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21/12/2004

Iraquianos ainda não são capazes de subjugar os rebeldes, diz Bush

The New York Times
David E. Sanger e Richard W. Stevenson

The New York Times
O presidente Bush reconheceu na segunda-feira que, 20 meses após a queda de Saddam Hussein, os Estados Unidos obtiveram apenas sucessos "dúbios" no treinamento de tropas iraquianas para proteção do país, e disse ter sido "inaceitável" algumas unidades iraquianas terem fugido assim que enfrentaram fogo hostil.

Faltando seis semanas para as primeiras eleições no Iraque, as críticas públicas de Bush à atuação dos iraquianos refletem a crescente preocupação, expressada pela Casa Branca, pelo Pentágono e Capitólio, de que a estratégia para treinamento de 125 mil soldados iraquianos para proteção do país está fracassando.

No domingo, o senador John W. Warner, republicano da Virgínia e presidente do Comitê de Serviços Armados, disse que uma recente viagem ao país o convenceu de que as forças iraquianas eram de "baixo nível" e ainda não contavam com liderança eficaz.

Vários outros republicanos, e muitos democratas, têm criticado muito o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, por sua condução da guerra e pela forma como lidou com o questionamento pelos soldados há duas semanas, sobre a ausência de blindagem eficaz para protegê-los dos explosivos improvisados. Mas Bush usou sua coletiva de imprensa para expressar sua confiança em seu secretário de Defesa. "Eu conheço o coração do secretário Rumsfeld", disse Bush. "Por trás do comportamento duro e mal-humorado, está um ser humano bom que se preocupa profundamente com as forças armadas e profundamente com o pesar que a guerra causa."

Em sua coletiva de imprensa no Eisenhower Executive Office Building, na manhã de segunda-feira, supostamente sua última antes de partir para férias em Camp David e depois em seu rancho no Texas, Bush não se esforçou para contestar a avaliação feita por Warner das forças de segurança iraquianas. Ele disse que em uma reunião na semana passada com dois líderes militares encarregados de 140 mil soldados americanos no Iraque, o general John P. Abizaid e o general George W. Casey Jr., ele soube que o problema vai além de falhas de treinamento.

"Eles contam com alguns generais e com soldados, mas toda a estrutura de comando necessária para dispor de forças armadas viáveis não existe", disse Bush. "E assim eles terão que dedicar muito tempo e esforço para atingir tal objetivo."

Ele também reconheceu que "não há dúvida de que os atentados à bomba estão surtindo efeito" em semear o terror entre os iraquianos, dizendo que eles estavam tentando abalar a vontade dos iraquianos e dos americanos, que assistem as cenas da carnificina resultante em seus aparelhos de TV quase toda noite. "Carros-bomba que destroem crianças pequenas ou carros-bomba que explodem indiscriminadamente locais religiosos são instrumentos de propaganda eficazes", disse ele.

Todavia, Bush disse que não permitirá que a continuidade da violência o afaste de sua meta declarada de levar a democracia ao Iraque, declarando que "nós devemos atingir o objetivo, que é ajudar os iraquianos a se defenderem, e ao mesmo tempo promover o avanço do processo político".

Reunidos, os comentários de Bush representaram seu maior reconhecimento de que a reconstrução das forças de segurança do Iraque, uma tarefa central na reconstrução do país, está enfrentando sérias dificuldades -problemas que ele evitou discutir durante sua campanha para reeleição.

Os números divulgados pelo governo contam por si só uma história de um programa de treinamento que desacelerou até parar. A avaliação semanal do Departamento de Estado das forças de segurança iraquianas mostra que o número de soldados recém-treinados está estagnado desde o início de novembro em cerca de 114 mil, e que cada vez mais destes soldados estão sendo canalizados para a polícia, para tentar restaurar a ordem nas ruas das principais cidades.

Funcionários do governo reconheceram ser uma medida de quão ruim a situação se tornou o fato de um assassino fotografado enquanto matava dois funcionários eleitorais no domingo, em uma rua de Bagdá, nem mesmo ter sentido a necessidade de cobrir seu rosto.

