UOL Notícias Internacional
 

19/12/2004

Pentágono busca expandir seu papel na inteligência dos EUA

The New York Times
Douglas Jehl e Eric Schmitt

de Washington
O Pentágono está elaborando um plano que dará aos militares um papel mais proeminente nas operações de coleta de inteligência, uma área tradicionalmente reservada à Agência Central de Inteligência (CIA), incluindo missões voltadas para grupos terroristas e os envolvidos em proliferação de armas, disseram funcionários do Departamento de Defesa.

A proposta está sendo descrita por alguns funcionários da inteligência como um esforço do Pentágono para expandir seu papel na coleta de inteligência, no momento em que uma legislação sancionada pelo presidente Bush na sexta-feira promove amplas mudanças na comunidade de inteligência, incluindo a criação de um diretor nacional de inteligência. O principal propósito de tal reforma é melhorar a coordenação entre as 15 agências de inteligência do país, incluindo as controladas pelo Pentágono.

Os detalhes do plano continuam secretos e estão sendo elaborados, mas indícios de sua abrangência e importância começaram a surgir nas últimas semanas. Uma parte da proposta geral está sendo elaborada por uma equipe liderada pelo general de exército William G. Boykin, um vice-subsecretário de Defesa.

Entre as idéias citadas pelos funcionários do Departamento de Defesa está a de "lutar por inteligência", ou iniciar operações de combate visando obtenção de inteligência.

A proposta também pede por uma grande expansão dos esforços de coleta de inteligência humana patrocinados pelo Pentágono, tanto dentro dos serviços militares quanto da Agência de Inteligência da Defesa, incluindo missões ofensivas, mais agressivas, visando a aquisição de inteligência específica procurada pelos autores de políticas. (O termo inteligência humana se refere a informação obtida diretamente por espiões em vez de meios tecnológicos.)

A proposta marca o mais recente capítulo da antiga e feroz rivalidade entre o Pentágono e a CIA pelo controle da coleta de inteligência.

Funcionários da Casa Branca estão monitorando o planejamento do Pentágono, assim como a CIA. A proposta ainda não obteve aprovação da Casa Branca, segundo funcionários do governo. Não se sabe até que ponto as forças armadas americanas já receberam autoridade adicional para realizar missões de coleta de inteligência.

Até agora, as operações de inteligência conduzidas pelo Pentágono se concentravam principalmente na obtenção de informação sobre as forças inimigas, a maior preocupação dos comandantes militares. Mas a proposta abrangente que está sendo elaborada pelo Pentágono, que envolve os esforços de Boykin, se concentra em operações de inteligência militar de contraterrorismo e contraproliferação, áreas em que o diretório de operações da CIA sempre teve o papel principal.

"No momento, nós estamos buscando fornecer às forças de Operações Especiais alguma flexibilidade que a CIA tem há anos", disse um funcionário do Departamento de Defesa que falou sob a condição de anonimato, porque o plano ainda precisa ser aprovado. "Ela seria usada judiciosamente, com todos os controles de supervisão apropriados."

A proposta de Boykin renovaria os comandos militares para assegurar que os altos oficiais que planejavam e travam guerras trabalhem de forma mais estreita com os analistas de inteligência, que rastreiam ameaças como células terroristas e rebeldes. Outra parte do plano do Pentágono foi articulada em uma recente diretriz do secretário de Defesa, Donald H. Rumsfeld, que instruiu os comandantes regionais a expandirem o papel dos militares na coleta de inteligência, particularmente no rastreamento de líderes terroristas e rebeldes.

"Nós estamos falando de comandantes de combate utilizando suas forças militares em campo de uma forma mais refletida, e dispondo de um nível de consciência para obter informação importante", disse Bryan Whitman, um porta-voz do Pentágono.

Em alusões públicas ao plano, tanto Boykin quanto o vice-almirante Lowell E. Jacoby, o diretor da Agência de Inteligência da Defesa, se limitaram a generalidades que não deixaram claro o que exatamente está sendo proposto. Mas algumas autoridades de inteligência disseram acreditar que os comentários abriram o caminho para mais operações militares clandestinas visando obtenção de inteligência sobre terroristas e proliferadores de armas.

Uma ex-autoridade de inteligência questionou a utilidade dos militares empregarem mais recursos em coleta de inteligência em um momento em que já estão carentes de pessoal para lidar com a insurreição no Iraque e ameaças em outros lugares.

"Se você é um atirador, vá realizar tal função", disse a ex-autoridade de inteligência, que é contra os esforços do Pentágono de expandir seu papel na coleta de inteligência. "Mas não coloque o atirador em um terno de risca fina e o envie para Beirute para perseguir bandidos." Ele disse considerar a iniciativa dos militares como uma tentativa de avançar no território controlado pelas agências de inteligência.

