distribuídos no chão dos jipes Humvees, reduzindo o escasso espaço para as pernas de classe econômica para terceira classe. E antes de partirem para o norte, as equipes vão até as oficinas nas bases de trânsito para obter portas de aço improvisadas para seus Humvees e caminhões não blindados percorrerem a jornada.

No campo de batalha no Iraque, há um ar de aceitação resignada, em vez das queixas amargas que Rumsfeld ouviu. Entre as unidades que carecem de Humvees blindados, ou de um número suficiente deles para transporte de todos os soldados enviados em missões potencialmente perigosas, o humor, após 20 meses de guerra, tende mais a piadas do que a recriminação.

"Se eles acertarem um d.e.i. em você nisto, não restará o suficiente para ser ensacado e enviado para casa", disse um sargento marine no início desta semana, enquanto mostrava para os repórteres que acompanhavam sua unidade um dos três jipes Humvee de traseira aberta designados para uma incursão a uma suposta fortaleza rebelde ao sul de Bagdá. Entre os soldados no Iraque, d.e.i., ou dispositivo explosivo improvisado, é a sigla para as bombas de estrada que mataram cerca de dois terços de todos os soldados americanos mortos em combate.

Entre os marines, a falta de equipamento adequado foi absorvida pelo espírito de dureza. Nos briefings, os comandantes empregam freqüentemente o antigo lema marine: "Improvise, adapte, supere", e desprezam as queixas.

Mas outros soldados e ex-soldados continuam furiosos.

"Este é um grande problema que exige atenção imediata, e o que você viu ontem de Rumsfeld mostra que ele não entende o que se passa em terra", disse Paul Rieckhoff, um ex-líder de pelotão de infantaria da Guarda Nacional da Flórida no Iraque, que agora dirige uma organização chamada Operação Verdade, um grupo de defesa para soldados e veteranos.

"Esta é uma situação de vida ou morte para as pessoas que estão lá. Complacência, incompetência ou negligência, eu não sei que outra desculpa poderia haver. Mas quando estes sujeitos erram, nós sangramos."

Logística

Os kits para fornecer proteção adicional aos veículos que já estão no Iraque estão sendo produzidos pelo Comando de Material do Exército dos Estados Unidos, onde os oficiais disseram na quinta-feira que estavam lutando para acelerar o trabalho e concluir o mais recente pedido do Iraque antes do prazo previamente declarado de março de 2005.

"Nós estamos tentando acelerar o processo e há a possibilidade de atendermos ao pedido antes do prazo", disse Tesia Williams, uma porta-voz do Exército.

Ao mesmo tempo, ela defendeu os esforços do Exército até o momento para blindar os veículos militares Humvee utilizados no Iraque. Segundo números fornecidos por Williams, o Comando de Material recebeu sua primeira encomenda de 1.000 kits em novembro de 2003, seguida por uma encomenda de 2.870 em dezembro de 2003; 800 em janeiro de 2004; 2.090 em fevereiro de 2004; e 1.516 em abril de 2004.

Mais encomendas recebidas no verão passado agora totalizam 13.872, das quais cerca de 75% já foram atendidas, disse Williams.

Apenas parte do trabalho foi terceirizado, principalmente para uma fábrica em Ohio administrada pela O'Gara-Hess & Eisenhardt, uma unidade da Armor Holdings. O restante dos kits está sendo produzido internamente por funcionários civis do Exército que trabalham em depósitos em Nova York e seis outros Estados, onde estão usando máquinas de corte por laser para cortar o aço comprado diretamente de duas usinas.

A Armor Holdings também produz blindagem para os novos Humvees, e a empresa disse na quinta-feira que avisou ao Exército no mês passado que tem capacidade para aumentar sua produção para 550 veículos por mês, em comparação aos 450 veículos que produz no momento.

Os oficiais militares no Pentágono não expressaram surpresa por ter sido um membro da Guarda Nacional quem questionou Rumsfeld. A duração e número de turnos, assim como os números de seus membros mortos e feridos, já têm imposto um estresse inesperado sobre a Guarda e os reservistas, cujos membros nem sempre são tão bem treinados e equipados quanto os membros do serviço ativo.

O sistema para treino, equipagem, mobilização e disposição dos reservistas não estava pronto para o aumento histórico de convocações desde os ataques de 11 de setembro, reconheceram os oficiais.

A Guarda e os reservistas já registraram quase 63 milhões de dias de serviço no ano passado, mais de cinco vezes os 12 milhões de dias de serviço registrados anualmente no final dos anos 90. Até quarta-feira, o total de soldados da Guarda Nacional e da Reserva em ação ao redor do mundo e nos Estados Unidos era de 185.019.

Os Democratas no Congresso correram para o debate na quinta-feira, dizendo que um dos principais deveres de Rumsfeld é o de assegurar a segurança das tropas.

O senador Joseph R. Biden Jr. de Delaware, o líder da bancada democrata no Comitê de Relações Exteriores do Senado e um dos maiores críticos das políticas do governo para o Iraque, disse que as tropas carecem de equipamento protetor em parte devido à pressa com que os Estados Unidos foram à guerra.

"Esta foi uma guerra por opção, não necessidade, para ser travada segundo nosso cronograma, não o de Saddam", disse Biden em uma declaração. "Então por que, 20 meses depois da queda da estátua de Saddam, nossos soldados ainda não possuem a proteção que necessitam? O Congresso deu virtualmente a este governo todos os dólares que pediu para o Iraque."

* Colaboraram Eric Schmitt de Nova Déli; John F. Burns, de Bagdá; John Files, de Washington; Michael Moss e Leslie Wayne, de Nova York. Governo dos EUA responde a reivindicações dos soldados no Iraque George El Khouri Andolfato

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