Ao ser perguntado sobre o fato do presidente da Rússia, Vladimir V. Putin, estar se afastando da democracia, Bush claramente deixou passar a oportunidade de criticar Putin pela repressão às liberdades civis e pela centralização do poder. Apesar de Putin ser alvo de fortes críticas por parte dos assessores de Bush, com alguns até mesmo mudando suas impressões anteriormente favoráveis sobre suas intenções, Bush se esquivou do assunto, lembrando aos repórteres que "Vladimir Putin e eu temos um bom relacionamento".

"É importante para a Rússia e para os Estados Unidos terem um relacionamento no qual se discordarmos das decisões, nós possamos fazê-lo de forma amistosa e positiva", disse ele.

Bush também se recusou a declarar sua posição em um debate interno do próprio governo sobre se os Estados Unidos devem promover uma mudança de liderança na Coréia do Norte e no Irã. Ele disse novamente que "a diplomacia deve ser a primeira opção" para solução dos impasses nucleares com ambos os países.

Mas ele reconheceu que no caso do Irã "estamos dependendo de outros, porque nós nos afastamos da influência no Irã".

A questão do treinamento dos iraquianos não é nova para Bush, mas é uma que ele tem relutado em abordar publicamente. Em setembro, falando no Jardim das Rosas com o primeiro-ministro do Iraque, Ayad Allawi, ele falou sobre o treinamento de 125 mil soldados até o final do ano. Mas os números continuam relativamente baixos, notou Barak A. Salmoni, que estudou o processo de treinamento na Escola Naval de Pós-graduação em Monterey, Califórnia. "Ocorreram algumas melhorias nos últimos meses que valem ser estudadas e copiadas", disse ele. "Mas os números tendem a refletir quem está na folha de pagamento, não quem aparece no dia seguinte, ou quem está pronto para lutar."

Mesmo enquanto se defendia das perguntas sobre política externa, Bush reiterava sua intenção de promover uma série de iniciativas domésticas a partir de janeiro.

O presidente sinalizou a intenção de revelar mais detalhes nos próximos meses sobre sua abordagem para o Seguro Social, dizendo que proporá uma "solução no momento apropriado". Mas se esquivou de repetidas perguntas sobre quais seriam estes detalhes.

Bush tem pedido pela adição de contas pessoais de investimento ao Seguro Social, mas não especificou que outros passos apoiaria para tratar dos problemas de financiamento do sistema de aposentadoria. Quando perguntado pelo motivo de não comentar em público a probabilidade de que qualquer plano exigiria passos dolorosos como reduções de benefícios, Bush reconheceu que lidar com a questão "exige escolhas difíceis".

O presidente também deixou claro que pretende prosseguir com sua proposta para mudar algumas das leis de imigração do país, apesar da oposição considerável dos republicanos conservadores no Congresso. Seu plano concederia a alguns imigrantes ilegais o direito de trabalhar nos Estados Unidos, em trabalhos não desejados por americanos, mas sem lhes conceder cidadania e eventualmente exigindo o retorno deles aos seus países de origem.

Bush prometeu cumprir sua promessa de reduzir o déficit público pela metade em cinco anos. Funcionários do governo disseram que a promessa significaria reduzir pela metade as projeções de US$ 521 bilhões que a Casa Branca disse que atingiria no último ano fiscal, encerrado em 30 de setembro. O déficit nunca chegou de fato a tal número, atingindo US$ 413 bilhões no ano.

Um grupo de importantes democratas no Capitólio desafiou imediatamente Bush a incluir no orçamento que apresentará ao Congresso, em fevereiro, os custos das operações militares em andamento no Iraque e no Afeganistão, uma categoria de gastos que a Casa Branca deixou de fora do orçamento no passado.

Devolver o orçamento aos trilhos "precisa começar com uma estimativa realista do déficit, e nenhuma estimativa é realista se ela omite os enormes custos de nossos esforços no Iraque e no Afeganistão", disseram os líderes democratas dos comitês de Serviços Armados e Orçamento da Câmara e do Senado, em uma carta para Bush. George El Khouri Andolfato

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