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13/12/2004

Bolha de namoro pela Internet começa a vazar

The New York Times
Alex Williams

The New York Times
O namoro online parecia uma opção perfeita para Allison Gold, corretora de ações em Manhattan. Era um mercado vasto e excitante, que prosperava como seu trabalho em Wall Street, com oportunidades ilimitadas.

Gold -flexível, extrovertida, atlética, loura- parecia ter muito a ofertar. A julgar pelos perfis dos homens da Match.com, a demanda também não era pouca. Se quisesse um homem de olhos verdes -e ela bem que queria- era só digitar esse quesito no campo de busca junto com a altura, renda e CEP desejados.

"No início, você parece uma criança em uma loja de doces", disse Gold, que tem 46 anos. Centenas de homens responderam ao seu anúncio e todos pareciam maravilhosos. "Eram perfeitos", disse ela, referindo-se à descrição que os homens faziam de si mesmos em seus perfis. "Todos pareciam saídos de 'Onze Homens e Um Segredo'."

Depois, ela olhou de perto. Nos encontros, vários dos homens atléticos e bonitos com quem acreditava estar se correspondendo pareciam mais com George Costanza do que George Clooney. Alguns dos "solteiros" tinham esposas.

Sentindo-se cansada e "enganada", Gold deixou sua assinatura do Match.com expirar e procurou profissionais de encontros da vida real. "Acho que me cansei", disse ela. "É um pouco como o comunismo. No papel, é um sistema perfeito."

Aparentemente, muitos outros também concluíram que o deus do namoro online fracassou.

"Claramente, está atingindo um platô", disse Peter Zollman, que fundou Classified Intelligence, empresa de consultoria que se concentra em propaganda online. "Muitas pessoas hoje pensam: 'Já fiz isso. Encontrei todo mundo que era para encontrar. Vou tirar uma folga.'"

Depois de anos subindo como um foguete, há evidências de que a indústria de namoro online está descendo à Terra. Em 2002, a renda da indústria aumentou 73% sobre o ano anterior e, em 2003, em 77%. Neste ano, o crescimento esfriou, relativamente falando, para 19%, e a projeção para os próximos anos é de aumentos tépidos.

"Começou a desaceleração", disse Nate Elliott, analista da Júpiter Research, em Nova York.

Muitos que entraram no início -os que gostam de explorar as novidades- estão passando para a próxima novidade, que parece ser a moda antiga: serviços de encontros não-virtuais, arranjos feito por amigos, bares de solteiros.

O gasto com anúncios pessoais online caiu durante os dois primeiros trimestres do ano para menos de US$ 114 milhões (em torno de R$ 342 milhões) por trimestre, de US$ 117 milhões (aproximadamente R$ 351 milhões) no último trimestre de 2003, segundo a comScore Networks, firma de pesquisa em Reston, Virgínia. "Quase toda indústria nova passa por um período de rápido crescimento e expansão, seguido de alguns ajustes", explicou Daniel Hess, vice-presidente.

Essa indústria, aparentemente, está se ajustando muito: em setembro, a Match.com demitiu 10% da sua força de trabalho e substituiu seu diretor executivo. Suas vendas no terceiro trimestre subiram meros 3% em relação ao mesmo período no ano anterior e os lucros caíram 37%, queda atribuída a um aumento nos custos de marketing.

Um serviço online chamado True, que começou em Irving, Texas, em janeiro, já cortou 60% de seus 162 funcionários iniciais, mas agora voltou a contratar. Spring Street Networks, que opera as redes de namoro da Nerve e The Village Voice, também fez recentemente cortes significativos do pessoal. Am agosto, a MatchNet, empresa em Beverly Hills que opera JDate.com e AmericanSingles.com, desistiu dos planos de fazer uma oferta pública inicial.

Tudo isso não quer dizer que o ramo do namoro na Internet está ameaçado. Continuam surgindo sites específicos, que atendem a comunidades particulares, como solteiros idosos, lésbicas e obesos. Hoje, existem mais de 800 serviços de namoro online, de acordo com a Hitwise, empresa que acompanha as indústrias da Web.

