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17/12/2004

Eleição faz prefeito de NY aprender a beijar bebê

The New York Times
Jennifer Steinhauer

Em Nova York
Enquanto os membros da congregação da Igreja Batista Memorial no Harlem ouviam, o prefeito Michael R. Bloomberg exibia a mais recente máxima da sua coletânea de sentenças ríspidas. "Se vocês quiserem seguir em frente e agir de forma estúpida, tudo bem", disse ele, referindo-se a alunos rebeldes. "Mas vocês não têm o direito de comprometer a educação dos outros". Ele foi saudado com um coro de améns vindo dos bancos da igreja.

O momento, por mais modesto que tenha sido, ressalta a vasta experiência com a locução estudada e a esperteza política que Bloomberg acumulou desde a sua primeira visita à Igreja Batista Memorial, em 2001, a primeira vez na vida em que entrou em uma igreja de negros. Durante aquela visita, os fiéis olhavam com indiferença enquanto Bloomberg, à época candidato a prefeito pela primeira vez, fazia observações vagas sobre as similaridades entre os negros e os judeus.

No momento em que se engaja na sua segunda campanha para prefeito, Michael Bloomberg é ao mesmo tempo a mesma pessoa e um indivíduo totalmente diferente do candidato de 2001, ocasião em que desempenhou o papel do bilionário improvável que se lançava desajeitadamente na sua primeira disputa política.

Ele ainda fala com um forte sotaque bostoniano, mas as suas observações são bem mais concisas e cuidadosas. Dá para prever com segurança que ele não cometerá mais os erros que atrapalharam a sua campanha de 2001, como a afirmação feita em frente a um colega Republicano, o governador George E. Pataki, de que era um liberal.

Bloomberg, que no passado não memorizava siglas de agências e o número de funcionários que operam em um caminhão de lixo, é atualmente capaz de falar com segurança e longamente sobre modificações no orçamento, as vantagens da grama artificial em parques públicos e reciclagem.

Ele ainda tem uma sociabilidade maníaca, mas os seus famosos jantares festivos incluem agora líderes comunitários do Queens, assim como astros de cinema, e ele agora leva com freqüência velhos amigos para lugares como a região de Pelham Parkway, no Bronx, em vez de conduzi-los a bairros chiques como Upper East Side.

Ele memorizou as reclamações de moradores de toda a cidade ("Não temos vagas de estacionamento suficientes!", "Há muitas lojas de material pornográfico!") e os melhores restaurantes.

Ele ainda não é um camaleão político. Bloomberg não acompanha com um balanço de cabeça o ritmo da música gospel, e fala a alunos do ensino médio sobre os pontos positivos relativos às finanças da educação da mesma forma que falaria a lideranças empresariais.

Mas atualmente Bloomberg é capaz de beijar bebês e de fazer com o polegar um sinal de positivo sem necessitar de orientações explícitas da sua secretária de imprensa.

Mesmo assim a sua insistência em ser uma personalidade menos pública e empolgante do que os prefeitos que o antecederam provocou claramente em muitos nova-iorquinos um sentimento ambivalente. O seu índice de popularidade continua abaixo dos 50%, apesar de a economia municipal ter melhorado e da agenda agressiva da sua administração quando se trata de questões como reprovar alunos da terceira série ou reprimir o tabagismo em bares, e dos seus sucessos na redução da criminalidade e na criação de linhas telefônicas para possibilitar que os cidadãos tenham contato com as agências municipais.

Embora a confiança dos nova-iorquinos na cidade tenha aumentado desde 2001, Bloomberg continua incapaz de modificar a sua imagem de um bilionário ignorante da luta diária pela sobrevivência do cidadão comum.

O seu relacionamento com os sindicatos é talvez o pior que um prefeito já apresentou nas duas últimas décadas, e ele se engajou em uma batalha potencialmente prejudicial à sua imagem, relativa aos seus planos para utilizar verbas públicas para financiar a construção de um estádio dos Jets na extremidade ocidental de Manhattan.

Bloomberg se apresentou como um misto de prefeito e empresário, mas ainda não conseguiu controlar as constantes crises orçamentárias de Nova York com os métodos implacáveis típicos da iniciativa privada. Ele evitou uma crise fiscal em grande parte por meio do aumento dos impostos sobre propriedade em 18,5%, em vez de reduzir os serviços municipais.

Embora tivesse mais tarde devolvido a maior parte dos impostos extras relativos a imóveis residenciais, a medida abalou a sua popularidade e o orçamento municipal continua desequilibrado, havendo a previsão de novos déficits expressivos nos anos que estão por vir.

Mas segundo aliados e adversários, o seu maior desafio é uma tarefa quase impossível: convencer os eleitores de que um prefeito que não possui o carisma do Democrata Edward I. Koch ou do Republicano Rudolph W. Giuliani, tem, não obstante, a energia para continuar administrando a cidade mais complexa do país.

A imagem de um Bloomberg distanciado da realidade --justa ou não-- é algo que os Democratas, espertos após 11 anos de domínio Republicano na prefeitura, estão ansiosos por explorar.