Uma autoridade atual de inteligência que trabalha fora do Pentágono descreveu o relacionamento entre o Pentágono e a CIA como "mais estreito do que nunca", mas acrescentou que "a cooperação é mais forte nos locais onde é mais importante, como Iraque e Afeganistão". A autoridade disse: "Há um sentimento real de que há trabalho suficiente para todos, e a chave para ambas as agências é uma coordenação estreita e a insistência para que todos apliquem o melhor talento possível em operações de inteligência humana."

Boykin estava viajando no exterior e não estava disponível para fazer comentários nesta semana. Ao longo das duas últimas semanas, ele e seus principais assistentes recusaram repetidas vezes os pedidos de entrevista sobre este assunto.

O general forneceu uma visão geral do plano em um discurso em outubro para a Associação do Exército dos Estados Unidos, uma organização educacional sem fins lucrativos, e cópias dos slides de seu briefing estão postadas no site da entidade.

Uma breve sinopse do plano de Boykin foi fornecida por funcionários do Departamento de Defesa, assim como comentários preparados para um discurso de 15 de novembro de Jacoby.

"Nossa atual arquitetura de coleta de inteligência -otimizada para identificar e rastrear grandes forças convencionais- é inadequada para alertar contra os novos desafios de terroristas, fornecer informação suficiente sobre os grupos rebeldes, determinar a situação da capacidade de produção de armas de destruição em massa, conhecer as intenções da liderança de Estados inamistosos, ou separar amigo de inimigo quando misturados em um país estrangeiro", disse Jacoby naquele discurso.

O almirante disse que as agências de inteligência precisam dar maior ênfase à aquisição de "vigilância persistente" por meio de "coleta próxima e contínua em caso de problemas mais amplos".

Boykin, que causou controvérsia no ano passado ao dizer em comentários para grupos cristãos que os muçulmanos idolatram "um ídolo" e ao descrever a batalha contra os radicais muçulmanos como uma luta contra Satã, tem sido o principal autor da proposta, que está sendo analisada pelo Pentágono desde janeiro de 2004. Boykin responde a Stephen A. Cambone, que desde 2003 tem usado seu posto recém-criado de subsecretário de inteligência para firmar um papel no qual competia com George J. Tenet, o ex-diretor da CIA, e seus sucessores pelo controle das agências de inteligência americanas.

Entre as propostas descritas pelos funcionários do Departamento de Defesa está o plano para criação de um Comando Operacional Conjunto de Inteligência dentro do Pentágono, que daria à inteligência muito mais poder e proeminência. O comando que está sendo proposto poderia substituir a Agência de Inteligência da Defesa, disseram os funcionários do Departamento de Defesa.

Se for aprovada, a proposta de Boykin permitiria ao Pentágono ser menos dependente de outras agências de inteligência, incluindo a CIA, para suas operações, disseram altos funcionários da Defesa.

"Isto daria mais opções para os militares sobre como obter inteligência, em vez de dependerem de outras agências", disse um alto oficial militar que recebeu um briefing preliminar da proposta e falou sob a condição de anonimato.

O general-de-divisão Charles W. Thomas, um alto oficial aposentado de inteligência do Exército e que trabalhou como consultor de Boykin em seu projeto, disse que apóia as metas do general.

Mas Thomas alertou que um possível perigo em aproximar demais comandantes de batalha e oficiais de inteligência para combater um inimigo comum é o risco da inteligência se tornar tendenciosa para atender ao plano de guerra do comandante e não a realidade em terra.

Um porta-voz do Comando de Operações Especiais em Tampa, Flórida, o coronel Samuel Taylor, disse na sexta-feira que o comando foi informado sobre um esboço preliminar da iniciativa de reforma de Boykin, mas que os oficiais e altos comandantes ainda não o analisaram profundamente.

O presidente Bush ordenou no mês passado que a CIA e o Departamento de Defesa analisassem um plano que poderia expandir o papel do Pentágono em operações secretas, talvez substituindo a CIA no fornecimento de forças paramilitares para tais missões. A diretriz de Bush estabeleceu um prazo de 90 dias para a análise.

A idéia de transferir autoridade paramilitar da agência de inteligência para o Comando de Operações Especiais das forças armadas estava entre as várias recomendações proeminentes feitas pela comissão de 11 de setembro.

A proposta continua sob análise. Mas em um depoimento público em agosto, Rumsfeld e John E. McLaughlin, que na época era o chefe de inteligência, expressaram reservas sobre a idéia, e ela não foi incluída na legislação sancionada por Bush na sexta-feira. Proposta de militares reforça disputa interna com a CIA George El Khouri Andolfato

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