UOL Notícias Internacional
 

14/12/2004

Expansão econômica consolida poder de Palocci

The New York Times
Todd Benson

Em Brasília
Folha Imagem

Palocci é considerado o "superministro" do Brasil
Antonio Palocci aprende rápido.

Palocci, médico do interior do Brasil e ex-trotskista, é o primeiro a admitir que sabia pouco sobre a complexidade da política fiscal quando se tornou ministro da Fazenda, em janeiro do ano passado. Agora, depois de um curso relâmpago de conversas com economistas acadêmicos e de Wall Street e quase dois anos no cargo, ele se vê chefiando a mais robusta expansão econômica do Brasil em uma década.

Graças a um boom nas exportações, o país está prestes registrar um superávit neste ano de quase US$ 33 bilhões (em torno de R$ 99 bilhões), o maior de sua história. A economia, enquanto isso, cresceu 6,1% no terceiro trimestre, em relação ao ano passado, o maior crescimento em oito anos. Dessa forma, a economia do Brasil, a maior da América do Sul, deverá ter seu melhor desempenho desde 1994, crescendo mais de 5,3% neste ano.

Graças ao brilho da economia, as figuras de esquerda do governo lentamente se consolidaram em torno da posição pragmática de Palocci. Com o tempo, Palocci moveu-se para o centro, vindo do grupo estudantil trotsquista, hoje defunto, chamado Liberdade e Luta.

A onda de boas notícias na economia solidificou a fama de Palocci como o ministro mais influente do governo Lula. Essa posição era anteriormente ocupada por José Dirceu, ministro da Casa Civil que fala duro e brigou com Palocci por causa da política econômica. A influência de Dirceu caiu quando um de seus principais assessores, Waldomiro Diniz, foi incriminado em um escândalo de suborno, em fevereiro.

Recente editorial o jornal "Folha de S.Paulo" dizia que Palocci "definitivamente" substituiu Dirceu como "homem forte" do governo, acrescentando que Dirceu "não é nem uma sombra do 'superministro' que antes parecia ser".

Palocci, 44, é afável e minimiza a importância do crescimento de seu poder no governo.

"O que está ganhando força no governo e no país é a convicção de que um bom comportamento fiscal traz resultados positivos para a economia", disse ele. "Se estou ou não ganhando influência não é muito importante."

O próprio Lula procurou reafirmar a posição de seu ministro das finanças, dizendo a um grupo de seus colegas do Partido dos Trabalhadores em recente discurso que estava "afinado" com Palocci e suas políticas como "a quinta sinfonia de Beethoven".

Em outro sinal da crescente da força de Palocci, no mês passado, o presidente demitiu Carlos Lessa, que presidia o BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) e repetidamente reclamara em público das políticas econômicas conservadoras do governo.

Grande parte da recuperação do Brasil foi alimentada pela economia global e pela alta nos preços de commodities, como a soja e o minério de ferro. No entanto, Palocci diz que o governo também está fazendo sua parte para estabelecer a base de crescimento de longo prazo.

"O ambiente externo certamente ajudou, mas o principal fator movendo a recuperação é o fato de que este governo decidiu atacar os pontos mais vulneráveis da economia", disse Palocci em uma entrevista.

"Se não tivéssemos decidido que era necessário ter mão firme para controlar a inflação e reduzir a dívida pública, provavelmente estaríamos lidando com um desastre econômico neste momento."

De fato, aderindo às políticas monetárias e fiscais austeras diante de forte oposição política de membros do Partido dos Trabalhadores, Palocci fez avanços significativos para limpar as finanças públicas notoriamente frágeis do Brasil.

Por sua vez, isso ajudou a banir temores em Wall Street de que o país poderia dar calote em sua dívida do setor público de US$ 345 bilhões (em torno de R$ 1 trilhão) e a conquistar a confiança dos mercados financeiros neste governo esquerdista.

"Para alguém que nem é economista, ele teve um papel admirável na supervisão da economia. Ele conseguiu manter uma postura pragmática e realista, apesar de estar cercado de tubarões", disse Bolívar Lamounier, cientista político e crítico do governo que dirige uma firma de consultoria em São Paulo chamada Augurium.

Assassinato

Palocci foi jogado no centro das atenções em circunstâncias trágicas, assumindo a administração da campanha de Lula em janeiro de 2002, depois do assassinato do prefeito de Santo André, Celso Daniel, e alto membro do Partido dos Trabalhadores que administrava a campanha e Lula até então.