Mas como toda revolução cultural pop emocionante -ou moda- a Net não parece mais ter a capacidade de reinventar os rituais de namoro. O momento passou.

"Há um fator de esgotamento que é quase inevitável no mundo do namoro online", disse Zollman, da Classified Intelligence. Em outras palavras, ou você encontra o amor eterno ou se cansa de procurar na Internet. Na Match.com, que diz ter 50 milhões de perfis em seu banco de dados, os assinantes ficam em média em torno de cinco meses, disse Joe Cohen, diretor de operações. (As assinaturas custam a partir de US$ 24,95 por mês, ou R$ 75). Ele enfatizou que cerca de 40% dos que saem eventualmente voltam.

"Tentamos uma série de coisas para mantê-los por mais tempo", disse ele. "Mas sabe, não queremos que fiquem muito tempo. Queremos que encontrem parceiros."

A medida mais clara da desilusão crescente com o namoro pela Internet talvez seja a expansão de serviços de namoro off-line, alguns deles criados para atender refugiados frustrados da Web.

"As pessoas acham que o namoro online prejudicou nosso negócio, quando, de fato, promoveu-o", disse Sherri Murphy, que opera um serviço de encontros chamado Elite Connections, na área de Los Angeles. Ela cobra de US$ 795 a US$ 5.000 (entre R$ 2.380 e R$ 15.000) aos solteiros para ajudá-los a encontrar parceiros entre clientes cuidadosamente escolhidos. "O namoro online é um trabalho", disse Murphy. "As pessoas vêm até nós para aliviar sua carga".

Como diz Renee Piane: "Online, não há conexão". Piane é presidente do Rapid Dating em Santa Mônica, Califórnia. Como diversas outras em torno do país, a empresa organiza festas de "encontros rápidos", nas quais os solteiros passam por uma série de mini-encontros de cinco minutos (parece um pouco a dança das cadeiras para adultos) para que possam ter uma idéia de quem gostariam de conhecer. "Online, não dá para dizer se há química", disse Piane. "Com os encontros rápidos, você sabe nos primeiros cinco minutos."

Piane cancelou sua assinatura da Match.com em maio de 2002, quando encontrou, em pessoa, um velho amigo de infância e se apaixonou. Ela reclama que seu perfil ainda está disponível na Match.com, dando falsas esperanças a centenas de homens. Só nas últimas semanas, ela disse ter apagado mais de 200 mensagens eletrônicas de solteiros em busca de um par.

A empresa de Ilana Eberson talvez seja o exemplo mais claro de um negócio criado em torno das pessoas cansadas dos serviços online. Ela trabalhou para o Jcupid.com, um serviço para judeus solteiros, e fundou uma empresa chamada Real Live People Party, há quatro meses.

"O conceito é: 'Desconecte-se da Internet, conecte-se com a vida real', porque todos concordam que a rosa do namoro online murchou", disse Eberson.

Não é que as alternativas de Eberson sejam revolucionárias. Até agora, sua empresa fez vários encontros de solteiros em bares de Nova York e está planejando um jogo no Metropolitan Museum of Art e um cruzeiro de solteiros. Mas ela alega que começou no momento certo. Depois de alguns anos de euforia com o mouse na mão, as pessoas estão desiludidas com o namoro online, disse ela.

No site da Web da sua empresa, www.reallivepeopleparty.com (sim, até serviços de namoro off-line têm sites da Web), ela lançou um concurso para a melhor história "do pior encontro on-line" que vai ganhar uma entrada franca para uma festa.

Marty Klein, terapeuta de casal e sexual em Palo Alto, Califórnia, disse: "O que sempre acontece com as novas tecnologias, desde computadores a telefones celulares, é que primeiro vem a vanguarda. Depois, a notícia se espalha. Sua avó compra um. No início, suas vantagens são sempre exageradas; depois, descobre-se que não é uma resposta para tudo, e algumas pessoas com expectativas pouco realistas culpam a tecnologia. Como tudo o mais, há uma curva cultural previsível."

Jill Horn, agente imobiliária que mora em Manhattan, disse que depois de se divorciar, em 2001, entrou para cinco sites pagos de namoro. Foram muitas mensagens eletrônicas, testes de personalidade e telefonemas.

