UOL Notícias Internacional
 

10/12/2004

Corporações brasileiras avançam sobre os EUA

The New York Times
Todd Benson

Em São Paulo
Gerdau/NYT Image

Siderúrgica na Geórgia, já adquirida pela Gerdau, empresa multinacional
Quando o Brasil começou a abrir sua economia no início dos anos 90, as empresas temiam que seriam surradas em seu próprio território pelas rivais estrangeiras com bolsos profundos. Parece que tais temores eram exagerados.

Não apenas muitas das maiores empresas do Brasil estão se saindo muito bem em casa, ao empregar habilmente seu conhecimento do imenso mercado doméstico do país para rechaçar a concorrência externa, como também estão cada vez mais empregando sua força no mercado internacional.

Muitas delas estão comprando ativos e construindo fábricas em países estrangeiros que há apenas uma década pareciam fora de alcance para muitos no setor corporativo, tradicionalmente voltado para o mercado interno. Talvez em nenhum outro lugar esta última tendência está mais aparente do que na América do Norte, onde um crescente número de empresas brasileiras está estabelecendo residência e vendendo de tudo, de cimento e aço até aviões e suco de laranja.

Para algumas dessas empresas, expandir para grandes mercados de consumo como Canadá e os Estados Unidos é crucial para manter o crescimento, visto que já possuem posição dominante em casa. Para outras, é uma forma de aumentar sua receita em dólares enquanto contornam barreiras comerciais, como as tarifas e cotas de importação.

Para todas estas empresas, a expansão para o exterior oferece acesso a crédito barato --algo escasso no Brasil, onde as taxa de juros estão entre as mais altas do mundo.

"Se você comparar uma boa empresa brasileira com uma empresa localizada nos Estados Unidos ou na Europa, realizando as mesmas coisas com as mesmas operações e as mesmas instalações de produção, então o lado brasileiro provavelmente estará em vantagem por contar com mão-de-obra mais barata, assim como, provavelmente, custos de energia", disse Peter Badura, gerente-geral do Banco WestLB do Brasil, a divisão brasileira do banco alemão WestLB. "Mas por outro lado, o custo do capital está matando-as."

Mas ao comprar ativos em economias mais desenvolvidas como a dos Estados Unidos, acrescentou Badura, as empresas brasileiras estão essencialmente "vendendo a si mesmas como uma empresa não-brasileira, como uma empresa que gera um fluxo de caixa não sensível ao governo brasileiro, ao sistema legal brasileiro ou à moeda brasileira".

A necessidade de crédito a custo aceitável foi citada no mês passado pelo Grupo Votorantim, o maior conglomerado industrial diversificado do Brasil, quando anunciou que compraria duas fábricas de cimento nos Estados Unidos, de propriedade da Cemex do México, por US$ 400 milhões.

A aquisição será a mais recente de várias compras da unidade de cimento da Votorantim, a Votorantim Cimentos, que disse estar buscando ativamente novas oportunidades em "mercados maduros e estáveis como os Estados Unidos", com a esperança de dobrar suas operações fora do Brasil até 2007.

A Votorantim fez sua primeira incursão na América do Norte em 2001, comprando a Saint Mary's Cement Inc., sediada em Toronto, por US$ 680 milhões. No ano passado, ela adquiriu uma participação de 50% em uma empresa na Flórida, a Suwannee American Cement. Ao todo, a Votorantim Cimentos possui 25 fábricas e mais de 8 mil funcionários no Brasil e na América do Norte.

Fábrica de pregos

Uma das primeiras empresas brasileiras a se voltar para o mercado norte-americano foi o Grupo Gerdau, uma produtora de aço de administração familiar sediada no Estado do Rio Grande do Sul, na região Sul do país.

A Gerdau, que começou como uma fábrica de pregos em 1901 e atualmente é a principal produtora do Brasil de aço longo, fez sua estréia no Hemisfério Norte em 1989, quando comprou a Courtice Steel de Ontário. Uma década depois, o grupo entrou nos Estados Unidos, com a aquisição da Ameristeel, uma empresa de aço com problemas financeiros com sede na Flórida.

A Gerdau tem agressivamente buscado recentemente ampliar sua presença nos Estados Unidos. No mês passado ela concluiu a aquisição da North Star Steel, com sede em Minnesota, que comprou da Cargill Inc. por US$ 266 milhões, adicionando quatro miniusinas de aço longo e três usinas de processamento de fio-máquina em cinco Estados.

