UOL Notícias Internacional
 

13/12/2004

Ditadura chilena tinha contas suspeitas nos EUA

The New York Times
Larry Rohter e

Timothy L. O'Brien

Em Santiago, Chile
O general Manuel Contreras é um homem religioso. Na parede da sua sala de jantar há uma imagem da Última Ceia em baixo-relevo, próxima a uma grossa Bíblia com capa de couro, que jaz sobre a mesa. Como ex-chefe da polícia secreta do general Augusto Pinochet no Chile, Contreras é também um indivíduo polêmico. Um prato grande, feito de prata, que lhe foi dado como presente por serviços de inteligência da Argentina, está no armário, a alguns metros da Bíblia.

A data inscrita no prato é junho de 1976, o mesmo mês e ano em que, segundo arquivos secretos norte-americanos cujo grau de sigilo expirou recentemente, Contreras e outros chefes de serviços de inteligência sul-americanos autorizaram o assassinato de líderes políticos exilados em uma conspiração conhecida como Operação Condor. Embora Contreras tenha negado a existência de tal plano em uma recente entrevista na sua casa nas montanhas que cercam Santiago, o complô está amplamente documentado nos arquivos de inteligência dos Estados Unidos.

As antigas atividades bancárias de Contreras também foram documentadas. Segundo um memorando do Departamento de Estado, de 1979, que deixou de ser sigiloso, ele abriu uma "conta bancária secreta" no Riggs Bank, em Washington, em 1966, quando era um jovem soldado atuando nos Estados Unidos. O relatório do Departamento de Estado observa que o saldo da conta de Contreras no Riggs era de US$ 26 mil dólares em meados dos anos 70. Na entrevista, ele disse estar certo que nunca teve mais de US$ 1.000 no Riggs e que era comum que membros de exército chileno que trabalhavam nos Estados Unidos tivessem contas pessoais nesse banco.

Mas Contreras não manifestou tanta certeza quanto aos fundos mantidos no Riggs pelo seu ex-patrão, Pinochet, cujas contas estão entre aquelas no centro de uma ampla investigação sobre lavagem de dinheiro no banco. As somas envolvidas - de até US$ 8 milhões, segundo uma avaliação do Senado norte-americano - deixaram até mesmo os mais ferrenhos aliados de Pinochet curiosos quanto à origem do dinheiro.

"O problema com Pinochet é que ele estava com muito dinheiro", disse Contreras. Segundo ele, os salários do exército são muito baixos, até mesmo para alguém de patente tão alta quanto Pinochet.

E ele acredita que essa riqueza foi acumulada honestamente? "Eu não sei", diz Contreras, balançando a cabeça. "Eu não sei".

Como homem forte do Chile ade 1973, quando derrubou Salvador Allende, um presidente civil eleito, até 1990, Pinochet liderou o expurgo de oponentes políticos e a criação de um Estado policial. Mas ele também lançou as bases daquele que se tornou a mais estável e promissora economia da América Latina - tudo isso, conforme alegavam os aliados do general, sem roubar um só centavo.

No entanto, nos Estados Unidos os investigadores do Senado divulgaram um volumoso relatório em julho que descrevia em minúcias as contas multimilionárias que Pinochet e a sua mulher, Lucia, mantinham no Riggs. Os fundos eram escamoteados e foram movimentados pelo mundo durante anos com a cooperação de funcionários do Riggs, dizem os investigadores do Senado, mesmo após o ex-ditador ser detido em Londres, em 1998, e mantido sob prisão domiciliar devido a acusações feitas por um tribunal espanhol de ter cometido abusos contra os direitos humanos e genocídio.

Órgãos reguladores multaram o Riggs em US$ 25 milhões no início deste ano por não ter respeitado as leis de sigilo bancário, e há uma investigação criminal dos bancos e seus executivos em andamento, na alçada do Departamento de Justiça. Nenhum funcionário do Riggs foi acusado de cometer irregularidades, embora um ex-executivo seja objeto de uma investigação judicial envolvendo uma possível fraude bancária.

