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18/12/2004

Indústrias farmacêuticas atravessam intensa crise

The New York Times
Alex Berenson

Em Nova York
A indústria farmacêutica mundial está claramente enferma.

Três grandes laboratórios farmacêuticos --Pfizer, AstraZeneca e Eli Lilly-- revelaram problemas sérios com importantes medicamentos nesta sexta-feira (17/12), chamando atenção para o fato da indústria farmacêutica de US$ 500 bilhões estar fracassando em sua atividade central de descoberta de novos medicamentos.

O declínio na pesquisa e desenvolvimento de medicamentos tem sido um segredo aberto entre analistas e cientistas há anos. Mas os executivos dos laboratórios farmacêuticos têm insistido que seu setor está saudável em sua base e que seus caros esforços de pesquisa darão frutos.

Enquanto isso, eles têm tentado compensar a fraqueza na criação de novos medicamentos lucrativos com campanhas de marketing agressivas, dirigidas a médicos e pacientes, para os medicamentos existentes, grandes aumentos de preços e esforços para prorrogar as patentes dos medicamentos existentes.

Tais táticas têm protegido seus lucros, mas têm irritado os consumidores e os governos que pagam pelos medicamentos, causando um repercussão política negativa nos Estados Unidos e na Europa.

Após os anúncios de sexta-feira, tal repercussão provavelmente aumentará.

Em menos de 12 horas, a Pfizer disse que encontrou um maior risco de problemas cardíacos para as pessoas que tomam o Celebrex, um analgésico que é um dos medicamentos mais vendidos no mundo.

A AstraZeneca informou que um teste do Iressa, um medicamento para câncer de pulmão aprovado nos Estados Unidos no ano passado, mostrou que a droga não prolonga vidas. E a Eli Lilly alertou os médicos que o Strattera, seu medicamento para tratamento de desordem de déficit de atenção, geralmente em crianças, provocou severos danos no fígado em pelo menos dois pacientes.

Os investidores puniram todas as três empresas pelos seus fracassos, provocando uma queda de 11,2% nas ações da Pfizer, 7,7% nas da AstraZeneca, e 2,4% nas da Eli Lilly. Coletivamente, as quedas reduziram o valor de mercado das três empresas em mais de US$ 30 bilhões, agravando a fraca performance do setor neste ano.

A seqüência extraordinária de eventos é um sinal de que as empresas devem confrontar suas dificuldades para descobrir novos medicamentos, disse Richard T. Evans, um analista do setor da Sanford C. Bernstein & Co., uma firma de pesquisa de Wall Street.

"A produtividade de pesquisa e desenvolvimento delas está simplesmente terrível", disse Evans.

Nenhum grande laboratório farmacêutico está livre do problema. O número de novos medicamentos aprovados pela Food & Drug Administration, a agência americana reguladora de medicamentos e alimentos, vem caindo acentuadamente desde meados dos anos 90, de 53 em 1996 para 21 em 2003, apesar do setor ter quase dobrado seus gastos anuais em desenvolvimento de medicamentos, para cerca de US$ 33 bilhões.

Para complicar ainda mais o processo, muitos medicamentos já disponíveis no mercado realizam um bom trabalho, de forma que a qualidade que as novas terapias precisam superar é alta, especialmente porque a maioria é muito cara.

Se as empresas não conseguirem reverter a tendência, os investidores quase certamente exigirão que reduzam seus gastos com pesquisa. Enquanto isso, os governos, diante dos crescentes custos dos medicamentos para programas públicos como o Medicare e o Medicaid, poderão alterar suas regulamentações para compra de medicamentos ou forçar as empresas a reduzirem preços, disse Evans. O resultado a longo prazo pode ser um setor menos lucrativo e menos capaz de produzir novos medicamentos para os pacientes.

Ainda assim, os especialistas em desenvolvimento de medicamentos notam que o progresso ocorre de forma intermitente, e a enxurrada de informações biomédicas recém-descobertas poderá levar a muitos novos medicamentos nos próximos anos. Mas os laboratórios farmacêuticos tradicionais ainda não tiveram muita sorte na frente de biotecnologia, apesar de terem licenciado algumas drogas de empresas do setor.

Enquanto elas lutam com as novas tecnologias, as empresas estão enfrentando uma série constante de expirações de patente de seus medicamentos mais lucrativos. Para combater tal dinâmica, a Pfizer e algumas outras empresas têm feito uso de fusões e aquisições para crescer. Mas tais negócios não ajudam em nada à capacidade do setor de produzir novos medicamentos, dizem os críticos, podendo até prejudicar enquanto as empresas em fusão lutam para integrar seus laboratórios.

