UOL Notícias Internacional
 

22/12/2004

EUA reduzem doações a programas mundiais de alimentos

The New York Times
Elizabeth Becker

The New York Times
Em um dos primeiros sinais dos efeitos do arrocho cada vez maior sobre o orçamento federal, nos últimos dois meses o governo Bush reduziu as suas contribuições para os programas globais de alimentos destinados a ajudar milhões de pessoas a superarem a pobreza.

Com o aumento do déficit orçamentário e a promessa do presidente Bush de reduzir os gastos, o governo disse a representantes de várias organizações filantrópicas que é incapaz de honrar promessas feitas anteriormente e que só contará com dinheiro para pagar o custo de alimentos em crises emergenciais como aquela em Darfur, no oeste do Sudão. As reduções, estimadas por algumas organizações como sendo de US$ 100 milhões, ocorrem no momento em que o número de famintos no mundo aumenta pela primeira vez em anos, e quando todos os programas de auxílio alimentar estão sobrecarregados.

Como resultado a Save Our Children, o Catholic Relief Services e outras organizações do gênero suspenderam ou eliminaram programas cuja intenção era ajudar os pobres por meio de melhoras das técnicas agrícolas, educação e saúde.

"Temos cerca de cinco a sete milhões de pessoas que foram afetadas por esses cortes", lamenta Lisa Kuennen, especialista em alimentos do Catholic Relief Services. "Tivemos aprovação para todos esses programas, muitas vezes com um ano de antecedência. Contratamos equipes, assinamos acordos com governos e com parceiros locais, e agora temos que adiar tudo".

Kuennen diz que o Catholic Relief Services teve que cortar programas na Indonésia, em Maláui e em Madagascar, entre outros países.

Funcionários de várias fundações filantrópicas, alguns congressistas republicanos e funcionários do governo dizem que o orçamento para auxílio alimentar para o ano fiscal que teve início em 1º de outubro último foi pelo menos US$ 600 milhões menor do que aquilo de que essas fundações e agências de auxílio humanitário precisariam para levarem a cabo os seus atuais programas.

"Estamos todos em uma encruzilhada, lutando contra um arrocho orçamentário, mas o problema é que não temos verbas suficientes para continuar operando", diz Ina Schonberg, diretora de programas de segurança alimentar para a organização Save the Children. Ela disse que os cortes tiveram maior impacto para a sua agência no Tadjiquistão e na Nicarágua.

Ellen Levinson, chefe da organização Food Aid Coalition, diz que as melhores estimativas quanto à quantidade de alimentos que não foi disponibilizada em novembro e dezembro chegam "a pelo menos US$ 100 milhões".

O governo diz que os recentes cortes foram motivados pela grande demanda causada pelas crises de alimentos deste ano, especialmente na África, e pelo longo adiamento da aprovação de um orçamento.

Chad Kolton, porta-voz do Departamento de Gerenciamento e Orçamento, diz que a administração "reconheceu a necessidade de recursos adicionais" para auxílio alimentar, mas disse que não tem como assegurar se mais programas sofrerão cortes no ano que vem. "A vasta maioria de recursos disponíveis será destinada a auxílio alimentar de emergência", afirma.

Quanto aos outros programas que foram cortados, ele diz: "Vamos examinar certas coisas, como a importância do programa e se ele é capaz de produzir resultados".

Um funcionário do governo envolvido com o auxílio alimentar disse estar preocupado, pois acha que conferir prioridade tão alta ao auxílio de emergência pode ser uma tática guiada por uma visão estreita. A melhor forma de evitar crises de fome é ajudar os países pobres a se tornarem auto-suficientes com dinheiro e alimentos agora, diz o funcionário, que pediu que o seu nome não fosse revelado. "O fato é que os programas de desenvolvimentos estão tendo as verbas reduzidas e não sei se o governo vai compensar essa redução financeira", disse o funcionário.

Em uma reunião privada com instituições filantrópicas no mês passado, Lauren Landis, a diretora do programa Food for Peace da Agência para o Desenvolvimento Internacional, advertiu que o seu orçamento para auxílio alimentar ficou menor nos últimos anos e que os custos maiores para a compra e transporte de material representaram "um desafio significante", segundo as minutas da reunião. Ela também alertou que o Departamento de Gerenciamento e Orçamento tem pressionado a sua agência para "reduzir os gastos com programas de desenvolvimento, e essa tem sido uma mensagem consistente no último ano".

Vários membros republicanos e democratas do Congresso estão se juntando a militantes dos programas de auxílio alimentar para convencer o governo de que esse tipo de auxílio não deveria ser cortado.

No mês passado, a deputada Jo Ann Emerson, republicana de Missouri, liderou uma iniciativa com mais de 30 outros legisladores que convenceram o governo a liberar 200 mil toneladas de grãos para auxílio alimentar emergencial ao Sudão.

Agora ela está fazendo lobby junto ao governo para que este financie programas de auxílio alimentar estrangeiros de forma integral e para que, se possível, aumente as verbas destinadas a esses programas. "Não estou dizendo que o presidente se opõe a isso, mas precisamos de uma indicação do que vai ocorrer", diz Emerson, que frisou que a sua iniciativa é bipartidária.

Ela disse ainda que a Europa deveria aumentar o seu auxílio alimentar e aliviar parte da pressão sobre os Estados Unidos, que são de longe o maior doador aos programas de alimentos da ONU, contribuindo com quase a metade do total.

Para complicar ainda mais a questão dos programas de auxílio há um debate na Organização Mundial de Comércio que gira em torno da preocupação com a possibilidade de os Estados Unidos terem usado o auxilio alimentar para despejarem excesso de produção em países estrangeiros onde esse suprimento prejudicou os lucros dos agricultores locais. Cortes ocorrem quando número de famintos no mundo aumenta Danilo Fonseca

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