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16/12/2004

Presidente Abraham Lincoln era gay, diz pesquisa

The New York Times
Dinitia Smith

Em Nova York
Abraham Lincoln foi um gay americano? O assunto da sexualidade do 16º presidente tem sido debatido por estudiosos há anos. Eles citam seu casamento problemático com Mary Todd e sua amizade na juventude com o amigo Joshua Speed, com quem compartilhou sua cama por quatro anos.

Agora, em um novo livro, C.A. Tripp também afirma que Lincoln teve um relacionamento homossexual com o capitão de seus guarda-costas, David V. Derickson, que compartilhava sua cama sempre que Mary Todd estava ausente.

Em "The Intimate World of Abraham Lincoln" ("O Mundo Íntimo de Abraham Lincoln"), que será publicado em janeiro de 2005, Tripp, um psicólogo, influente escritor gay e ex-pesquisador de sexo do dr. Alfred C. Kinsey, tenta resolver a questão da sexualidade de Lincoln de uma vez por todas.

O autor, que morreu em 2003, duas semanas após concluir o livro, sujeitou todas as palavras já escritas por e sobre Lincoln a uma análise minuciosa. Sua conclusão é de que um dos maiores presidentes dos Estados Unidos, o farol do Partido Republicano, era gay sim.

Ironicamente, os Republicanos de hoje fazem da restrição dos direitos dos homossexuais uma de suas principais bandeiras. Para muitos analistas, a vitória de Bush neste ano se deve em grande parte à mobilização do eleitorado conservador, que foi às urnas e votou maciçamente contra o casamento gay e a favor do Republicano Bush para a presidência.

Mas seu livro não encerra o debate. Durante os 10 anos de sua pesquisa, Tripp compartilhou suas conclusões com outros estudiosos. Muitos, incluindo o professor emérito de Harvard, David Herbert Donald, que é considerado o biógrafo definitivo de Lincoln, discordam dele. No ano passado, em seu livro "We Are Lincoln Men" ("Nós Somos Homens de Lincoln"), Donald mencionou a pesquisa de Tripp e contestou suas conclusões.

Tripp foi o autor de "The Homosexual Matrix" ("A Matriz Homossexual"), um livro de 1975 que contestava a noção freudiana de homossexualidade como uma desordem de personalidade. Neste novo livro, ele diz que os primeiros biógrafos de Lincoln, incluindo Carl Sandburg, sentiram a homossexualidade de Lincoln.

No prefácio da edição original em vários volumes de sua aclamada biografia de 1926, Sandburg escreveu: "Mês a mês em pilhas e fardos de fatos e lendas, eu encontrei companhias invisíveis que me surpreenderam. Talvez algumas poucas destas presenças se movam furtivamente e murmurem neste livro".

Sandburg também escreveu que Lincoln e Joshua Speed tinham "traços de alfazema e pontos macios como violetas de outono". Tripp disse que as referências à possível homossexualidade de Lincoln foram cortadas na versão resumida de 1954 da biografia. Tripp defende que outros escritores, incluindo Ida Tarbell e Margaret Leech, também encontraram evidência da homossexualidade de Lincoln mas tiveram medo de defini-lo como tal ou omitiram detalhes cruciais.

Tripp cita a extrema privacidade de Lincoln e os relatos daqueles que o conheciam bem. "Ele não gostava muito de garotas, ao que me parece", disse sua madrasta, Sarah Bush Lincoln, ao sócio de advocacia de Lincoln, William Herndon. Além disso, Lincoln tinha pavor do casamento com Mary Todd e certa vez rompeu o relacionamento. Eles tiveram quatro filhos.

Mas em "We Are Lincoln Men", Donald escreve que ninguém na época sugeriu que ele e Speed eram parceiros sexuais. Herndon, que às vezes dormia no quarto com eles, nunca mencionou um relacionamento sexual. Nos tempos da fronteira, escreveu Donald, o espaço era apertado e homens dividiam camas. E a correspondência entre Lincoln e Speed não era a de amantes, ele afirmou. Além disso, Lincoln citava abertamente o relacionamento deles, dizendo: "Eu dormi com Joshua por quatro anos". Se fossem amantes, escreveu Donald, Lincoln não mencionaria tão livremente.

Tripp mapeia os relacionamentos de Lincoln com outros homens, incluindo Billy Greene, com quem Lincoln supostamente compartilhou uma cama em New Salem, no Estado de Illinois. Herndon disse que Greene lhe disse que as coxas de Lincoln "eram tão perfeitas quanto as de um ser humano podiam ser".

Henry C. Whitney, um colega advogado de Lincoln, observou certa vez que Lincoln buscou ter com ele "maior intimidade e familiaridade".

E há a balada humorística jovem de Lincoln de 1829, "First Chronicles of Reuben", na qual ele se refere a um homem chamado Biley se casando com outro homem chamado Natty: "mas biley se casou com um rapaz/ as garotas ele tentou por toda parte/ mas com nenhuma chegou a um acordo/ tudo foi em vão e ele voltou para casa/ e desde então está casado com Natty".

Tripp tenta derrubar a opinião popular entre os estudiosos de que as depressões de Lincoln eram causadas pela morte de seu primeiro amor, Ann Rutledge. Ele escreve que na época em que ela supostamente estava envolvida com Lincoln, ela estava noiva de John McNamar e que seu nome não aparece em parte alguma nas cartas de Lincoln.