No Chile, o fato de Pinochet ter escondido grandes quantias financeiras em outros países precipitou uma reavaliação do seu legado e gerou várias manchetes nos jornais locais questionando a sua integridade. O Congresso chileno criou uma comissão para determinar se as contas do Riggs contêm dinheiro roubado do governo, uma investigação que se desenrola paralelamente a um inquérito judicial e a uma outra investigação sobre evasão de divisas.

"Não nos iludamos", diz Juan Pablo Letelier, presidente da comissão congressual chilena e filho de Orlando Letelier, o ministro chileno das Relações Exteriores que foi assassinado em Washington como parte da Operação Condor. "Obviamente, nenhum funcionário público, nem mesmo um chefe de Estado e comandante-em-chefe do exército, consegue juntar tanta riqueza no seu país baseado apenas no seu salário".

Ninguém sabe exatamente como o general complementou o seu modesto salário - nunca superior a cerca de US$ 40 mil anuais como presidente - com contas em bancos estrangeiros nas quais estavam depositados milhões de dólares. O seu assessor econômico disse à imprensa chilena que a fortuna de Pinochet poderia chegar a até US$ 15 milhões e que toda ela foi acumulada legalmente, por meio de investimentos bem feitos.

Funcionários do governo chileno ridicularizaram abertamente essa explicação. As próprias declarações de renda de Pinochet, divulgadas nas últimas semanas nos Estados Unidos por investigadores do Senado norte-americano e aprovadas por um alto executivo do Riggs, indicam que ele recebeu grandes "comissões por serviços e viagens ao exterior" durante os seus quase 25 anos como governante e chefe militar do Chile.

As declarações se baseiam em documentos que o Riggs forneceu a reguladores federais. Eles mostram, por exemplo, que em 1976 Pinochet recebeu um pagamento de US$ 3 milhões de dólares devido a tarefas oficiais envolvendo os Estados Unidos. E, segundo os documentos, entre 1974 a 1997 Pinochet recebeu pagamentos totalizando pelo menos US$ 12,3 milhões relativos a atividades oficiais envolvendo China, Brasil, Argentina, Paraguai, Espanha e Reino Unido.

Esses documentos não deixam claro quais eram as fontes de alguns desses pagamentos. O gabinete presidencial chileno disse na semana passada que os documentos traziam o selo do Ministério da Defesa chileno, mas que o governo estava investigando a sua origem e autenticidade para verificar se foram falsificados por Pinochet.

Com base no exame de outros documentos, autoridades chilenas disseram em entrevistas que Pinochet, atualmente com 89 anos, participou de negócios imobiliários lucrativos e pode ter recebido parte da sua fortuna como resultado de uma onda de privatizações industriais formulada pela sua administração. Essas transações beneficiaram vários membros do governo Pinochet, as forças armadas chilenas, um núcleo de empresários que o apoiava entusiasticamente e um ex-genro.

As autoridades chilenas - assim como as da Rússia, Argentina e de outros países nos quais um grupo seleto se beneficiou desproporcionalmente da privatização de companhias estatais - estão investigando se Pinochet recebeu propinas de indivíduos envolvido no processo de privatizações.

"Ainda não descobrimos nenhuma prova de propinas e suborno, em parte porque os faltam documentos nos arquivos", diz Carlos Montes, presidente de um comitê congressual chileno que está revendo o processo de privatizações. "Mas a nossa hipótese é a mesma que vocês ouviram ser repetida exaustivamente no resto da sociedade chilena: aqueles que mais se beneficiaram com as privatizações foram generosos com o general Pinochet".

Quatorze anos após ter deixado de ser o ditador do país e seis após ceder o posto de comandante-em-chefe das forças armadas chilenas, Pinochet ainda inspira uma devoção fervorosa entre os seus apoiadores. Três ex-líderes militares que chegaram na casa de Contreras durante a entrevista afirmaram que qualquer dinheiro mantido por Pinochet no exterior seriam fundos de emergência, e não verbas roubadas.

