UOL Notícias Internacional
 

12/12/2004

Interior do Brasil vira o "celeiro" do mundo

The New York Times
Larry Rohter

De Lucas do Rio Verde, Brasil
Quase da noite para o dia, a América do Sul pegou o mundo em uma mudança histórica na produção de alimentos, que está transformando o interior quase inexplorado do continente no novo celeiro do mundo.

Um dos últimos locais do planeta onde ainda existem grandes áreas disponíveis para agricultura, a região, liderada pelo Brasil, tem visto uma explosão das exportações de produtos agrícolas na última década. O crescimento tem sido alimentado por uma combinação de políticas econômicas pró-mercado e avanços na agronomia, que transformaram terras tropicais inutilizáveis em terras produtivas e aumentaram os níveis de produtividade além daqueles dos Estados Unidos e Europa, desafiando o domínio tradicional destes do mercado global de produtos agrícolas.

NYT
Lavoura de soja em Lucas do Rio Verde
Em algum ponto na próxima década, o Brasil, que o secretário de Estado, Colin Powell, descreveu como "uma superpotência agrícola" durante uma visita em outubro, espera ultrapassar os Estados Unidos como maior produtor agrícola do mundo. Mas a tendência é bem mais ampla e pode ser sentida também em partes da Argentina, Bolívia, Paraguai e Uruguai, com um profundo impacto na economia e no meio-ambiente da região.

"Há uma revolução silenciosa ocorrendo no interior" desde os anos 90, disse o ministro da Agricultura do Brasil, Roberto Rodrigues, em uma entrevista em Brasília, a capital do país. Os últimos quatro ou cinco anos em particular, ele disse, foram "caracterizados por um crescimento espetacular e um enorme aumento na demanda" no exterior para gêneros alimentícios, que deram ao Brasil "a capacidade de competir com qualquer um".

O impacto global tem sido poderoso. Em junho, os Estados Unidos importaram mais produtos agrícolas do que exportaram, uma maior evidência da erosão de sua posição. Alerta ao desafio, a Iowa Farm Bureau Federation até mesmo promoveu uma palestra para seus membros chamada "O Brasil pode lhe dar azia?" A resposta é um sim .

A concorrência é personificada em produtores como Otaviano Pivetta, 45 anos, e Helmute Lawisch, 39 anos. Há menos de 20 anos, os dois amigos se revezaram dirigindo 2.400 quilômetros por estradas cheias de buracos e ondulações desde suas casas no extremo sul do país para ocupar seu espaço nesta região, na época tomada principalmente por selva, com escassa oferta de eletricidade, saneamento básico ou outros serviços públicos.

Em retrospecto, está claro que eles estavam na vanguarda de uma transformação fundamental da agricultura global. Hoje, as terras cultivadas se estendem até o horizonte. Com um clima que varia pouco ao longo de todo o ano, não é incomum terem duas ou até mesmo três colheitas por ano e verem ceifeiras-debulhadoras limpando campos enquanto plantadores semeiam o campo atrás delas.

Os dois homens agora estão entre os produtores mais bem-sucedidos da região, e Pivetta já foi eleito duas vezes prefeito de Lucas do Rio Verde. Cada um cultiva mais de 40 mil hectares, enviando soja, algodão e carne de porco para mercados tão distantes quanto a China, Rússia e Paquistão. Com a estação de plantio da primavera no Hemisfério Sul agora concluída, os dois fazendeiros e vários outros como eles aqui no Estado do Mato Grosso estão aguardando outro ano de safras colossais.

"Com o grande clima e solo fértil que temos aqui, não posso imaginar outro lugar que tenha o tipo de produtividade que temos", disse Pivetta, cuja família agora administra meia dúzia de fazendas aqui. "Nem no Brasil nem em qualquer outro lugar você vai encontrar duas safras por ano produzindo três toneladas de grãos por meio hectare."

A 'âncora verde' do Brasil

De fato, a agricultura agora é um negócio de US$ 150 bilhões por ano no Brasil, representando mais de 40% das exportações do país e criando o que os brasileiros chamam de "âncora verde" para sua economia.

Já o maior exportador do mundo de frango, suco de laranja, açúcar, café e tabaco, segundo estatísticas do Ministério da Agricultura, o Brasil espera em breve adicionar a soja à lista, dependendo do que acontecer neste mercado volátil.

