UOL Notícias Internacional
 

17/12/2004

Bin Laden faz elogios ao ataque na Arábia Saudita

The New York Times
Neil MacFarquhar

No Cairo, Egito
A gravação de uma voz que parece ser a de Osama bin Laden acusa os membros da dinastia que governa a terra dele, a Arábia Saudita, de serem "agentes dos infiéis" e louva o ataque da semana passada contra o consulado dos Estados Unidos em Jeddah.

A gravação se materializou nesta quinta-feira (16/12), mesmo dia em que Saad al-Faqih, um líder da oposição saudita baseado em Londres, convocou dezenas de milhares de conterrâneos para marcharem pelas ruas das duas principais cidades de seu país. O objetivo seria o de demonstrar a posição contrária à monarquia absolutista que governa a Arábia Saudita.

Embora seja improvável que qualquer manifestação possa ter atraído tenta gente por lá, uma operação de impacto realizada pelas tropas de segurança sauditas no centro da capital Riyad e em Jeddah, principal pólo comercial, evitaram que até mesmo pequenos grupos se formassem para protestos.

Especialistas nas operações da Al Qaeda acreditam que, nesse suposto dia de manifestações, o fundador da organização evidentemente quis chamar a atenção para o seu próprio desejo de derrubar o regime saudita, agora que o seu movimento se encontra esfacelado em pequenas células desconexas, após 18 meses de prisões generalizadas.

Nenhuma das mais ou menos 17 gravações anteriores focou tão especificamente sobre a situação no reino saudita. "Ele percebeu que havia todo esse calor interno na Arábia Saudita", disse Montasser Zayat, um advogado da cidade do Cairo que já esteve preso com Ayman Al-Zawahiri, um dos principais assessores de Bin Laden.

"Dessa forma ele quer que sua presença seja percebida na cena saudita, após tanto tempo de ausência".

Embora o governo Bush tenha falhado durante mais de três anos na missão de localizar Bin Laden, que supostamente está em algum ponto da fronteira do Paquistão com o Afeganistão, o líder da Al Qaeda aparentemente não tem dificuldades em se manter informado sobre os acontecimentos, nem de divulgar sua seqüência de ruminações.

Essa última mensagem foi divulgada por um web site islâmico, e sua referência aos ataques em Jeddah prova que é de origem bem recente.

Em Washington, o secretário de Estado Colin L. Powell disse que a fita aparentemente foi gravada por Bin Laden, mas acrescentou que a comunidade da inteligência americana ainda terá que confirmar essa autenticidade.

"Ele é um terrorista", disse Powell num breve comentário, dizendo que a fita é uma incitação ao crime. "É isso o que os terroristas fazem".

Na gravação, Bin Laden louva os cinco pistoleiros que atacaram o fortemente protegido consulado dos Estados Unidos no dia 6 de dezembro, matando cinco pessoas, entre seguranças locais e outros empregados. Quatro dos pistoleiros foram abatidos e o quinto foi gravemente ferido. Embora centenas de simpatizantes da Al Qaeda estejam presos no reino saudita, o atentado revelou que as pequenas células ainda têm capacidade de lançar ataques fatais.

"Pedimos a Deus que tenha piedade dos mujahedeen que atacaram o consulado americano", disse Bin Laden, zombando da idéia que os americanos tenham direito a qualquer proteção no reino saudita.

"Como eles querem ser abençoados com a segurança, quando espalham tanta destruição e morte entre nossa gente na Palestina e no Iraque?"

Nessa mensagem mais recente, endereçada especificamente aos "muçulmanos na terra das duas mesquitas sagradas", Bin Laden disse que as falhas da dinastia Al-Saud, que fizeram com que o povo se voltasse contra ela, foram bem além de seus lapsos morais.

"Não estamos falando sobre um líder que sofre de um pouco de depravação e de indulgência moral. Estamos falando de apostasia (renúncia à religião) e de submissão, como se fossem agentes dos infiéis", referindo-se à duradoura aliança entre os Al-Sauds e o governo de Washington.

O objetivo a longo prazo de Bin Laden, ao lançar sua organização violenta, é o de derrubar a dinastia que governa a Arábia Saudita e substituí-la por alguma espécie de califado islâmico.

Derrubar os governantes sauditas também era o objetivo dos prováveis manifestantes convocados por Saad al-Faqih, líder do Movimento para Reforma Islâmica na Arábia, baseado em Londres.

Todas as manifestações de rua são ilegais na Arábia Saudita, mas a última tentativa mais expressiva, em outubro de 2003, atraiu multidões, com centenas de pessoas detidas e cerca de trinta que ficaram presas por quase dois meses.

Nesta quinta, ocorreram versões conflitantes entre o governo e os organizadores sobre o que realmente aconteceu. Mas ficou claro que a maciça presença de tropas em Riyad e em Jeddah desestimulou qualquer protesto explícito.

Organizadores e testemunhas entrevistadas pelo telefone disseram que barreiras foram montadas nas principais vias de acesso aos dois locais, que chegaram a ser anunciados como pontos das manifestações. Os policiais identificavam todos os carros que tomavam a direção das regiões centrais das duas cidades.

Qualquer pessoa que descesse de um carro numa dessas regiões era imediatamente neutralizado pela polícia, geralmente com algemas. Não ficou claro quantas pessoas foram detidas, e a maioria supostamente foi solta depois de várias horas de detenção.

Testemunhas ouviram disparos de tiros no centro de Jeddah. Uma fonte do governo atribuiu os disparos a dois manifestantes que atiravam para o alto. Mas um homem, identificado pela rede de televisão Al-Jazeera como testemunha do protesto, disse que os tiros foram disparados por soldados contra manifestantes, que primeiro teriam se reunido para as orações do meio-dia.

Embora no reino saudita haja críticas generalizadas contra o governo, considerado repressivo e incompetente, tanto Bin Laden como o Movimento para a Reforma Islâmica na Arábia parecem ter frágil apoio para esses objetivos domésticos que estabeleceram.

"Eu acho que nada disso faz sentido", disse Mohammad A. Al-Zulfa, um historiador indicado para um Conselho de Consultas. "Eles esperam que os sauditas todos saiam de suas casas e apareçam nas ruas para derrubar o governo? Só mesmo na imaginação deles".

Esses extremistas religiosos e seus partidários se sentem ameaçados pela idéia de uma reforma, segundo Zulfa. A reforma inclui as eleições municipais marcadas para o início do ano que vem. Gravação atribuída ao líder da Al Qaeda é divulgada nesta quinta Marcelo Godoy

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