Palocci, que entrou para a política como prefeito de Ribeirão Preto, cidade de porte médio do interior de São Paulo, rapidamente emergiu como pragmático e equilibrado e foi um dos responsáveis em levar a plataforma de campanha de Lula para o centro.

Hoje, Palocci e sua equipe de tecnocratas são considerados um dos poucos sucessos irrepreensíveis do governo Lula, que também marcou grandes vitórias em disputas comerciais.

Algumas iniciativas sociais, como um grande programa contra a fome, foram prejudicadas por falta de planejamento e excesso de burocracia. O governo, com a influência pessoal de Lula, conseguiu que o Congresso mal-humorado aprovasse boa parte do programa econômico de Palocci, inclusive a reforma do endividado sistema de previdência social e dos impostos bizantinos.

Além disso, as políticas de apertar o cinto de Palocci também estão começando a reduzir a dívida do governo, que deve cair de 58% do Produto Interno Bruto, no final de 2003, para 53%.

A queda é a primeira em uma década.

Os críticos dos dois lados do espectro político dizem que Palocci está administrando uma dose ainda mais dura de austeridade do que seu antecessor, Pedro Malan, economista conservador que foi alvo favorito do Partido dos Trabalhadores, quando este estava na oposição.

Apesar de o governo anterior concordar com o Fundo Monetário Internacional em produzir um superávit primário --que exclui os custos do serviço da dívida-- de 3,75% do PIB, Palocci já aumentou essa meta duas vezes, chegando a 4,5%, que o governo está prestes a alcançar.

Em um país com um dos maiores fossos de renda do mundo, os críticos dizem que o dinheiro seria mais bem gasto em programas sociais extremamente necessários para reduzir a pobreza e melhorar o sistema de educação do país. A infra-estrutura é outra área com necessidade urgente de verbas, já que ameaçam frear o crescimento econômico nos próximos anos.

"O governo não tem uma política de desenvolvimento, tem uma política de estabilização. Houve uma overdose de austeridade fiscal e monetária, que pode acabar prejudicando as chances de desenvolvimento de longo prazo do país", disse Paulo Nogueira Batista Jr., economista da Fundação Getulio Vargas, escola de negócios em São Paulo.

Palocci rebate as críticas, alegando que as vastas disparidades sociais não podem ser atacadas se as finanças do governo não estiverem em ordem.

"Nossa história mostra que, se você não implementa sérias políticas fiscais, a primeira vítima será o lado social", disse ele. "Se tivéssemos optado por um processo de ajuste mais modesto, então estaríamos aceitando uma recuperação econômica mais modesta. Prefiro um ajuste mais intenso para que o país possa apreciar uma recuperação mais duradoura."

Dólar

Com a economia de volta aos trilhos, Palocci diz que agora está defendendo mudanças para melhorar o ambiente empresarial do Brasil e diminuir o custo do crédito. Essas incluem uma reforma na lei de falência do país que facilite a quem empresta tomar as garantias e desmantelar obstáculos burocráticos surreais que os empresários são forçados a superar para abrir uma firma aqui.

Mesmo assim, o Brasil ainda não saiu da floresta econômica. Uma questão de preocupação recente, expressada por um número crescente de líderes empresariais e até pelo presidente, é que a apreciação da moeda brasileira, o real, poderia diminuir as exportações e frear a recuperação econômica do país.

Contra esse cenário, o Banco Central começou a comprar dólares novamente, ajudando a derrubar o real. Ecoando as autoridades do Banco Central, Palocci disse que o governo não estava tentando manter uma taxa de câmbio ideal, mas tirando vantagem das condições de mercado favoráveis para "reforçar nossas reservas em moeda estrangeira".

Alguns economistas dizem que o acaso teve um grande papel no sucesso de Palocci. A recuperação econômica global e a enorme demanda de recursos pela China deram um impulso às exportações brasileiras. Ainda não se sabe se Palocci seria capaz de direcionar o país em circunstâncias mais difíceis, eles dizem.

"Palocci ainda não foi testado sob situação de estresse. O vento não vai estar sempre soprando a seu favor. Então, agora eles têm que tirar vantagem da oportunidade que têm para fazer o que precisa ser feito", disse Arturo Porzecanski, diretor de mercados emergentes do ABN Amro em Nova York. Luiz Inácio Lula da Silva trouxe o médico para economia brasileira Deborah Weinberg

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h16

    -0,05
    3,173
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h23

    1,12
    65.403,25
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host