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13/12/2004

Taiwan perde terreno econômico para China

The New York Times
Keith Bradsher

The New York Times
Taipei, Taiwan - Quando o Lenovo Group da China concordou, na semana passada, em adquirir a divisão de computadores pessoais da IBM, em uma transação paga com dinheiro e com um grande bloco das ações da companhia chinesa, o choque foi ainda maior para o povo de Taiwan do que para o dos Estados Unidos.

Taiwan se orgulha de ser a "ilha do silício" do Extremo Oriente; afinal, foi lá que surgiram alguns dos maiores fabricantes mundiais de chips de computador, laptops e notebooks. Mas os negócios em Taiwan estão devagar quando se trata de consolidar marcas conhecidas para consumidores do varejo. E agora, com a poderosa divisão de computadores pessoais da IBM passando para as mãos da China continental, essas companhias poderão em breve encontrar mais dificuldade em superar os seus concorrentes chineses e em superar esses concorrentes como produtores que oferecem baixos custos.

"Quando olhamos para a China, para a velocidade com que eles avançam, vemos que o que está acontecendo é simplesmente incrível", diz Frank Huang, diretor da Powerchip Semiconductor Corporation, a terceira maior fabricante de chips de computadores de Taiwan. "Ninguém sabe se as coisas vão funcionar para o Lenovo, mas pelo menos eles têm a coragem de tentar".

Uma grande vantagem que o Lenovo e outras companhias chinesas possuem em relação às empresas de Taiwan nos dias de hoje é que várias corporações e investidores querem as suas ações: a China se tornou um dos maiores locais de investimentos do mundo, apesar do fraco desempenho das bolsas de valores chinesas nos últimos anos e da baixa qualidade da governança corporativa em várias companhias chinesas, conforme ficou recentemente evidenciado pela perda de US$ 550 milhões em transações derivadas por parte da China Aviation Oil (Singapore) Corporation.

Mas os eleitores de Taiwan podem ter tornado a sua ilha mais atraente como local para fazer negócios. Nas eleições legislativas do sábado, eles preservaram inesperadamente a apertada maioria de legisladores que se opõem às iniciativas repetidas por parte do presidente Chen Shui-bian para aumentar a independência política taiwanesa da China continental - medidas que Pequim chamou de provocativas e que disse que poderiam possivelmente levar a uma guerra.

Os mais ardentes partidos políticos pró e anti Pequim foram os que tiveram o pior desempenho nas urnas, já que os eleitores tenderam a apoiar candidatos e partidos mais moderados nas duas posições quanto à questão da independência; aqueles que adotaram posições mais pragmáticas, favoráveis à preservação do status quo com Pequim, e que em certos casos priorizaram o interesse econômico, ao invés de se concentrarem somente nas diferenças ideológicas.

"Os eleitores são favoráveis a uma abordagem conciliatória e estabilizadora por ambas as partes, de forma que os dois campos possam criar uma economia melhor e mais competitiva para Taiwan", diz Andrew Yang, secretário-geral do Conselho de Estudos Políticos Avançados, um grupo de pesquisas local sem fins lucrativos. "Isso com certeza vai encorajar mais investimentos".

No decorrer dos anos, enquanto muitos políticos daqui se concentravam na emergência de uma identidade taiwanesa distinta daquela da China, a economia da ilha se tornou cada vez mais vinculada à do vizinho continental.

Após década de dependência básica no mercado norte-americano para tirar os seus 23 milhões de habitantes da pobreza, Taiwan se vê agora exportando para a China o dobro do que exporta para os Estados Unidos. Os investimentos estrangeiros diretos em Taiwan caíram mais de 50% nos últimos cinco anos; o número atual corresponde a menos de um quinto da onda de investimentos que invade as novas fábricas, prédios de escritórios, shopping centers e outros projetos na China. No entanto, investidores estrangeiros aplicam somas substanciais no mercado de ações de Taiwan, em parte devido ao peso que este têm entre as principais bolsas do mundo.

Quase um milhão de moradores de Taiwan se mudaram para a China, a maioria gerentes e trabalhadores altamente qualificados com idades entre 30 e 50 anos, em uma fuga de cérebros tão grande que tanto as companhias multinacionais quanto aquelas com sede em Taiwan estão encontrando dificuldades para encontrar funcionários qualificados por aqui.

