UOL Notícias Internacional
 

14/12/2004

China reprime intelectuais que criticam o governo

The New York Times
Joseph Kahn*

Em Pequim
A polícia chinesa deteve nesta segunda-feira (13/12) três importantes intelectuais que vinham fazendo críticas ao governo, aparentemente aumentando uma campanha para silenciar a dissidência.

Yu Jie e Liu Xiaobo, figuras importantes da literatura, e Zhang Zuhua, um teórico político, foram detidos em batidas em suas casas durante a tarde, disseram parentes e amigos. Os parentes de Yu receberam um mandado que dizia que ele era suspeito de "participar de atividades prejudiciais ao Estado", disse sua esposa, Liu Min.

As detenções foram as mais recentes de uma série de prisões e pressões oficiais a jornalistas, escritores e eruditos que se manifestaram contra as políticas do governo ou escreveram artigos ou ensaios que as autoridades consideraram prejudiciais.

Desde que o presidente Hu Jintao substituiu Jiang Zemin como chefe militar da China em setembro, deixando Hu no comando do governo da China, do partido do governo e do exército, analistas políticos disseram que o ambiente político se tornou mais repressivo. A abertura para discutir assuntos sensíveis na mídia diminuiu, eles disseram, enquanto as autoridades parecem dispostas a punir as pessoas que violam as regras não escritas sobre os limites da liberdade de expressão.

A repressão pode sinalizar um esforço de Hu para dispersar a esperança de que ele promoveria um período de relativa abertura política assim que consolidasse o poder.

Em vez disso, há sinais de que ele está buscando administrar os assuntos de Estado de uma forma mais direta e com um estilo menos permissivo do que o associado a Jiang, que em seus últimos anos se concentrou em promover amplas mudanças econômicas ao mesmo tempo em que permitiu um certo grau de abertura na imprensa.

Analistas políticos disseram que Hu deixou claro que pretende restaurar a disciplina na cada vez mais variada imprensa ao mesmo tempo em que, pelo menos temporariamente, restringe o espaço disponível para importantes intelectuais expressarem livremente suas posições sobre política, economia e administração da mídia. Os editores dizem que o departamento de propaganda recebeu um novo mandato para microadministrar a cobertura diária da imprensa e para proibir cobertura de jornal e televisão de uma lista cada vez mais extensa de temas sensíveis, incluindo temas amplos como a crescente desigualdade social na China.

Yu e Liu têm sido críticos francos há muitos anos. Liu foi acusado de servir como organizador do movimento para a democracia chinesa de 1989, que terminou em 4 de junho daquele ano com uma violenta repressão aos dissidentes. Ele passou vários anos na prisão nos anos 90.

Três anos atrás, os dois fundaram uma divisão chinesa da organização PEN, que freqüentemente defende escritores, poetas e jornalistas perseguidos pelo governo.

Os dois escreveram neste outono uma série de artigos apoiando Shi Tao, um poeta e jornalista de Hunan. Shi foi preso recentemente por vazamento de segredos de Estado, aparentemente enquanto trabalhava como repórter em Xangai.

O grupo de escritores, que opera sem apoio oficial, promoveu uma cerimônia de premiação no final de outubro para homenagear Zhang Yihe, o autor de um livro de memórias sobre a campanha política repressiva "antidireitista" do final dos anos 50. O livro foi proibido, mas cópias piratas tiveram grande circulação.

Zhang Zuhua, o teórico político, é um associado de Yu e Liu que esteve presente na cerimônia de premiação, disseram amigos. Não se sabe o que qualquer um dos três fez para provocar sua detenção, ou se enfrentarão acusações formais.

Liu, a esposa de Yu, disse em uma breve conversa por telefone no início da noite de segunda-feira que seu prédio de apartamentos foi cercado por vários policiais uniformizados, sugerindo uma operação de grande escala. O telefone da casa dela foi cortado no meio da conversa com o repórter.

A detenção parece fazer parte de um padrão.

Jiao Guobiao, um professor da Universidade de Pequim que escreveu uma forte crítica ao departamento de propaganda neste ano, foi afastado de sua função recentemente.

Wang Guangze, um editor do estatal "21st Century Business Herald", foi despedido de seu emprego logo após seu retorno de um seminário nos Estados Unidos no mês passado. No seminário, ele discutiu como a Internet estava afetando a política na China.

Em setembro, as autoridades também prenderam Zhao Yan, um jornalista local bastante conhecido que trabalhava como funcionário da sucursal de The New York Times em Pequim, sob acusação de fornecer segredos de Estado para estrangeiros.

Alguns dos amigos de Zhao disseram acreditar que autoridades de segurança do Estado estão buscando associar Zhao a um artigo publicado no NYTimes, que noticiou uma oferta de Jiang para se aposentar, duas semanas antes da mudança de liderança ser anunciada.

"As medidas adotadas pelas autoridades não foram coincidência", disse um editor de um importante jornal estatal, que falou apenas sob a condição de não ser identificado. "Esta é uma nova era, mas no momento estamos andando para trás."

*Colaborou Chris Buckley. Liberdades civis não acompanham evolução no campo econômico George El Khouri Andolfato

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