E no final de outubro, ela anunciou planos para compra da Gate City Steel e da RJ Rebar, com sede em Indianápolis e juntas detentoras de sete operações de vergalhões de aço em Alabama, Illinois, Indiana e Ohio. Ao todo, a Gerdau Ameristeel Corp., com sede em Toronto, agora conta com 14 usinas no Canadá e nos Estados Unidos, e é a quarta maior produtora de aço da América do Norte.

Para a Gerdau, que também possui unidades na Argentina, Chile e Uruguai, expandir para fora do Brasil foi uma forma de continuar crescendo e ao mesmo tempo contornar as restrições comerciais à importação de aço, especialmente nos Estados Unidos.

"Nós sempre fomos grandes exportadores aqui no Brasil", disse Jorge Gerdau Johannpeter, o presidente do grupo. "Mas o mercado americano tinha restrições."

"Assim, para atingirmos nosso objetivo de nos tornarmos uma grande força na indústria mundial de aço", ele disse, "nós decidimos que tínhamos que nos concentrar mais nos Estados Unidos".

Aço e suco

A Companhia Siderúrgica Nacional, uma produtora de aço plano com sede no Rio de Janeiro, também se voltou para o mercado de aço norte-americano, comprando a Heartland Steel de Terre Haute, Indiana, em 2001. E a Companhia Vale do Rio Doce, a gigante brasileira de mineração conhecida como CVRD, tem uma participação de 50% na California Steel Industries, a maior produtora de aço plano-longo no Oeste dos Estados Unidos.

No mês passado, a CVRD, a maior produtora e exportadora mundial de minério de ferro, um ingrediente crucial do aço, estava ocupada negando as notícias de que estava negociando a compra da Noranda, um grande grupo de mineração diversificada com sede em Toronto, que está à venda há algum tempo.

Tal especulação terminou enquanto os canadenses negociavam exclusivamente com a China Minmetals Corp., mas ressurgiu depois que a Noranda disse em meados de novembro que estava aberta a novas ofertas.

A CVRD não fez segredo de seu desejo de continuar expandindo no exterior. "Ter operações no exterior é uma necessidade absoluta para nosso setor", disse Fábio Barbosa, diretor-financeiro-chefe da CVRD, acrescentando que "se houver oportunidades lá fora que se encaixem em nossa estratégia de crescimento e gerem valor para nossos acionistas, nós as buscaremos".

As barreiras comerciais têm encorajado algumas das maiores empresas de suco de laranja do Brasil a comprar fábricas de processamento nos Estados Unidos, uma medida que lhes permite contornar pesadas sobretaxas de importação sobre o suco de laranja estrangeiro.

Em 1996, a Sucocitrico Cutrale, a maior produtora de cítricos e processadora de sucos do Brasil, adquiriu uma fábrica em Auburndale, Flórida, da divisão Minute Maid da Coca-Cola. Um ano depois, outra empresa brasileira de suco, a Citrosuco Paulista, comprou uma fábrica em Lake Wales, Flórida. Estas empresas agora controlam suficientemente a indústria de processamento da Flórida para influenciar os preços do setor de sucos e concentrados.

Embraer

Outro tipo de restrição levou à recente decisão da Empresa Brasileira de Aeronáutica, a fabricante brasileira de aeronaves conhecida como Embraer, de construir uma fábrica em solo americano. Para poder disputar os lucrativos contratos do Pentágono e da segurança interna dos Estados Unidos, a Embraer começou em agosto a converter uma base militar fechada em Jacksonville, Flórida, em uma operação de montagem de aeronaves.

A empresa já faz parte da equipe liderada pela Lockheed Martin Corp. que venceu o contrato de US$ 879 milhões do Pentágono, no verão passado, para aviões de vigilância do Exército dos Estados Unidos.

Dentro da parceria com a Lockheed, a Embraer usará a fábrica de Jacksonville para construir a aeronave que será convertida em aviões de vigilância de acordo com o programa Sensor Aéreo Comum do Exército.

A Embraer disse esperar que a fábrica também consiga atrair contratos militares especializados e de segurança interna, como patrulha marítima e de fronteira.

"O fato de sermos considerados um fornecedor de valor para as forças armadas americanas", disse Maurício Botelho, o executivo-chefe da Embraer, "abrirá muitas outras portas para nós". Empresas do país abandonam a tradição de permanecer em casa George El Khouri Andolfato

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