"Estamos enfrentando uma carência de mão-de-obra qualificada. No passado tínhamos uma oferta aparentemente ilimitada desse tipo de trabalho", explica Hu Sheng-cheng, presidente do poderoso Conselho de Planejamento Econômico e Desenvolvimento de Taiwan.

A dependência econômica na China poderá algum dia limitar as opções políticas de Taiwan, mas essa dependência também gerou ganhos consideráveis ultimamente. Fortalecida pelas exportações, a economia de Taiwan tem crescido vigorosamente há mais de dois anos, interrompida apenas por uma queda rápida e acentuada no segundo trimestre do ano passado devido a um surto da síndrome respiratória aguda severa, ou Sars. O desemprego vem caindo consistentemente nos últimos dois anos, tendo chegado a 4,3% em outubro.

Para sustentar essa expansão, as lideranças empresariais locais dizem que é melhor manterem vínculos comerciais e de transporte com a China. O Partido Progressista Democrático, que está no poder, diz que pode negociar vôos e transportes diretos de cargas entre a ilha e a China continental.

Mas enquanto os candidatos à legislatura ficam em sua maioria calados quanto às questões econômicas, os principais formuladores de políticas do governo do presidente Chen vêm discretamente removendo algumas barreiras comerciais. Eles vêm agindo dessa forma em parte para acatar as exigências feitas para que o país pudesse ingressar na Organização Mundial de Comércio (OMS) há três anos, e também para atrair investidores estrangeiros que desejam manter redes de negócios por toda a Ásia.

Taiwan baixou uma lei de direitos autorais nova e mais rigorosa neste verão, agradando as companhias estrangeiras de gravação e edição, e está prestes a adotar uma lei de proteção de segredos comerciais farmacêuticos - uma legislação defendida pela Merck e outras empresas do setor. A polícia de Taiwan tem reprimido os falsificadores; ela ajudou a Gillette, por exemplo, a controlar um fluxo de pilhas Duracell falsificadas da China continental.

Embora os fabricantes de computadores e de semicondutores tenham transferido várias operações de manufatura para a China continental e criado laboratórios de pesquisa substanciais no país vizinho, a pesquisa de ponta ainda tende a ser feita aqui e nos Estados Unidos, afirma Betty Lin, gerente de pesquisa em Taiwan da IDC, uma grande empresa de consultoria de tecnologia de informática.

Companhias domésticas, multinacionais e o restante da comunidade de negócios local têm se unido para exigir laços empresariais mais estreitos com a China e um fim ao protecionismo contra muitos produtos do vizinho comunista. Atuando através da Câmera de Comércio Norte-Americana local, a General Motors tem feito lobby pelo fim das restrições taiwanesas às autopeças importadas da China, e a Mars vem procurando trazer para cá chocolates fabricados no continente.

Atualmente Taiwan possui limites de importação sobre produtos da China em 15% das categorias de itens industriais e em 35% das categorias de alimentos e produtos agrícolas. Mas, segundo Huang Chih-peng, diretor-geral de comércio exterior de Taiwan, o país está revendo essas restrições e removendo gradualmente algumas delas.

À medida que fábricas foram transferidas para a China continental e substituídas por hospitais, bancos, seguradoras e outras empresas prestadoras de serviços, a desigualdade social aumentou naquela que era uma das sociedades asiáticas mais igualitárias após a reforma agrária promovida depois da Segunda Guerra Mundial. A relação entre os salários médios dos 20% mais ricos e os 20% mais pobres aumentou este ano para 6,07 para 1, após ficar em torno de 3 para 1 e 4 para 1 por vários anos.

Aposentados e indivíduos com qualificações limitadas em uma economia cada vez mais marcada pela alta tecnologia foram os mais atingidos, apesar dos recentes ganhos econômicos registrados pelo país. "Nos últimos cinco anos, a economia de Taiwan está descendo ladeira abaixo", afirma Wu Chong-shia, um engenheiro aposentado de 74 anos. Danilo Fonseca

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