O dr. Jerry Avorn, professor de medicina da Escola de Medicina de Harvard e autor de "Powerful Medicines: The Benefits, Risks, and Costs of Prescription Drugs" (medicamentos poderosos: os benefícios, riscos e custos dos medicamentos prescritos), um livro lançado neste ano, disse que a falta de novos medicamentos tem feito as empresas tentarem estimular a demanda pelos medicamentos já existentes, os anunciando diretamente aos consumidores.

"Se você não tem muitos medicamentos novos na sua linha de produção, e você é uma empresa, você precisa extrair o máximo proveito dos medicamentos que dispõe", disse Avorn. Como resultado, muitas pessoas estão tomando medicamentos que lhes fornece apenas um benefício moderado, ou até mesmo nenhum benefício, disse ele.

Ao mesmo tempo, as empresas estão monitorando atentamente os efeitos colaterais dos medicamentos que já vendem, por temerem que informações sobre efeitos colaterais venham a desencorajar os pacientes de usarem os caros medicamentos novos e potencialmente arriscados, disse Avorn.

"Em um mundo racional, você usaria estas drogas de maior risco apenas se acrescentassem algo às opções que você já dispõe", disse ele.

Na superfície, a indústria farmacêutica parece relativamente saudável. As vendas do setor estão crescendo fortemente tanto nos Estados Unidos quanto no restante do mundo, com um aumento da receita de cerca de 9% em 2003, para mais de US$ 490 bilhões, segundo a IMS Health, que monitora as vendas de medicamentos.

E as empresas são muito lucrativas. Excluindo alguns ônus isolados, a Pfizer, a maior empresa farmacêutica do mundo, espera ganhar mais de US$ 14 bilhões neste ano em vendas de US$ 51 bilhões, uma margem de lucro que está entre as maiores de qualquer grande empresa.

A Pfizer teve uma pequena boa notícia na sexta-feira. Os reguladores federais aprovaram o Macugen, uma droga desenvolvida pela Eyetech Pharmaceuticals Inc. e Pfizer para tratamento da degeneração macular, uma das principais causas de cegueira entre idosos.

Os grandes laboratórios farmacêuticos têm aumentado constantemente seus gastos em pesquisa, investindo em bancos de dados genéticos que esperam que lhes darão um novo entendimento de como as doenças progridem, assim como tecnologias que aumentam o número de componentes químicos avaliados em busca de valor medicinal. A Pfizer sozinha gasta atualmente US$ 7 bilhões por ano em pesquisa, segundo seus relatórios financeiros.

Tal nível de gastos em pesquisa justifica os altos preços de muitos medicamentos, dizem os executivos dos laboratórios farmacêuticos. As margens de lucro extraordinárias sobre os medicamentos prescritos pagam as pesquisas, e qualquer esforço para limitar os preços poderá comprometer a descoberta de novos medicamentos, eles dizem.

Durante os anos 90, as empresas foram capazes de colocar no mercado várias novas e importantes categorias de medicamentos, incluindo drogas para prevenção de doenças cardíacas, tratamento da depressão e HIV e para atenuação da esquizofrenia. Mas nesta década, as empresas obtiveram poucos avanços, com exceção de um punhado de tratamentos para câncer e diabete.

Até este ano, Wall Street tem sido relativamente paciente com o setor, o considerando um local lucrativo e estável para se investir.

Mas nos últimos meses, os investidores começaram a se afastar do setor. Um índice abrangente das ações farmacêuticas caiu 7,4% neste ano, enquanto o índice Standard & Poor's 500 subiu 7,4%.

As empresas que fizeram os anúncios na sexta-feira estão entre as que apresentam pior performance, com as ações da Pfizer desvalorizadas em 30%, as da AstraZeneca em 22%, e as da Eli Lilly em 20% neste ano.

Não há uma forma simples de tornar a pesquisa de medicamentos mais produtiva, disse o dr. K. Arnold Chan, um professor associado da Escola de Saúde Pública de Harvard. A quantidade de conhecimento biomédico básico aumentou enormemente nos últimos anos, mas os cientistas ainda não foram capazes de traduzir tal informação em novos medicamentos.

"Há uma discrepância entre a ciência básica e a ciência clínica", disse Chan.

Além disso, a realização de testes clínicos para medicamentos promissores é lenta e cara, em parte porque cada hospital envolvido no teste deve aprovar individualmente seus protocolos. Chan disse esperar que os atuais problemas sejam apenas um período de seca em um longo período de avanço científico, que produziu tratamentos significativamente melhores para muitas doenças.

"Se pegarmos 30 anos, você poderá ver muito progresso", disse ele. "Nós vimos muita promessa nos anos 90. Mas os dois últimos anos foram bastante patéticos." Laboratórios são obrigados a suspender vários remédios populares George El Khouri Andolfato

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