UOL Notícias Internacional
 

10/12/2004

Inteligência dos EUA perde para homens-bomba

The New York Times
Thomas L. Friedman

Em Nova York
NYT Image

Colunista Thomas Friedman
Pelo que posso inferir do novo organograma adotado na última quarta (08/12) pelo Congresso para a inteligência dos EUA, trata-se de uma combinação terrível de títulos e funções no topo, sem determinações claras de autoridade para as pessoas na base.

Algo que aprendi em 25 anos de imprensa (que é simplesmente uma outra forma de coleta de inteligência) é o seguinte: toda vez que você adicionar uma nova camada de editores acima dos repórteres, não se livre da antiga camada de editores, ou ficará em apuros. Haverá menos inteligência.

A maneira certa de aprimorar a atividade de inteligência nos Estados Unidos é colocar em campo pessoas que falem as línguas das quais necessitamos e que sejam capazes de pensar de forma não convencional. E se isso parece ser de uma obviedade enorme para você, realmente o é.

Mas é precisamente a carência desse tipo de gente o que, para mim, explica o maior fracasso da inteligência dos Estados Unidos no Iraque --um fracasso pelo qual estamos pagando caro neste exato momento. Nós não invadimos o Iraque cedo demais. Na verdade, invadimos o país com dez anos de atraso.

Deixe-me explicar: o maior fracasso de inteligência no Iraque não foi a ausência das armas de destruição em massa que acreditávamos que estavam lá, mas não estavam. Foram as PDMs que achávamos não estarem lá, mas que estavam. No meu vocabulário, PDMs quer dizer "pessoas de destruição em massa". E havia muito mais desse tipo de gente no Iraque do que qualquer um de nós supôs.

O fracasso da inteligência dos Estados Unidos ao não entender o que acontecia na sociedade iraquiana durante o período de mais de uma década de sanções da Organização das Nações Unidas (ONU) que precedeu a nossa invasão explica muitos dos problemas que encontramos no Iraque pós-Saddam.

As sanções da ONU pulverizaram a sociedade iraquiana --uma sociedade já castigada por oito anos da Guerra Irã-Iraque, pela guerra resultante da invasão do Kuait, e por cerca de 30 anos da tirania de Saddam Hussein.

Enquanto o saddamismo e as sanções debilitavam o povo iraquiano durante os anos 90, muita gente de talento deixou o país. Antes da guerra, a equipe de Bush dizia a quem quisesse ouvir que o Iraque possuía a elite mais secular do mundo árabe. E isso era verdade. O único problema foi que, na década de 90, muitos integrantes dessa elite se mudaram para Amã, Damasco, Beirute, Abu Dhabi, Bahrein e Cairo, onde trabalharam como professores, mestres de música e engenheiros.

Enquanto isso, no Iraque, aqueles que não tinham acesso aos privilégios proporcionados pelo Partido Baath ficavam cada vez mais marginalizados.

Vários jovens iraquianos, incapazes de se relacionar com o mundo externo e de conseguir empregos no seu país, se voltaram para a religião. Saddam encorajou essa tendência com um programa de construção de mesquitas. Ao se cercar de uma aura islâmica, Saddam também esperava fortalecer a sua legitimidade em desvanecimento.

Assim a influência religiosa wahhabi penetrou nas áreas sunitas vinda da Arábia Saudita, enquanto a influência religiosa iraniana fluía para as regiões xiitas.

Esses jovens iraquianos mascarados que vemos em vídeos da Al Jazira, brandindo armas e posando de pé atrás de algum estrangeiro cuja cabeça estão prestes a cortar, são produto da última década de saddamismo e sanções. Esses jovens tinham dez anos quando tiveram início as sanções da ONU. Eles são os cogumelos que Saddam e as sanções cultivaram na escuridão. A equipe de Bush não tinha indicações de que eles estavam lá.

Esses jovens sunitas iraquianos deslocados, desempregados e humilhados são hoje o nosso maior problema. Está claro que alguns se tornaram homens-bomba. Não dá para dizer que porcentagem, porque, ao contrário dos palestinos, os homens-bomba iraquianos sequer se importam em nos dizer seus nomes ou de gravar um vídeo de despedida para a mãe. Eles não só estão prontos para se suicidar quando houver necessidade, mas também estão dispostos a fazê-lo anonimamente. Isso evidencia ou um nível muito alto de compromisso ou psicose. Ou ambos.

Eu calcularia que as tropas norte-americanas já foram atingidas por mais de 200 desses mísseis humanos, e ainda não sabemos ao certo como eles são recrutados e enviados para suas missões. Creio que estamos nos deparando com uma rede clandestina bruta de fornecimento de suicidas --uma combinação mutante de Wal-Mart e wahhabismo.

Os seus organizadores parecem se comunicar pessoalmente ou via Internet para recrutarem homens-bomba do Iraque e do mundo islâmico. Esses homens-bomba são despachados através da rede de fornecimento para os fabricantes de bombas na zona de conflito, que os equipam com detonadores e explosivos e os enviam para ações táticas contra alvos norte-americanos e iraquianos.

E tal ação não é aleatória. Esses atentados são realizados nos momentos em que causem maior impacto. Isso significa que os insurgentes estão bastante confiantes quanto ao fornecimento de homens-bomba. É exatamente como a rede de fornecimento da Wal-Mart: você compra um produto em uma Wal-Mart de Arkansas, e um outro é imediatamente fabricado na China. No Iraque, um homem-bomba é enviado para uma missão em Bagdá, e um outro é imediatamente mobilizado em Mosul ou Riad.

Quando contarmos com indivíduos na comunidade de inteligência dos Estados Unidos que sejam capazes de explicar como funciona esse fluxograma organizacional, me sentirei mais seguro. CIA mostra não ser capaz de neutralizar rede de terroristas suicidas Danilo Fonseca

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