UOL Notícias Internacional
 

19/12/2004

Déficit orçamentário dos EUA preocupa economistas

The New York Times
Eduardo Porter

de Nova York
O Salão Branco e Dourado do Hotel Plaza em Nova York parece um lugar apropriado para grandes decisões, com seus candelabros de cristal nos tetos altos e as paredes brancas com molduras douradas. Foi nesse lugar opulento, em 22 de setembro de 1985, que as principais potências industriais do mundo decidiram criar um plano para salvar o mundo do tumulto econômico.

Quase 20 anos depois, o ambiente suntuoso do Plaza poderá ter novamente uma utilidade semelhante.

O presidente Bush começa seu segundo mandato enfrentando um bicho-papão financeiro que tem muitas semelhanças com a crise de 20 anos atrás: o déficit orçamentário dos Estados Unidos está superinchado. O déficit comercial atinge recordes todos os meses. O crescimento acelerado da dívida externa do país está assustando os mercados financeiros. E as taxas de câmbio parecem desproporcionais.

Em 1985 o presidente Ronald Reagan conseguiu evitar a tempestade. Quando iniciou seu segundo mandato, um grande déficit orçamentário e taxas de juros elevadas alimentavam uma alta incessante do dólar, abrindo um enorme buraco na balança comercial. Mas em 1989 o dólar havia caído 50% em relação ao iene japonês e mais de 40% em relação ao marco alemão, sem provocar uma inflação descontrolada. E o déficit de conta corrente - a diferença entre as exportações e as importações de bens e serviços - finalmente começava a diminuir.

Um dos principais componentes da estratégia de Reagan foi montado no Plaza, onde ministros das Finanças e chefes de bancos centrais dos Estados Unidos, Japão, Alemanha Ocidental, Grã-Bretanha e França concordaram em intervir nos mercados de moedas - comprando furiosamente ienes e marcos - para reduzir o valor do dólar. A reunião também inaugurou um período de coordenação de políticas monetárias e introduziu uma dimensão internacional no que haviam sido discussões estritamente domésticas de política fiscal.

Embora as atuais atribulações econômicas do país não sejam idênticas às que Reagan enfrentou, alguns economistas sugerem que o processo de coordenação política formalizado no Plaza oferece um mapa que Bush talvez queira seguir.

"Você precisa de algo como o Plaza para destrinchar as coisas", disse C. Fred Bergsten, diretor do Instituto de Economia Internacional em Washington. "O segundo governo Bush deveria pegar o exemplo do segundo governo Reagan e fazer uma correção em meio de percurso."

Mas além de exercer pressão sobre a China para deixar sua moeda, o yuan, flutuar em relação ao dólar, o governo Bush parece desinteressado em coordenar sua política econômica com outros países. Ele apenas os exortou a gastar mais para ajudar a diminuir o déficit comercial americano.

Hoje as finanças mundiais se equilibram de modo bastante precário entre um grande gastador - os Estados Unidos - e vários países no resto do mundo que são grandes poupadores. Em termos esquemáticos, os Estados Unidos importam e o resto do mundo exporta; os Estados Unidos pedem emprestado e o resto do mundo empresta. Os fluxos financeiros são tão desequilibrados que no ano passado os Estados Unidos absorveram quase três quartos das poupanças do mundo inteiro.

Não é de surpreender que essa situação esteja aumentando a dívida externa do país. No final do ano passado, o déficit financeiro nacional - o que os Estados Unidos devem ao resto do mundo menos o que o resto do mundo deve aos Estados Unidos - chegava a mais de US$ 3 trilhões, cerca de 30% da produção econômica anual do país. E a montanha está crescendo. Nos 12 meses até outubro, estrangeiros adquiriram quase US$ 885 bilhões em novos títulos das dívidas pública e privada americana.