"Creio que há por parte das elites de Nova York a percepção de que Bloomberg fez um bom trabalho como prefeito", diz Howard Wolfson, consultor Democrata que provavelmente representará um dos adversários políticos de Bloomberg. Mas ele acrescenta: "Essa opinião não é compartilhada pela maioria dos nova-iorquinos. A maioria acha que ele não tem contato com a realidade do cidadão comum e que não entende as suas prioridades. Se eu fosse um prefeito que estivesse cinco pontos atrás do adversário no início de um ciclo eleitoral, estaria preocupado".

Os assessores de Bloomberg estão seguros de que ele conseguirá um segundo mandato. Mas todos admitem que a batalha provavelmente será acirrada. "Não dá para assumir nada como certo", diz William T. Cunningham, diretor de comunicações de Bloomberg, que gerenciou a sua última campanha.

Entendimento Crescente

A evolução política de Bloomberg é algo de evidente para todos. O homem que certa vez manifestou desprezo pelo Queens dizendo que o bairro não passava de um refúgio de aviões atualmente visita o Lemon Ice King of Corona (famosa sorveteria italiana do Queens), e participou de 49 reuniões de associações civis, em locais como Cambria Heights, Washington Heights e Staten Island. A sua lista de redutos eleitorais visitados é comparável à do senador Charles E. Schumer, Democrata campeão de votos que se reelegeu em 2004.

Mais de uma dezena dos subordinados do prefeito diz a mesma coisa: que longe de ser um bilionário sem contato com o cidadão comum, Bloomberg realmente conseguiu entender a maneira como o governo afeta a vida da população.

"Ele conhece bem mais os problemas com os quais se defrontam bairros específicos porque esteve nesses bairros incontáveis vezes e passou os últimos três anos ouvindo o povo", afirma Patrícia E. Harris, vice-prefeita e uma das assessoras mais próximas a Bloomberg.

Embora o prefeito no passado quisesse deixar as iniciativas de planejamento das políticas municipais a cargo exclusivamente do seu círculo de colaboradores mais íntimos, ele agora passou a tentar energicamente criar coalizões e trocar favores: na última quarta-feira (15/12), ele participou de uma cerimônia em um pequeno restaurante freqüentado pelo líder da Câmara, Sheldon Silver, uma voz importante para o acordo proposto de construção do estádio dos Jets.

"Ele se tornou um político bem melhor", garante o Democrata Mark Green, que foi derrotado por uma pequena margem de votos por Bloomberg em 2001. Embora frise que vai apoiar qualquer Democrata que dispute a prefeitura com Bloomberg no ano que vem, Green, não obstante, admitiu: "Ele tem sido um prefeito bem melhor do que achei que seria".

Os assessores de Bloomberg dizem que a sua compreensão de políticas públicas aumentou muito. Quatro assessores citaram independentemente a sua tentativa de resolver o dispendioso problema de lidar com o lixo de Nova York como um exemplo importante.

No seu primeiro ano como prefeito, Bloomberg pressionou o seu secretário de saneamento para avaliar soluções caras de engenharia para resolver o problema municipal do lixo. Em determinado momento, a administração chegou a considerar a hipótese de enviar o lixo para o Caribe.

Uma força-tarefa foi montada para lidar com o problema, e Bloomberg, de maneira típica, aparecia para acompanhar a questão de vez em quando, deixando vários assessores com a impressão de que ele não entendia muito bem o problema. Mas de repente eles perceberam que o prefeito compreendera essa questão incrivelmente densa e complexa.

"É impressionante o quanto ele refletiu sobre a situação e como entendeu o problema", diz Peter J. Madonia, chefe do gabinete do prefeito, que supervisiona a força-tarefa.

"Esse é um cara que provavelmente jamais notou quantas pessoas trabalham em um caminhão de lixo, e muito menos o que acontece com o lixo levado pelo caminhão. Agora ele sabe onde recolhemos o lixo, para onde este é enviado, e quanto custa transportá-lo. E a administração do problema do lixo é apenas uma das suas tarefas como prefeito".

Os assessores de Bloomberg citam ainda as suas idéias em evolução sobre o superdesenvolvimento, uma questão que ainda atormenta vários bairros. Três assessores disseram que quando estava concorrendo à prefeitura, Bloomberg, um empresário pró-desenvolvimento, ficou perplexo com o fato de certos bairros desejarem menos projetos habitacionais e empresariais.

Assim, um dia Bloomberg fez um passeio com moradores e líderes locais em Staten Island, passando a manhã inteira vendo terrenos ocupados por habitações que abrigam múltiplas famílias, em locais que antes eram ocupados por apenas uma casa, assim como projetos arquitetônicos que, segundo os críticos, arruínam as características de vários bairros. Desse passeio nasceu uma nova política de zoneamento urbano.

Entre as questões políticas, Bloomberg tem pedido repetidamente aos eleitores que o julguem quanto à educação. E o seu desempenho nesta área, três anos após ter assumido a rede pública municipal de ensino, é uma das suas realizações mais difíceis de ser avaliada.

