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17/12/2004

'Doze Homens ...' é seqüência esperta e divertida

The New York Times
Manohla Dargis

Crítica do NYTimes
  • Assista ao trailer do filme na TV UOL

    Num determinado momento do agradável e escancaradamente trivial "Doze Homens e Outro Segredo" (Oceans's Twelve), três golpistas, interpretados por Matt Damon, Don Cheadle e Scott Caan, começam a correr em direções diferentes para escaparem do engarrafamento. O filme tem estréia no Brasil prevista para o dia 24 de dezembro.

    As coisas não andam bem para esses adoráveis patifes, e agora a maior parte da turma foi parar no xadrez, inclusive um suave picareta responsável pelo título do filme, Danny Ocean, interpretado pelo devidamente sedutor George Clooney.

    Os bandidos procuram uma maneira de sair da prisão o que, se considerarmos a trama pouco elaborada e atmosfera reinante de auto-satisfação, pode ser uma carta na manga do diretor Steven Soderbergh.

    Como sabem todos que nos últimos dias se aproximaram de um aparelho de TV ou de uma banca de jornal, "Ocean's Twelve" é a estelar seqüência do sucesso de bilheteria "Ocean's Eleven", que, no Brasil, ganhou o título de "Onze Homens e um Segredo".

    Esse primeiro era baseado num filme chatinho dos anos 60, produzido por um grande estúdio. No "Onze homens..." dos anos sessenta, a turma do "Rat Pack", ratazanas de smoking lideradas pelo rato-mor Frank Sinatra, evoluía pelos tapetes de Las Vegas num filme cuja classe e perenidade poderiam ser comparadas às de um bikini fio-dental de lamê.

    Com o diretor setuagenário Lewis Milestone estrategicamente posto de lado, a verdadeira turma de amigos dos Rat Pack filmava de dia e se esbaldava nas noites do Cassino Sands. "Dizem que interpretar esse filme é trabalho duro", conta o biógrafo Nick Tosches sobre uma declaração do "ratazana" Dean Martin sobre o filme. "Trabalho? Só se for para o meu pau".

    Piadas de bastidores à parte, "Doze Homens e um Segredo" contém alguma linguagem de baixo calão. Mas não é nada que uma criança de 12 anos ainda não tenha ouvido.

    O filme atual tem desempenhos meio preguiçosos e malandros, com Clooney e o resto da turma de "Doze Homens e Outro Segredo" bebendo da mesma fonte freqüentada por Dino Martini (nome original de Dean Martin). Mais uma vez, Clooney é Danny, líder da turma, Brad Pitt é o segundo na hierarquia, Rusty Ryan, e Matt Damon interpreta Linus, um aprendiz de cachorrão pra quem ainda falta algum traquejo.

    Também estão de novo a bordo Julia Roberts, Elliott Gould, Bernie Mac, Casey Affleck, Eddie Jemison, Shaobo Qin e um delicioso Carl Reiner, acompanhados pela nova recruta Catherine Zeta-Jones.

    Ela é Isabel, uma superpolicial européia com saias provocantes e saltos altos, prontamente "vestida para matar" os pilantras na alcova.

    Os saltos altos de Isabel são apenas alguns dos toques fantásticos propositais que figuram nessa vistosa construção artificial. Calcada na reaparição de Terry, um homem já trapaceado por Danny (interpretado por Andy Garcia, acrescentando um toque cínico a la George Sanders sobre a habitual vilania cinematográfica), a trama complicada serpenteia pelos Estados Unidos chegando até a Europa, com referências de tempo e de locais tão estonteantes que facilmente você não saberá aonde você está e por que você está num determinado lugar.

    Soderbergh não gosta de se repetir, e pelas referências tão disparatadas ele parece estar bem mais interessado no jogo de digressões, piadinhas e toques nonsense do que em saber se aquilo tudo junto faz sentido.

    Soderbergh aceitou fazer "Doze Homens e Outro Segredo", mas só porque dirigiu a seqüência isso não quer dizer que ele se repetiria, para o bem ou para o mal.

    Nos grandes filmes sobre golpes, como "Rififi" de Jules Dassin, o golpe é o que menos conta --o que importa é o jogo de honra entre os ladrões, o valor dos homens e a habilidade tanto dos personagens como do diretor.

