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21/12/2004

Furor na África contra droga para Aids em mulheres

The New York Times
Donald G. McNeil Jr.

The New York Times
Uma série de artigos criticando ensaios de uma importante droga contra a Aids gerou furor na África. Agora, diversos especialistas se preocupam que os países vão parar de usar a substância que impede as mães de infectarem seus bebês com o vírus da Aids.

Na semana passada, a Associated Press divulgou reportagens detalhando alegações de incompetência e fraude nos ensaios clínicos da droga, Nevirapine. Eles foram interpretados no exterior como um ataque à própria droga, que há muito faz parte do arsenal de combate ao retrovírus.

Na sexta-feira (17/12), o Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas, um braço dos Institutos Nacionais de Saúde, criticou duramente as reportagens, dizendo: "É possível que milhares de bebês sejam infectados com HIV e morram pela falta da dose única de Nevirapine de prevenção de infecção."

O autor da série, John Solomon, encaminha quaisquer perguntas ao porta-voz da Associated Press, que disse: "Quando descobrimos informações que acreditamos serem importantes para as pessoas, investigamos o assunto detalhadamente e escrevemos a respeito."

Os artigos se basearam em documentos divulgados por um especialista em ensaios clínicos que está sendo ameaçado de demissão pelos Institutos Nacionais de Saúde. Estes aprovaram um teste da Nevirapine em Uganda, nos anos 90, e contrataram o especialista Jonathan Fishbein em 2003 para reavaliar sua segurança. Fishbein disse que considerou o teste deficiente, que membros do departamento encobriram suas falhas e que era sua obrigação revelar tal fraude.

O porta-voz dos institutos admitiu que o ensaio foi mal catalogado, mas disse que ainda assim mostrava que a droga Nevirapine era segura e que ensaios subseqüentes em outros países o confirmaram.

Na sexta-feira, o partido que governa a África do Sul, o Congresso Nacional Africano, citando os artigos da AP, acusaram as "altas autoridades americanas" de usarem africanos como cobaias e conspirarem com executivos farmacêuticos para "promover mentiras e as vendas da Nevirapine na África."

Zackie Achmat, ativista de Aids da África do Sul, disse que a reação do governo estava tendo "um sério impacto" no trabalho, que estava de volta a estaca zero.

Na quinta-feira, o reverendo Jesse Jackson chamou a decisão do governo Bush de 2002 de subscrever o uso da Nevirapine na África de "um crime contra a humanidade".

No entanto, grupos que tratam de pacientes de Aids na África, inclusive a Fundação Elizabeth Glaser de Aids Pediátrica e Médicos Sem Fronteiras, expressaram alarme diante da perspectiva de uma reação à Nevirapine.

Eles admitiram que o uso de longo prazo da droga tinha riscos, como dermatites e falência hepática, mas disse que os sintomas são conhecidos há anos, e que o uso de curto prazo era muitas vezes a única forma de salvar a vida do bebê. "A verdade sobre a Nevirapine está sendo exagerada", disse Rachel Cohen, especialista em remédios dos Médicos Sem Fronteiras, grupo que trata de cerca de 23.000 africanos com HIV e Aids.

A maior parte das 38 milhões de pessoas infectadas com o HIV no mundo todo vive em países muito pobres. Mais da metade são mulheres, a maior parte em idade fértil.

A Nevirapine, vendida nos EUA sob o nome de Viramune, foi aprovada pelo Departamento de Alimentos e Drogas (FDA) em 1996 e é amplamente utilizada nos coquetéis de terapia tripla que a maior parte dos pacientes toma.

No entanto, na África, as mulheres muitas vezes procuram o médico apenas pouco antes do parto e frequentemente têm Aids avançada, observou Cohen. Nesses casos, é tarde demais para fazer algo a respeito, a não ser dar uma dose de Nevirapine à mãe e uma ao recém nascido, o que corta a chance de infecção em quase 50%. As duas doses custam apenas US$ 5 (cerca de R$ 15).

Estudos recentes indicam que uma mãe que toma uma dose de nevirapine tem maior chance de desenvolver uma variante do HIV resistente a drogas, o que dificulta o seu tratamento.

Por esta razão, a Organização Mundial de Saúde prefere administrar seis semanas de AZT e Nevirapine "quando possível", mas isso custa cerca de US$ 40 (aproximadamente R$ 120), então a dose única ainda é usada quando é a única chance de impedir a infecção do bebê.

A série de artigos da Associated Press começou no dia 12 de dezembro, descrevendo uma discussão dentro dos Institutos Nacionais de Saúde sobre a organização dos dados de Uganda. Um segundo artigo descreveu a morte de uma mulher em um ensaio clínico no Tennessee, quando um hospital lhe deu Nevirapine demais. Especialistas temem que os países vão parar de usar a substância Deborah Weinberg

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