Isso não seria um problema se o mundo estivesse confortável para emprestar somas cada vez maiores para os Estados Unidos, exportando seu capital excedente para pagar os investimentos e o consumo americano. Mas isso é improvável. O presidente do Federal Reserve (banco central americano), Alan Greenspan, que não costuma se preocupar desnecessariamente com déficits, advertiu em um discurso para banqueiros alemães no mês passado que os estrangeiros provavelmente exigirão maiores juros e rendimentos de títulos para continuar segurando a dívida americana.

"A pergunta que nos confronta hoje", ele disse, "é que tamanho de déficit de conta corrente dos Estados Unidos pode ser financiado antes que a resistência a adquirir novos direitos contra residentes americanos provoque um ajuste."

Isto é, quando a dívida ficará tão grande que os estrangeiros começarão a se preocupar se receberão seu dinheiro de volta com um lucro razoável?

Alguns investidores estrangeiros já estão ficando nervosos. Nos últimos dois anos, o dólar caiu substancialmente contra todas as moedas, como o dólar canadense e o euro, e um pouco menos em relação ao iene. O investimento estrangeiro está em tendência de queda desde março.

Alguns economistas temem que as preocupações dos investidores sobre a solvência do país possam desencadear uma corrida desenfreada ao dólar, ou pior. "Acho que vamos ter um aumento acentuado dos juros e um colapso dos títulos", disse Jeffrey Frankel, professor de economia em Harvard que foi membro do Conselho de Assessores Econômicos do governo Clinton.

Enfrentar esse quebra-cabeça exige diversas mudanças em escala global. Bergsten e outros economistas dizem acreditar que hoje a cooperação internacional seria útil, como foi em 1985.

Em primeiro lugar, o dólar deve cair mais em relação ao yuan chinês e outras moedas asiáticas. A queda acentuada mas estreita do dólar até agora colocou uma pesada carga sobre as exportações de um pequeno grupo de países, enquanto nada fez pelas taxas de câmbio da China e outros grandes exportadores asiáticos para os Estados Unidos. E com o valor do yuan virtualmente atrelado ao dólar, outros países asiáticos, como Japão e Coréia do Sul, têm relutado em deixar suas moedas subir substancialmente.

A pressão americana sobre a China para deixar sua moeda flutuar não teve sucesso até agora. Mas uma abordagem multilateral - capaz de garantir que outras moedas asiáticas subam simultaneamente de modo a não diminir a competitividade das exportações chinesas na região - poderia funcionar, segundo alguns economistas.

"Acho que os europeus, os japoneses e os canadenses poderiam ser muito entusiásticos sobre isso", disse Robert D. Hormats, um vice-presidente da Goldman Sachs International, sobre um acordo multilateral. "Eles afirmam que estão tirando o impacto do ajuste do dólar."

Mas segundo muitos economistas uma mudança de valor do dólar não basta. Para que o ajuste funcione, os asiáticos e os europeus precisam gastar mais e poupar menos, reduzindo sua pressão para exportar e aumentando seu apetite por importações. E, principalmente, a demanda nos Estados Unidos deve cair. Isso significa que o déficit orçamentário deve ser reduzido de seu atual nível de 4% da produção nacional. De outro modo, os juros subirão substancialmente para provocar a redução do consumo privado.

"Não é suficiente os ministros das Finanças anunciarem que não estão contentes com a atual configuração das taxas de câmbio", disse Maurice Obstfeld, um economista da Universidade da Califórnia em Berkeley. "Eles precisam de políticas adequadas para apoiar essas configurações." Especialistas comparam atual situação economica do país com crise dos anos 80 Luiz Roberto Mendes Gonçalves

Siga UOL Notícias

Tempo

No Brasil
No exterior

Trânsito

Cotações

  • Dólar comercial

    16h59

    -0,97
    3,127
    Outras moedas
  • Bovespa

    17h20

    0,99
    64.389,02
    Outras bolsas
  • Hospedagem: UOL Host