    "Doze Homens e Outro Segredo" não entra na companhia de clássicos como o suspense de Dassin em parte porque, tendo já feito esse tipo de filme antes, Soderbergh teve que se ater ao material anterior. Com esse objetivo, ele estica a lógica narrativa além do ponto de rompimento, solta perigosamente a coleira dos atores e se arrisca numa viagem nostálgica auto-reflexiva.

    O aliado-mor do diretor nesse caos controlado é George Nolfi, cujo roteiro é muito engraçado e soluça absurdos lunáticos que fazem lembrar Richard Lester, que dirigiu os Beatles em "Help" e é um favorito de Soderbergh, e o próprio "Schizopolis" do diretor.

    Quando "Doze Homens e um Outro Segredo" funciona, é uma delícia. Clooney não aparece tanto, mas oferece prazer garantido, assim como Brad Pitt, cuja graciosidade e habilidade em fazer graça com a própria beleza sugere que ele poderia ter brilhado na era dourada das comédias malucas.

    "Doze Homens e Outro Segredo" pode ter passagens fracas, mas também tem momentos marcantes, como as cantadas de Rusty (Pitt) sobre uma Isabel (Zeta-Jones) perturbada quando ele está a ponto de se dar mal, tipo de situação cinematográfica que pode ficar na sua mente durante uma semana.

    Como as estratégias a la Abbott e Costello dos personagens de Matt Damon, Don Cheadle e James Caan, assim como os lances românticos de Rusty em movimento, que são ao mesmo tempo apatetados e orquestrados com rigor, numa espécie de profissionalismo casual.

    Hollywood adora esses filmes que parecem parada "all-star", seja em "Grande Hotel" ou num daqueles filmes de catástrofes dos anos 70, entupidos de celebridades brincando de simples mortais. Nas melhores ocasiões é muito prazeroso viajar com as estrelas, porque você se sente como um convidado especial.

    Mas quando as piadinhas internas tomam conta, como acontece no final do filme, facilmente a gente se sente deslocado, meio como um espião com o nariz colado num vidro. É divertido quando Danny (Clooney) se preocupa em voz alta que parece ter 50 anos, uma confissão que combina com o cabelo grisalho do ator.

    Mas quando Danny bebe champagne numa mansão do Lago Como, na Itália, no mesmo resort onde Clooney possui uma mansão, é tão engraçado quanto as piadas de Maria Antonieta sobre bolinhos.

    Com "Onze Homens e um Segredo", Soderbergh parecia mais concentrado em fazer as diferentes partes de um "filme de golpe" funcionarem em perfeita harmonia. O resultado foi um "veículo de estúdios" que transcendeu à fórmula, porque as digitais do diretor abrilhantaram sua superfície. Dessa vez, sem se sentir devidamente desafiado, Soderbergh não se importou tanto em dar à seqüência seu toque pessoal.

    Embarcando na metáfora automotiva --o que convém, devido às características luxuriosas da empreitada-- "Doze Homens e Outro Segredo" lembra mais um carro esportivo exótico, um daqueles brinquedos exóticos que parecem divertidos caso você consiga se aproximar deles.

    Há coisas piores na vida que produzir um Lamborghini, é claro. Mas só se você estiver no mesmo ramo de Henry Ford. Já se estiver no ramo de John Ford...

    Doze Homens e um Outro Segredo

    Dirigido por Steven Soderbergh; roteiro de George Nolfi; montagem de Mirrione; música de David Holmes; concepção de produção, Philip Messina; produzido por Jerry Weintraub; distribuído pela Warner Brothers.
    Duração: 120 minutos.

    Com: George Clooney (Danny Ocean), Brad Pitt (Rusty Ryan), Matt Damon (Linus Caldwell), Catherine Zeta-Jones (Isabel Lahiri), Andy Garcia (Terry Benedict), Don Cheadle (Basher Tarr), Bernie Mac (Frank Catton), Julia Roberts (Tess Ocean), Casey Affleck (Virgil Malloy), Scott Caan (Turk Malloy), Vincent Cassel (François Toulour), Eddie Jemison (Livingston Dell), Carl Reiner (Saul Bloom), Shaobo Qin (Yen) e Elliott Gould (Reuben Tishkoff). Bem, se a turma toda está aqui, por que não tentar um outro golpe? Marcelo Godoy
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