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21/12/2004

Êxodo rural divide famílias chinesas

The New York Times
Jim Yardley

The New York Times
Shuanghu, China - Yang Shan está na quarta série e passa algumas horas por dia praticando a inscrição de caracteres chineses. A sua escrita é firme e precisa, e um dia, ao invés de rascunhos de treinamento ela escreveu cartas aos pais e as colocou no correio.

"Como está a saúde de vocês?", perguntou ela.

A seguir, Shan, de dez anos, acrescentou mais uma pergunta: "O que está acontecendo com a nossa família?".

Os seus pais partiram em março. A ausência não foi uma novidade na vida de Shan. O pai, Yang Heqing, partiu quatro vezes para trabalhar. A mãe, Ran Heping, saiu de casa três vezes. Ela está em uma outra cidade trabalhando como operária em uma fábrica.

No decorrer dos anos, os pais de Shan retornaram a esta remota vila para trazer dinheiro e reunir a família. Eles partiram quando o dinheiro acabou, como ocorreu em março. O pai tinha dívidas devido a tratamentos de saúde e precisava de mais dinheiro para se consultar com outro médico. O pagamento das taxas escolares de Shan estava atrasado e os avós também necessitavam de ajuda.

"Creio que eles estão sofrendo a fim de tornar a minha vida melhor", diz Shan referindo-se aos pais. Ela acrescentou uma expressão chinesa familiar. "Meus pais estão comendo amargura".

Para os Yang e milhões de outros no interior chinês, a única forma de sobreviverem como família é não viverem como uma família. Trabalhadores migrantes como os pais de Shan são a força de trabalho que dirige o atordoante crescimento econômico do país. E o dinheiro que enviam para casa se tornou essencial para a desempregada China rural.

Mas até esse dinheiro não é mais suficiente. Os salários dos migrantes estagnaram, os custos com educação e saúde aumentaram, e a rede de previdência social rural entrou em colapso - uma combinação terrível que é um dos principais motivos pelos quais a desigualdade de renda está aumentando tão rapidamente na China, prejudicando os moradores pobres da zona rural.

A migração também significa que as crianças urbanas e rurais na China estão crescendo cada vez mais em mundos marcados por uma diferença gritante. Nas cidades, os casais que sobem a escala social chamam os preciosos filhos apenas de "xiao taiyang", ou "pequeno sol", em uma referência a "centro do universo". Essas crianças recebem roupas, brinquedos e lanches; a obesidade infantil é um novo problema urbano.

No interior, a nova expressão ouvida é "liu shou", ou "criança deixada para trás". Milhões de crianças como Shan estão crescendo sem um ou ambos os pais. Nas vilas muitas vezes se tem a impressão que uma geração está ausente. Os avós trabalham a terra e tomam conta das crianças.

"Somos um triângulo, três pessoas em três locais diferentes", diz Yang Heqing, 36, o pai. "A dor de sentirmos saudade uns dos outros é muito difícil de suportar. Todos os pais são iguais nesse mundo. Todos se preocupam com os filhos".

Mas os pais de Shan, sobrecarregados de dívidas e obrigações, estão entre as milhões de pessoas da China rural que se tornam prisioneiras deste círculo brutal. Estudos revelam que os custos com tratamento médico são o principal motivo para que as pessoas caiam na pobreza na China. Alguns moradores urbanos ainda contam com alguns benefícios de saúde, mas os camponeses atualmente estão sujeitos a um sistema onde os serviços são pagos. Uma doença pode significar um desastre financeiro.

Um dos motivos pelo qual Yang foi para Pequim foi a necessidade de ganhar dinheiro suficiente para um tratamento médico. Há quatro anos ele foi informado de que precisaria de tratamento para um problema na próstata, mas não podia pagar pelo serviço. Agora, a sua saúde piorou com o trabalho que faz no setor de construção civil. Ele teve que perder vários dias de trabalho e isso faz com que seja difícil juntar dinheiro para uma consulta com o médico.

A sua mulher, Ran, 33, quer visitar a filha em fevereiro para o Ano Novo Lunar, ocasião em que os trabalhadores migrantes tradicionalmente vão para casa. Mas Ran diz que a fábrica em que trabalha, em Baoding, a multará em US$ 72 - o equivalente a seis semanas de trabalho - se ela não trabalhar ininterruptamente até julho. As taxas escolares de Shan vão vencer em breve, e a família precisa de mais dinheiro.

Shan nunca deixou a sua vila na montanhosa região central da China, a algumas horas de carro da Represa de Três Gargantas, ao longo do Rio Amarelo. Ela ainda é uma criança, mas entende as pressões que incidem sobre a família e o fato de que o seu próprio futuro depende de conseguir educação escolar. Ela ficou preocupada quando a escola começou a perguntar sobre o pagamento das taxas para o próximo semestre.

"Adoro a escola", afirma. Danilo Fonseca

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