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22/12/2004

Americanos estão frustrados com situação no Iraque

The New York Times
Kirk Johnson

The New York Times
Americanos de todo o país expressaram aflição com o ataque devastador contra uma base militar americana no Iraque, na terça-feira. Mas a dúvida sobre que caminho o país deve seguir a partir de agora produziu o maior suspiro de Dallas Spear, um funcionário do setor de petróleo e gás de Denver.

"Para começar, eu nunca teria ido para lá, mas isto não vem ao caso agora", disse Spear, com a mandíbula cerrada. "Nossos planos foram para o brejo, mas agora não temos muita escolha. Nós temos que seguir em frente."

O sentimento de Spear foi repetido em entrevistas realizadas na terça-feira em shopping centers, escritórios, calçadas e lares em um dia em que as notícias vindas do Iraque eram desoladoras. Com a morte de pelo menos 14 soldados americanos e dezenas de feridos, este foi um dos piores dias em número de baixas para os americanos desde que as forças americanas derrotaram o governo de Saddam Hussein na primavera de 2003.

Muitas pessoas disseram estar desanimadas ou furiosas, mas muitas expressaram igual descontentamento com a aparente falta de opções. Muitas disseram ser irrelevante se uma pessoa apoiou ou não a invasão -agora só há a estrada adiante, com poucos sinais para orientar o caminho.

Um soldado que esteve no Iraque e que voltará em breve disse acreditar que a guerra mudou, e que os ataques de guerrilha como o ocorrido na terça-feira na cidade de Mosul, no Norte do Iraque, ofuscaram a visão em terra sobre como prosseguir.

"Quando fomos para a guerra havia um inimigo claro", disse Richard P. Basilio, 27 anos, um morador da Filadélfia que partirá para o Iraque após as festas, para servir por 12 a 18 meses como técnico de computador do Exército. Será sua terceira estadia no Oriente Médio e a segunda no Iraque. "Agora as regras mudaram totalmente. Você não sabe o que está acontecendo", acrescentou Basilio. "Você não tem idéia de quem é seu amigo e quem é seu inimigo."

A mãe de Basilio, Janet Bellows, que mora em Daytona Beach, Flórida, disse que o atentado a bomba em Mosul, combinado com a perspectiva de partida de seu filho, a deixou "absolutamente devastada".

"É como assistir seu filho correndo no meio do trânsito, e não há nada que você possa fazer", disse Bellows. "Você não tem como alcançá-lo."

Pesquisas mostram que muitos americanos estavam profundamente preocupados com o curso da guerra antes mesmo do ataque de terça-feira. Dos 1.002 americanos entrevistados na última sexta-feira e sábado pela pesquisa CNN/USA Today/Gallup, quando perguntados sobre como os Estados Unidos conduziram a situação no Iraque durante o ano passado, 47% disseram que as coisas pioraram. 20% disseram que a situação melhorou e 32% disseram que nada mudou.

Algumas pessoas disseram que as próprias pesquisas eram parte do problema.

Charlie Eubanks, um produtor de algodão e advogado do Vale do Baixo Rio Grande, Texas, disse que apóia o presidente Bush mas que não tinha muita convicção em ir à guerra. Agora ele disse que não há escolha a não ser lutar, e que as notícias sobre pesquisas de opinião estavam apenas "ajudando e incitando" o inimigo, ao fazer os oponentes pensarem que a vontade americana é fraca.

"Nós temos que permanecer lá e cumprir a missão", disse Eubanks.

Algumas pessoas disseram que parte do que enfrentam agora é a luta para conciliar a violência que está transcorrendo com suas crenças sobre a natureza humana e a decência.

"Como lidar com os rebeldes e a insurreição -eu não sei. Mas eu acredito que as pessoas são inerentemente boas e racionais", disse Traci Sillick, uma consultora financeira que vive em Broomfield, Colorado. Sillick disse achar que o país deve proteger os soldados, dar a eles uma missão clara e então ajudar o povo iraquiano da melhor forma possível.

"Eu ainda não vejo nada de bom vindo disto", disse ela. "Estou triste e enfurecida."

Mike Lepis, 30 anos, um proprietário de um pequeno negócio de Portland, Oregon, em visita a Atlanta, disse que o atentado reforçou a distinção em sua mente entre os soldados que estão travando a guerra e a guerra em si.

"Eu não concordo com a guerra, mas eu apóio os soldados", disse ele. "Isto me leva a acreditar que temos menos controle quando não podemos garantir a segurança deles. É particularmente perturbador quando você ouve sobre violência em áreas que supostamente deveriam ser seguras."

Carolyn Jolly, 50 anos, uma funcionária civil do Exército no Forte Lee, Virgínia, disse que o ataque não mudou sua opinião sobre o envio das forças americanas para o Iraque. Mas ela é igualmente firme em sua crença, ela disse, de que elas devem sair de lá o mais rápido possível. Ela está preocupada.

"Eu acho que devemos ficar até as eleições", disse Jolly. "Eu apóio o plano do presidente até lá. Mas se vamos nos concentrar no Iraque sem o apoio de outros países, eu vejo um aumento da violência. Eu não consigo ver um Iraque democrático. Então, o que estamos fazendo lá?"

Ernesto Abrego, um bombeiro de Harlingen, uma cidade no sul do Texas, estava almoçando com sua companhia no posto do corpo de bombeiros quando assistiram pela televisão a notícia do atentado. O sentimento na mesa, disse ele, se tornou "muito sombrio".

"Não é bom", disse Abrego. "Nós temos que defender nosso país, é claro, mas é preciso se perguntar se isto é realmente necessário. Nós estamos perdendo diariamente muitos jovens."

Um militar veterano, Bob Mayo, 73 anos, que serviu na Força Aérea de 1949 a 1957, disse achar que o aumento da violência no Iraque é apenas um sinal de desespero dos inimigos do país.

"Isto me diz que eles temem que vão perder", disse Mayo, de Newcastle, Colorado. "Eles apenas estão tentando tornar isto o mais doloroso possível e não se importam em como vão fazê-lo."

Mayo disse que não caracterizaria a situação no Iraque como piorando. "Não há pior em uma guerra", disse ele. "A guerra é a pior coisa que pode acontecer."

Outro militar veterano que se tornou ativo na campanha contra a guerra, disse que a mensagem do ataque de terça-feira não é de desespero, mas de maior organização por parte dos rebeldes.

"É como no Vietnã: quanto mais permanecermos lá, maior será o sentimento antiamericano e mais organizada se tornará a insurreição", disse Mike Hoffman, coordenador nacional dos Veteranos do Iraque Contra a Guerra e um ex-cabo interino marine que esteve no Iraque de março até o início de maio de 2003. "Infelizmente, quanto mais permanecemos lá, mais chance teremos de ver ataques como este", disse ele. Pessoas não vêem saída para a situação no país invadido George El Khouri Andolfato

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