Donald também questiona a conclusão de que Lincoln teve um relacionamento sexual com Derickson, seu guarda-costas no retiro presidencial, o Soldier's Home, nos arredores de Washington.

Tripp escreve que a proximidade entre eles provocava comentários em Washington, e cita uma anotação de diário de 16 de novembro de 1862, de Virginia Woodbury Fox, esposa de Gustavus Fox, secretário assistente da Marinha. Ela reconta um relato de uma amiga: "Há um soldado Bucktail aqui dedicado ao presidente, viaja com ele, e quando a sra. L. não está em casa, dorme com ele. Que coisa!" Mas Donald escreve que "Que coisa!" significa que ela estava desprezando o rumor.

Tripp cita uma segunda descrição do relacionamento em uma história de 1895 do regimento de Derickson, o 150º de Voluntários da Pensilvânia, por Thomas Chamberlain, o comandante de Derickson:

"O capitão Derickson, em particular, progrediu tanto na confiança e estima do presidente que, na ausência da sra. Lincoln, ele freqüentemente passa a noite em seu chalé, dormindo na mesma cama com ele e --dizem-- fazendo uso dos camisões de dormir de sua Excelência!"

Quando Derickson estava para ser transferido, Lincoln mexeu os pauzinhos para mantê-lo. Mas Donald escreveu que se o relacionamento entre eles fosse romântico, eles não teriam se separado tão casualmente como quando Derickson finalmente partiu de Washington, em 1863.

Apesar das críticas de Donald, Tripp obteve apoio de outros estudiosos. Jean H. Baker, uma ex-estudante de Donald e autora de "Mary Todd Lincoln: a Biography" (W.W Norton, 1987), escreveu a introdução do livro. Ela disse que a homossexualidade de Lincoln explicaria seu relacionamento tempestuoso com Mary Todd, e "algumas de suas agonias e ansiedades em relação ao relacionamento deles".

"Algumas das irritações surgiram pelo fato de Lincoln ser tão distante", disse Baker em uma entrevista por telefone. "Antes eu considerava seu distanciamento provocado por sua atenção dedicada aos seus casos no tribunal, seus debates com Douglas. Agora vejo que há outra explicação."

"O tempo que estes homens continuaram dormindo na mesma cama sem precisar foi uma certa impropriedade", disse Baker.

A questão da sexualidade de Lincoln é complicada pelo fato de a palavra homossexual não ter sido impressa em inglês até 1892 e pela homossexualidade ser um conceito moderno.

Baker disse que a atenção do policiamento moral do século 19 era a masturbação, não a homossexualidade. "A masturbação era considerada mais perigosa", disse ela. "Para os homossexuais, havia uma nuvem sobre eles, mas raramente chovia." As pessoas, ela notou, "eram acostumadas a estas amizades entre homens".

Na sua pesquisa de Lincoln, Tripp criou um vasto banco de dados de cruzamento de materiais, agora disponível na Biblioteca Lincoln em Springfield, Illinois. Ele iniciou o livro trabalhando com o escritor Philip Nobile, mas eles se separaram. Nobile acusou Tripp de ter plagiado material escrito por ele e de ter fabricado evidências da homossexualidade de Lincoln.

"O livro de Tripp é uma fraude", disse Nobile em uma entrevista. Mas ele se recusou a dizer o que era fraudulento, porque está escrevendo seu próprio artigo a respeito.

Após Nobile ter feito suas acusações, a Free Press adiou a publicação. "Nós fizemos algumas pequenas mudanças", disse Adam Rothberg, um porta-voz da editora, "e estamos satisfeitos por estarmos publicando um livro que reflete as idéias de Tripp e é apoiado por sua pesquisa e crença". O manuscrito foi editado por Lewis Gannett, um amigo de Tripp.

Larry Kramer, o autor e ativista de Aids, disse que o livro de Tripp "mudará a história". "É um livro revolucionário porque o presidente mais importante na história dos Estados Unidos era gay", disse ele. "Talvez eles agora nos deixem em paz, todas aquelas pessoas no partido que ele fundou."

Michael B. Chesson, um professor da Universidade de Massachusetts, em Boston, e outro ex-estudante de Donald, escreveu um posfácio ao livro de Tripp apoiando sua tese. O livro é "enormemente importante para o entendimento da pessoa como um todo", disse ele em uma entrevista. Ele comparou as críticas às objeções iniciais à biografia de Thomas Jefferson de 1974, de autoria de Fawn Brodie, na qual ela alegou que Jefferson teve filhos com sua escrava Sally Hemings; estudos genéticos posteriores sugerem que eles tiveram pelo menos um filho juntos.

Encontrar a verdade é um dever sagrado para os historiadores, disse Chesson, acrescentando: "É nosso dever como estudiosos apresentar aos leitores material ignorado ou varrido para baixo do tapete pelos historiadores por não concordarem com ele".

Mas se Lincoln era gay, como isto afetou sua presidência?

Baker disse que seu status de pessoa fora do padrão explicaria sua independência e sua capacidade de assumir posições anti-establishment, como a edição da Proclamação da Emancipação. Como homossexual, ela disse, "ele estaria à margem da tradição".

"Ele está disposto a ser independente, em fazer o que é certo", disse ela. "Está investido em sua alma, em sua psique e em seu comportamento." Ele possuía "as pernas mais perfeitas", teria dito um suposto amante George El Khouri Andolfato

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