Com um rebanho alimentado no pasto de 175 milhões de cabeças de gado, o maior do mundo, o país ultrapassou os Estados Unidos como maior exportador de carne bovina do mundo no ano passado. Durante os primeiros nove meses de 2004, as vendas de carne bovina brasileira no exterior cresceram 77% em relação ao mesmo período do ano passado, levando o governo a prever uma receita de US$ 2,5 bilhões com as exportações de carne bovina neste ano.

No geral, a prosperidade agrícola, auxiliada em parte pelo mal da vaca louca na Europa e a gripe de aves na Ásia, provavelmente dará ao Brasil um superávit comercial recorde de mais de US$ 30 bilhões.

As vantagens do Brasil começam com a disponibilidade de grande quantidade de terras baratas, especialmente aqui neste região de savana tropical bem drenada conhecida como cerrado. Maior do que a região americana de cultivo de grãos, mas considerada inútil para a agricultura até cerca de um quarto de século atrás, o cerrado cruza o coração do Brasil, e sua vastidão permite economias de escala que causam inveja a produtores de outros lugares.

"O que está realmente promovendo esta revolução é que o Brasil descobriu como usar solos tropicais e de savana que sempre foram considerados pobres", disse G. Edward Schuh, diretor do Centro para Política Econômica Internacional da Universidade de Minnesota. "Eles aprenderam que com uma aplicação modesta de cal e fósforo eles podiam quadruplicar ou quintuplicar sua produção, não apenas de soja mas também de milho, algodão e outras culturas."

A descoberta de como enriquecer o solo e torná-lo altamente produtivo veio de pesquisas da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária, uma agência governamental conhecida como Embrapa. Mas os maiores sucessos da agência foram na modificação de culturas para vingarem nestes solos alterados.

Até recentemente, por exemplo, achava-se que a soja não se desenvolveria em solos e climas tropicais. Mas os pesquisadores da Embrapa e de institutos estatais e privados semelhantes desenvolveram mais de 40 variedades de soja especialmente adaptadas para o cerrado. A soja agora representa quase metade das exportações agrícolas do Brasil e é o principal produto da região.

Os pesquisadores da Embrapa também desenvolveram linhagens de gado para os trópicos, usando uma variedade originária da Índia, assim como um "porco tropical" que apresenta menos gordura e colesterol do que seu par americano e que produz mais pernil e lombo. Talvez mais surpreendente, os brasileiros também estão trabalhando em variedades de trigo tropical.

Desde 2000, a produção anual de trigo do Brasil tem quase quadruplicado, para seis milhões de toneladas.

"Um dos principais motivos para acreditarmos que o Brasil tem chances ainda maiores de prosperar ainda mais é por contar com uma base científica muito sólida", disse Daniel Lederman, um economista do Banco Mundial especializado em agricultura.

Ajuda do governo

Mudanças nas políticas econômicas também promoveram o boom aqui. No início dos anos 90, por exemplo, o Brasil suspendeu as restrições às importações que estavam em vigor há muito tempo, levando a um aumento da compra de tratores, ceifeiras-debulhadoras, fertilizantes, pesticidas e sementes.

Outro salto nas exportações ocorreu em 1999, quando o governo desvalorizou a moeda e permitiu que o real brasileiro, que vinha mantendo uma quase paridade com o dólar, flutuasse no mercado de câmbio. Hoje, o dólar vale quase três reais, o que significa que a receita dos produtores agrícolas quase triplicou.

A prosperidade brasileira foi saudade pelas principais empresas de comércio agrícola internacionais, que foram rápidas em tirar proveito das novas oportunidades. Nesta cidade de 30 mil habitantes, as empresas Archer Daniels Midland, Bunge e Cargill não apenas construíram depósitos e silos imensos ao longo da estrada principal, mas também forneceram crédito para os produtores em uma escala muito além do fornecido pelo governo brasileiro.

"É um bom negócio para elas, mas temos que admitir que devemos muito às empresas de comércio", disse Lawisch, cuja família, modestos empresários no Estado do Rio Grande do Sul, se mudou para cá. "Quando nós precisamos deles, eles nos apoiaram, e agora que estamos prosperando, nosso relacionamento comercial continua se expandindo a cada ano."

