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22/12/2004

Exercício em estoque nuclear gera temores

The New York Times
Matthew L. Wald

The New York Times
Oak Ridge, Tennessee - Antes do amanhecer de 2 de setembro, na instalação que abriga o estoque de urânio altamente enriquecido do país, guardas usando roupa blindada e portando submetralhadoras carregadas foram enviados para interceptar um grupo de homens que aparentemente causou o disparo de um alarme que acusa invasões ao local. Mas o grupo alvo era uma outra equipe de guardas, que conduzia um ataque simulado com armas de treinamento a laser.

Os guardas armados, uma "força sombra" mantida na reserva durante tais exercícios, se movimentaram através da escuridão, prontos, segundo pessoas envolvidas na operação, para atirarem em um grupo que eles acreditavam ser composto de intrusos de verdade.

Segundo especialistas em segurança, praticamente não se ouve falar em tais exercícios, e se este tivesse provocado um tiroteio, o incidente teria acabado com as condições para se realizar tais treinamentos, uma ferramenta crucial para se determinar se a instalação é defendida de forma adequada. A instalação, denominada Y-12, pertence ao Departamento de Energia, mas é defendida por uma empreiteira, a Wackenhut.

"Durante dois minutos, houve uma confusão maciça", disse um dos guardas de serviço à noite. "As pessoas perguntavam a todo momento se era um exercício, mas ninguém esclarecia as coisas".

Ele e outro guarda envolvido no incidente concordaram em falar somente sob a condição de ficarem no anonimato, afirmando que foram ameaçados de demissão caso falassem a pessoas de fora sobre o que aconteceu.

O incidente não foi o único exercício problemático na instalação, conhecida como Y-12, que faz parte do complexo de Oak Ridge, próximo a Knoxville. Em janeiro, o inspetor-geral do Departamento de Energia relatou que durante um exercício similar na fábrica de armas em 2003, a equipe que fazia o papel da equipe de defesa se saiu inesperadamente bem. Segundo o inspetor-geral, o motivo foi que os defensores pareceram ter sido informados antecipadamente sobre os planos de ataque, incluindo qual prédio seria atacado e se uma tática de distração seria utilizada.

Os resultados foram "contaminados e não são confiáveis", descobriu o inspetor-geral.

O funcionário do Departamento de Energia que comanda o local, William Brumley, e um funcionário da Wackenhut, Martin Anderson, disseram que nenhum dos problemas foi sério. Ambos afirmaram que ninguém correu perigo no incidente de 2 de setembro, embora Anderson diga que a confusão elevou o nível de ansiedade e que a comunicação naquela noite poderia ter sido mais efetiva.

Segundo Brumley, segurança aqui não se trata apenas de manter os intrusos fora. Os técnicos ainda mantêm no local ogivas nucleares, e a segurança diz respeito a garantir que nenhuma delas será roubada.

A ameaça de intrusão não se limita a roubos. Um terrorista suicida que tivesse acesso ao urânio daqui poderia ser capaz de transformá-lo em poucos minutos em um explosivo nuclear, e de detoná-lo no local, dizem os especialistas.

Embora a Y-12 seja uma fábrica de armamentos, o incidente durante o exercício pode ter implicações para a indústria nuclear civil. No início deste ano a associação de comércio que representa os operadores do setor de energia contratou a Wackenhut para auxiliar a conduzir exercícios similares do tipo "força contra força" em 63 usinas nucleares. A Comissão Reguladora de Energia aprovou o contrato na esperança de que a Wackenhut trouxesse técnicas novas para os exercícios, que no passado variaram bastante quanto ao local.

A Wackenhut fornece a segurança em cerca de metade dessas instalações. Durante os exercícios de segurança na Y-12, a instalação fica vulnerável porque metade das pessoas que deles participam usa armas a laser, e não armamentos reais, e ficam distraídos pelo exercício.

Um outro guarda que participou no exercício de 2 de setembro disse que, a partir das conversas no rádio, os guardas concluíram que "era hora de lutar". Uma terceira pessoa envolvida na operação daquela noite, aparentemente um guarda ou um supervisor, enviou uma carta anônima para o diretor de segurança do sindicato afirmando que o erro que fez com que guardas armados saíssem atrás de colegas desarmados foi "quase uma tragédia fatal", já que os guardas poderiam ter visto os participantes que disparavam armas a laser, que são feitas a partir de armas reis, e decidido atirar contra eles. Conforme foram treinados, os guardas chegaram ao local do alarme vindos de duas direções.

Os dois guardas que concordaram em falar sobre o evento de 2 de setembro disseram ter ouvido a pessoa que deu o alarme usar o termo "suspeitos armados" no rádio, mas, segundo diretores da Wackenhut e do Departamento de Energia, as palavras usadas foram "Tem gente na área". A carta anônima se referiu a quatro adversários armados.

Um funcionário do sindicato dos guardas disse que investigadores do escritório do inspetor-geral começaram recentemente a questionar os guardas sobre os seus treinamentos, para determinar se a Wackenhut forneceu todo o treinamento que disse ao governo que forneceria. Alguns guardas dizem que o seu período reservado à prática de tiro e ao condicionamento físico foi reduzido. Um deles disse que os relatórios que os investigadores lhe mostraram indicam que ele passou por exercícios com arma de fogo que na realidade nunca existiram.

O escritório do inspetor-geral anunciou que não faria comentários, e um funcionário da Wackenhut informou não estar sabendo da investigação, embora dissesse que o governo às vezes examina relatórios de treinamento.

O contrato da Wackenhut deveria expirar em 31 de dezembro mas foi prorrogado por três meses enquanto os funcionários do Departamento de Energia decidem se ele será renovado por mais alguns anos, os se o contingente de guardas deverá ser integrado ao quadro principal de funcionários.

Brumley, o administrador da Y-12, diz que a aglutinação dos guardas e do corpo de funcionários poderia ajudar na tarefa de controlar os materiais quando estes são transportados dentro da instalação. Os funcionários passam por detectores de metal quando entram e quando saem. Além disso, é feito o monitoramento de quantidades ínfimas de urânio, diz ele. Segurança de estoque de urânio é posta em dúvida Danilo Fonseca

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