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15/12/2004

Governistas podem ter envenenado Yushchenko

The New York Times
Scott Shane

Em Washington
Com o aumento das especulações sobre quem está por trás do misterioso envenenamento por dioxina do candidato da oposição à Presidência da Ucrânia, Victor A. Yushchenko, o uso de venenos como instrumento sinistro de estadismo ingressou novamente na arena pública em uma ex-república soviética. Alguns ex-funcionários das agências russas de inteligência afirmam que essa prática nunca saiu de cena.

Por diversas ocasiões na década passada, as agências sucessoras do Comitê de Segurança de Estado (KGB na sigla em russo), na Rússia, e em outros países que eram parte da esfera de influência soviética foram suspeitas de terem administrado drogas ou venenos a críticos proeminentes. E embora as autoridades negassem repetidamente ter dado ordens para tais ações, os ex-oficiais de inteligência dizem acreditar que a maior parte das alegações é verossímil.

"A idéia no interior da nossa agência é que o veneno não passa de uma arma, assim como uma pistola", diz Alexander V. Litvinenko, que trabalhou para o KGB e o seu sucessor russo, o Serviço de Segurança Federal (FSB na sigla em russo), de 1988 a 1999, e que atualmente mora em Londres. "A questão não é encarada dessa maneira no Ocidente, mas na Rússia o veneno era visto simplesmente como um instrumento comum de assassinato".

Litvinenko disse que um laboratório secreto do KGB em Moscou, ainda operado pelo FSB, é especializado no estudo de venenos.

Ao analisar o que se sabe sobre o caso de Yushchenko, Oleg D. Kalugin, um ex-general do KGB que atualmente vive nas imediações de Washington, disse: "Isso parece ter sido certamente uma tentativa de removê-lo do cenário político".

Kalugin fala de uma experiência incomum e direta. Em 1978, ele transmitiu ordens para que agentes soviéticos fornecessem ao serviço secreto búlgaro um guarda-chuva especial que mais tarde foi utilizado para injetar uma dose letal do veneno ricina no dissidente búlgaro Georgi I. Markov, em Londres.

Tanto Litvinenko quanto Kalugin dizem acreditar que o envenenamento de Yushchenko teve o envolvimento da agência ucraniana de inteligência, que mantém laços estreitos com o FSB. Eles suspeitam que os serviços secretos russos também estejam envolvidos. Yushchenko ficou doente após uma refeição em 5 de setembro na companhia do chefe da agência ucraniana de inteligência, general Ihor P. Smeshko.

Autoridades russas e ucranianas negam veementemente o envolvimento no episódio. Em Washington, um porta-voz da Embaixada da Rússia, Yevgeny Khorishko, disse: "Não há evidências que embasem tais alegações".

Para defender a sua linha de raciocínio, Litvinenko e Kalugin descrevem alegados casos de envenenamento e dopagem ocorridos nos últimos anos, nos quais as suspeitas recaíram sobre autoridades russas.

Entre as vítimas estavam um banqueiro russo, Ivan Kivelidi, e a sua secretária, que morreram em 1995 após usarem um telefone aparentemente contaminado com veneno. Em 2002, um militante saudita conhecido como Khattab, que lutou ao lado dos rebeldes tchetchenos contra as forças russas, morreu após abrir uma carta envenenada.

E um ex-líder do Parlamento Russo, Ivan Rybkin, que desapareceu por vários dias em fevereiro durante a sua disputa política com o presidente Vladimir V. Putin, mais tarde acusou o FSB de tê-lo dopado e seqüestrado.

Em 1º de setembro, em um incidente que foi amplamente coberto pela mídia na Rússia e na Inglaterra, Anna Politkovskaya, uma proeminente jornalista russa que trabalha para o jornal "Novaya Gazeta", perdeu a consciência após tomar chá a bordo de um vôo para Beslan, no Cáucaso, onde militantes ocuparam uma escola. Escrevendo para o jornal "The Guardian", ela disse que, quando recuperou os sentidos em um hospital, uma enfermeira lhe sussurrou: "Minha querida, eles tentaram envenená-la".

É claro que há outras teorias sobre quem estaria por trás da doença de Yushchenko. Milton Leitenberg, especialista em armas biológicas russas da Universidade de Maryland, diz que "embora as agências de inteligência sejam a primeira possibilidade", Yushchenko pode ter sido envenenado por um inimigo político ou organização criminosa.

"De qualquer maneira, esse caso tem um significado enorme", diz Leitenberg. "Um veneno foi utilizado para tentar matar um provável futuro chefe de Estado".

No último sábado (11/12), médicos em Viena, Áustria, confirmaram que Yushchenko ingeriu dioxina, o que gerou um sério problema de pele que desfigurou a sua face. Segundo os médicos, o nível de dioxina no seu sangue estava mais de mil vezes acima do normal. Como resposta, o procurador-geral da Ucrânia, Svyatoslav Piskun, anunciou a reabertura de uma investigação criminal para apurar o caso de envenenamento.

Especialistas ocidentais dizem que a descoberta da dioxina praticamente prova que Yushchenko foi deliberadamente envenenado. Dioxina é o nome de uma classe de substâncias químicas produzidas por um subproduto da queima de refugos, da fabricação de pesticidas e de outros processos industriais.

Alastair Hay, professor de toxicologia ambiental da Universidade de Leeds, diz que a dioxina seria uma opção improvável se a intenção fosse matar. Mas se o desejo do envenenador era tirar Yushchenko do páreo ao produzir desfiguração facial extrema, o uso da dioxina poderia fazer sentido. "A dioxina é lipossolúvel, de forma que pode ser colocada em um meio gorduroso como, por exemplo, uma sopa", diz Hay.

Vil S. Mirzayanov, ex-dissidente russo que vive atualmente em Nova Jersey, diz que uma unidade secreta dentro de um instituto de química em Moscou estudou a dioxina por vários anos quando desenvolvia desfolhantes para as forças armadas.

Ele afirma nunca ter ouvido dizer que a dioxina tenha sido estudada como arma na ex-União Soviética, mas Paul M. Wax, vice-presidente da Faculdade Americana de Toxicologia Médica, conta que em uma conferência em 2002 em Volgogrado, cientistas russos lhe falaram que uma pesquisa do gênero fora conduzida.

Houve casos similares no mundo durante as últimas décadas. Autoridades sul-africanas foram acusadas de utilizarem vestes impregnadas com organofosforados para tentarem envenenar ativistas anti-apartheid. Em 1997, agentes israelenses injetaram um veneno no líder do Hamas, Khaled Meshal, na Jordânia, e mais tarde forneceram um antídoto devido à pressão internacional para salvar a vida do ativista.

Nas décadas de 50 e 60, um programa secreto do Exército dos Estados Unidos, que trabalhou em conjunto com a CIA, desenvolveu armas de assassinato projetadas para usarem toxinas com o objetivo de matar sem deixar traços.

Os planos da CIA para envenenar Patrice Lumumba, o primeiro-ministro do Congo, e Fidel Castro, de Cuba, falharam, mas foram mais tarde revelados por comissões de investigação do Congresso. Usar veneno como arma política é comum, afirmam ex-soviéticos Danilo Fonseca

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