"É muito esforço, e de fato não é diferente das pessoas que você encontra no mundo aí fora", disse ela. "Estou ficando desencantada. Algumas pessoas me ligam da Carolina do Norte ou do Novo México. Isso não vai funcionar."

"O argumento é que a tecnologia devia tornar sua vida mais fácil, mas não é necessariamente o caso", acrescentou.

Rosie Koul é especialista em tecnologia da informação da indústria de automóveis e mora em um subúrbio de Detroit. Com 34 anos, ela se divorciou há três anos e imediatamente procurou opções online, como a Kiss.com, como fizeram muitas de suas amigas solteiras.

Especialista em marketing, Koul manteve registros meticulosos de suas atividades online. No ano passado, em um período de nove semanas, seu perfil foi lido 4.212 vezes, a maior parte durante as quatro primeiras semanas após sua divulgação. Em certa altura, ela disse que se apaixonou por um homem, ou ao menos por seu perfil. Ele parecia inteligente e cativante. Ela ria com suas mensagens. Finalmente, concordaram em falar ao telefone.

Nada.

"Não sei o que aconteceu na troca, mas ele era chato", disse ela melancolicamente. "Até reli suas mensagens, para ter certeza de que estava falando com o cara certo."

"Será que quero passar tantas horas no meu PC ou quero sair e me divertir encontrando as pessoas?"

Agora, ela procurou uma empresa próxima, em Royal Oak, Michigan, chamada Table for Eight, que organiza jantares íntimos de quatro mulheres e quatro homens. Segundo Regina Stocco, presidente da empresa, cerca de 70% dos seus clientes tiveram experiências online.

Apesar de a maior parte das mulheres entrevistadas reclamarem que muitos homens simplesmente entram online para "escolher mulheres como se estivessem em vitrines" e só querem as mais bonitas, Zev Guttman, 28, agente hipotecário em Monsey, Nova York, disse que os homens que estão em desvantagem: em geral ainda é o homem que tem que tomar a iniciativa e a mulher fica escolhendo.

Como resultado, ele teve que mentir -digamos, sobre o fato de ser divorciado- ou enfrentar uma caixa de correio vazia todos os dias. "Se escrevo que sou divorciado, não tenho a menor chance de me conectar com ninguém", disse ele. "Se escrevo que sou solteiro, elas não se interessam porque acho que menti" quando descobrem a verdade.

"Vou voltar para os serviços de encontro ou aos amigos", disse ele.

Para cada Zev Guttman que desliga o computador, outro solitário esperançoso sem dúvida entra em seu lugar. Bill Tancer, pesquisador da Hitwise, em Redwood City, Califórnia, disse que muito do crescimento da indústria virá de grupos chegando atrasados no cenário dos solteiros online, como os idosos.

E a tecnologia sendo tecnologia, o namoro online continua mudando. Preso na fila dos correios? Agora você pode aproveitar o tempo caçando um parceiro para sua vida, ou ao menos dar uma rápida olhada em seu telefone celular, com o serviço móvel da Match.com. O serviço True on-line confirma o estado civil e antecedentes criminais das pessoas que se dizem solteiras em seus perfis. A Yahoo! Personals oferece oportunidade de incluir um vídeo clipe de 30 segundos nos perfis de cada um.

Isso é quase como encontrar a pessoa ao vivo.

De certa forma, o destino do namoro online provavelmente é parecido com o de bares para solteiros. Ainda há solteiros, ainda há solteiros em bares. Mas o "bar de solteiros", que causou tanto frisson, tornou-se uma relíquia de "À procura de Mr. Goodbar" dos anos 70. Tornou-se ordinário.

Essa é provavelmente a razão que o namoro online parece ter perdido sua excitação para a primeira geração. "Nos últimos cinco anos, tornou-se lugar comum", disse Sherrie Schneider, autora de "The Rules for Online Dating" (As regras para o namoro online, Pocket Books, 2002), que continua defendendo a prática. "Seu chefe, seu colega de trabalho. Toda mulher solteira no meu bairro está no Match.com. É como escovar os dentes."

E algumas vezes, tão excitante quanto. Deborah Weinberg

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