Mas alguns outros aliados tiveram a fé no ex-ditador abalada. A mulher de Contreras reclamou, durante a entrevista, de que ela e suas amigas venderam jóias para ajudar na defesa jurídica de Pinochet no final dos anos 90, somente para descobrir por meio da investigação do Riggs que o general tinha muito mais dinheiro do que eles sabiam ou suspeitavam.

Contreras, que disse que a polícia secreta tinha os seus próprios fundos no Banco de Nova York nos anos 70, porque "a CIA nos disse que era um bom banco", afirmou que o seu ex-chefe era "apenas um homem" e que não se pode suspeitar que a totalidade dos integrantes das forças armadas chilenas cometeu ilegalidades financeiras simplesmente porque Pinochet está agora em uma situação delicada.

Segundo o memorando de 1979 do Departamento de Estado, as autoridades norte-americanas inicialmente examinaram a conta de Contreras no Riggs Bank como parte da investigação sobre o assassinato de Letelier e do seu assistente, Ronni Karpen Moffitt, cujo carro foi destruído por uma bomba quando se aproximava da Embaixada do Chile em Washington. Mas o memorando diz que é impossível determinar as fontes dos fundos de Contreras, já que funcionários do Riggs destruíram todos os registros relevantes. O Riggs não quis tecer comentários sobre as contas de Contreras.

Mais de duas décadas após essas contas bancárias terem sido escrutinadas, os fundos que o Riggs mantinha para Pinochet também têm se revelado muito difíceis de rastrear. O fato de ele manter esse dinheiro nas contas contrasta com aquilo que as forças armadas chilenas costumam dizer que é uma tradição de honestidade. Uma declaração financeira de 1989 entregue por Pinochet ao Riggs diz: "A honestidade dos servidores públicos corresponde a um dos princípios essenciais que se aplica a todas as instituições representadas pelos membros da junta".

Conforme afirmou o próprio Contreras, a fortuna do seu ex-chefe parece muito grande para um homem que passou toda a sua vida profissional como soldado e funcionário público. O assessor financeiro de Pinochet, Oscar Aitken, disse acreditar que a fortuna de US$ 15 milhões do seu cliente seja o resultado de uma administração financeira de alto nível. "As contas de Pinochet eram pessoalmente administradas por Joseph Allbritton", disse Aitken ao "El Mercurio", um jornal de Santiago, em setembro, referindo-se ao ex-diretor do Riggs.

Aitkens descreveu Allbriton, que continua sendo o principal acionista do Riggs, como "o maior admirador de Pinochet no universo bancário", e as investigações do Senado nos Estados Unidos revelaram vários exemplos de sua intervenção pessoal em favor do general no decorrer dos anos. "Allbritton prometeu - e cumpriu - índices de rendimento que dobraram o capital do general Pinochet a cada três anos", disse Aitken.

Um porta-voz do Riggs disse que Allbritton não gerenciou pessoalmente as contas de Pinochet e que os dois homens se encontraram pessoalmente em apenas duas ocasiões. "Os comentários publicados no jornal 'El Mercurio' são fundamentalmente errôneos e imprecisos sob o ponto de vista material", disse o porta-voz.

Os arquivos do Riggs indicam que a maior parte das contas do general tinha rendimentos de apenas 2% ou 3%. O advogado de Pinochet, porta-vozes da sua fundação sem fins lucrativos e membros individuais do corpo diretor da fundação se negaram a dar entrevistas ou não responderam a repetidas solicitações de entrevistas para falarem sobre as finanças do general.

"Se um funcionário público de alto escalão diz que quando tiver 65 anos terá acumulado algo entre US$ 10 milhões e US$ 15 milhões é preciso denunciá-lo às autoridades, já que a maior parte dessa cifra será fruto de roubo", afirmou recentemente a repórteres Nicolas Eyzaguire, ministro das Finanças do Chile. "Pinochet só teria obtido retornos financeiros tão altos se ele e os seus filhos fossem gênios financeiros, algo que é muito improvável". Pinochet poderá ter de responder por crimes contra a humanidade Danilo Fonseca

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