Randi Weingarten, presidente do sindicato dos professores e uma crítica constante do prefeito, acha que o sistema está mais quebrado e deficiente do que nunca, com o gerenciamento de cima para baixo desmoralizando os professores e as salas de aula em estado caótico. A incapacidade do município e do sindicato em chegar a um denominador comum é um fator que joga lenha na fogueira.

"Estou profundamente desapontada", afirma Weingarten, que inicialmente apoiou o controle das escolas pela prefeitura. "Isso porque ele é um sujeito inteligente que teria obtido um resultado bem melhor da força de trabalho se nos tivesse tratado com um respeito real e como colegas".

Generosidade oculta

Contrastando com essa posição, Bloomberg foi recebido amistosamente em uma recente visita a uma problemática escola de ensino médio em South Bronx, cuja situação foi revertida pelo Departamento de Educação.

"Ele não apenas diz que a educação é a sua prioridade, mas também cumpre as promessas nessa área", diz Virginia Gonzalez, integrante do conselho de igrejas de South Bronx, organização envolvida com questões de educação nos bairros.

Ao lhe perguntarem se poderia apoiar Bloomberg em vez de Fernando Ferrer, o ex-líder comunitário do Bronx, que muitos acreditam ser o nome mais cotado nas primárias Democratas para a candidatura a prefeito, Gonzalez responde: "Não voto em um candidato porque ele é latino; voto em pessoas que desejam fazer uma diferença".

Kevin Sheekey, um antigo assessor que administrará a campanha de Bloomberg, e outros indivíduos próximos ao prefeito devem cortejar fortemente o voto negro da cidade, e alguns assessores dizem que ele poderá também correr atrás de algum apoio entre o eleitorado hispânico, algo que vai contra a lógica convencional.

Os assessores de Bloomberg ficam irritados com a constante alegação de que ele "não tem contato com o cidadão comum" e que a sua fortuna o aliena do resto da cidade.

As pessoas mais próximas a ele reconhecem que o prefeito não consegue ser caloroso --ele costuma dar tapinhas discretos nas costas dos eleitores, em vez de abraços. Mas eles insistem que essa é a personalidade de Bloomberg, e que isso pouco tem a ver com o seu dinheiro, ainda que a fortuna tenha tornado mais difícil para ele entender os problemas financeiros do seu eleitorado.

Assessores e amigos o descrevem como um homem que manteve as sensibilidades da classe média que adquiriu quando foi criado como filho de um contador em Bedford, Massachusetts. Bloomberg, cuja fortuna é avaliada em US$ 4 bilhões, ainda come biscoitinhos salgados com queijo cremoso e não permite que ninguém segure a porta do elevador para esperá-lo.

Mas várias das ações mais generosas de Bloomberg, que o tornariam mais humano perante a população, ocorrem longe dos olhos do público. Ele envia amigos a médicos famosos que conhece, liga para os seus subordinados várias vezes quando estes enfrentam problemas familiares, e recentemente deu um telefonema carregado de emoção à viúva de um bombeiro municipal que morreu no Iraque.

O prefeito, que no seu primeiro ano de mandato foi criticado por não manifestar sensibilidade suficiente para com as famílias das vítimas do 11 de setembro, instruiu a polícia para que deixasse a viúva entrar em contato com ele a qualquer momento quando ela ligasse para um número de atendimento de 24 horas.

Charlotte Bloomberg, a mãe do prefeito, de 95 anos, que mora na casa em que ele foi criado, disse que o filho não é do tipo que alardeia as suas boas ações.

"As melhores coisas que ele faz são coisas sobre as quais ninguém fica sabendo", disse ela em uma entrevista por telefone. "Ações que não são publicadas nos jornais são bem mais importantes do que quaisquer outras".

A associação de Bloomberg com a riqueza e amigos famosos continua, mas algumas das circunstâncias dessas amizades mudaram. Muitos agora se vêem sentados ao lado de funcionários municipais e líderes comunitários nos jantares dados pelo prefeito. Beverly Sills diz que Bloomberg não tem mais tempo para ir à ópera com ela.

E. John Rosenwal Jr., vice-presidente da Bear, Stearns & Company, e um dos amigos mais íntimos de Bloomberg, diz que atualmente os jantares tranqüilos com a sua mulher, Pat, e com a companheira de Bloomberg, Diana Taylor ocorrem no Bronx e em Astoria, no Queens.

"Temos freqüentado locais bastante modestos", conta Rosenwald.

Os assessores de Bloomberg esperam que a próxima eleição seja decidida pelo seu histórico de administração da cidade, e não pela sua personalidade. Segundo especialistas em política, se este for o caso, ele terá chances.

"Como prefeito, ele atualmente possui um histórico e uma base para ataque", explica Steven Cohen, professor de administração pública da Universidade Columbia.

"Administrar a cidade com a composição étnica mais diversa do mundo é algo que ele aprendeu, e creio que o trabalho no setor público permitiu que percebesse as nuances envolvidas. Quando se percebe que as suas realizações serão somadas ao dinheiro que vai gastar na eleição, dá para entender que ele será um candidato formidável". Bilionário Republicano Michael Bloomberg quer reeleição em 2005 Danilo Fonseca

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