Para conter os avanços sul-americanos, os Estados Unidos e a Europa aumentaram os subsídios aos seus produtores sitiados. Mas em um par de decisões históricas, a Organização Mundial de Comércio recentemente julgou ilegais os subsídios ao algodão e açúcar e determinou que devem ser eliminados gradualmente.

O governo Bush está apelando da decisão do algodão, mas é amplamente esperado que perca, e muitos economistas dizem que o princípio poderá ser aplicado a outras culturas.

Tudo isto claramente terá um impacto crescente na agricultura dos Estados Unidos. Os especialistas dizem que algumas áreas que não são competitivas com a América do Sul terão que mudar de cultura, enquanto outras enfrentarão pressão para até mesmo abandonar a agricultura.

Alguns produtores americanos e europeus já o fizeram, e estão começando a comprar terras aqui. Wolfgang Hudepohl, um corretor imobiliário em Cuiabá, a capital do Estado de Mato Grosso, estima que já vendeu 60 fazendas para estrangeiros nos últimos anos. "Os estrangeiros gostam não apenas dos preços baratos, mas também dos baixos custos de produção e o fato de não estarem atados por regulamentações", disse ele.

Nos limites da fronteira agrícola, em Estados como Maranhão e Piauí, a centenas de quilômetros ao nordeste daqui, as terras ainda são notavelmente baratas, apenas US$ 20 por acre em algumas áreas remotas. Mas em locais onde o boom já está a pleno vapor, como aqui, os preços das terras estão subindo rapidamente.

"Há sete anos, eu comprei 2.500 hectares e paguei US$ 125 mil", disse José Luiz Lorenzi, um fazendeiro e gerente da agência do Banco John Deere daqui, que é a mais movimentada no Brasil. "Recentemente eu recebi uma oferta de US$ 1,5 milhão pelas mesmas terras. Mas não estou vendendo. Eu quero comprar mais propriedades porque não há melhor investimento no mundo do que comprar terras no Mato Grosso."

Os custos do boom

O boom imobiliário não ocorre sem tensões sociais e outros custos, particularmente ao meio ambiente, à medida que a expansão das terras para cultivo e pastos tem acelerado o desmatamento da Amazônia. Normalmente, a floresta é derrubada primeiro para conversão em pasto e depois, à medida que a fronteira agrícola avança, em campos de soja e outras culturas.

Mas os produtores no cerrado, que fica a mais de 1.600 quilômetros da costa, dizem estar mais preocupados com a falta de estradas, ferrovias e hidrovias confiáveis, que encarecem os negócios. Tal situação, dizem os agricultores, está melhorando gradualmente, assim como a capacidade do Brasil de suportar os altos e baixos dos mercados agrícolas.

Após quase uma década de aumento de preços e lucros recordes, os preços da soja, por exemplo, caíram acentuadamente neste ano, conseqüência em grande parte da decisão de pisar no freio nas importações e cancelar os contratos existentes pela China, onde surgiu um novo mercado imenso para atender a mudança de dieta de uma crescente classe média.

No passado, quando a agricultura brasileira era dependente de uma única cultura, isto significaria desastre. Mas o Brasil fez um esforço bem-sucedido para diversificar suas exportações e reduziu sua vulnerabilidade a flutuações repentinas de preço de qualquer cultura específica. Nos anos 60, por exemplo, o café era responsável por 60% das exportações do Brasil. Hoje, o café é o sétimo da lista.

Como resultado, a tendência atual para os produtores agrícolas brasileiros é diversificar ainda mais. "Nós estamos entrando em uma fase na qual não apenas cultivaremos coisas, mas também as processaremos, as transformando em produtos finais", disse Eledir Pedro Techio, gerente de uma cooperativa local de crédito e produtor de soja e milho.

Também está claro que virão maiores ganhos na produção, graças tanto à expansão da fronteira agrícola quanto à maior produtividade.

As autoridades do governo estimam que mais 20 milhões de hectares, a maioria potencialmente tão fértil quanto as terras que estão sendo lavradas aqui agora, provavelmente começarão a produzir ao longo da próxima década.

"Não há como errar aqui", disse Lawisch. "Nós já somos campeões de produção, mas achamos que podemos fazer ainda melhor. Nossa meta é alimentar não apenas o Brasil, mas o mundo." George El Khouri Andolfato

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