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24/12/2004

Computador ajuda a revelar quadros falsificados

The New York Times
Anne Eisenberg

The New York Times
Os historiadores da arte há muito utilizam instrumentos científicos para ajudá-los a decidir se desenhos ou pinturas são verdadeiros ou falsos. Eles contam os isótopos em quadros feitos com tintas a base de chumbo para descobrir anacronismos ou aplicam raios-x e radiação infravermelha sobre pinturas a óleo para descobrir o que há por baixo da tinta.

Agora pesquisadores do Dartmouth College criaram uma ferramenta investigativa apropriada à era digital: eles alimentaram um computador com trabalhos artísticos escaneados digitalmente, e a seguir utilizaram técnicas de processamento de imagem para criar estatísticas descritivas dos movimentos de lápis e pincel.

Como um especialista em arte - uma mistura de Bernard Berenson e HAL - o computador faz uma análise que detecta diferenças sutis nessas pinceladas, que poderão ajudar a distinguir um artista de um imitador.

Primeiro os cientistas experimentaram a sua técnica computacional em pinturas de Pieter Bruegel, o Velho, o mestre flamengo, para determinar se o computador seria capaz de distinguir entre os cenários comprovadamente criados por Bruegel e aqueles considerados falsificações. A seguir eles examinaram o quadro "Madona com o Menino", uma pintura da renascença italiana atribuída a Perugino, onde além de Maria e Jesus podem ser vistos quatro santos. Eles esperavam determinar se apenas um par de mãos criou a obra, ou se, conforme acreditam alguns historiadores, Perugino deixou que parte dela fosse feita por seus alunos.

O programa de computador concordou com os especialistas em Bruegel, agrupando oito obras atribuídas ao pintor flamengo em uma categoria e colocando as imitações em um grupo separado. Já a análise das pinceladas no quadro de Perugino sugeriu que quatro pessoas contribuíram para a obra, o que está de acordo com o ponto de vista de alguns historiadores da arte.

David Donoho, estatístico e professor da Universidade Stanford, diz que embora o software tenha se saído razoavelmente bem na sua estréia, os pesquisadores ainda têm um longo caminho pela frente. Ele lembra que o método foi usado em apenas umas poucas obras de arte. "É um primeiro passo, mas um passo promissor", afirma.

Mas alguns historiadores da arte dizem que essa tecnologia não leva em conta fatores como a habilidade técnica de um artista.

"Foi solicitado ao computador que este analisasse apenas uns poucos aspectos da pintura", diz Laurence Kanter, especialista em arte renascentista e curador da Coleção Robert Lehman do Metropolitan Museum of Art, em Nova York. "E ficaram de fora aspectos fundamentais, como a maneira segundo a qual as cores foram aplicadas e misturadas".

Um artigo escrito pelos pesquisadores foi publicado em uma edição deste mês da revista científica "Proceedings of the National Academy of Sciences". Um dos seus autores, Daniel Rockmore, matemático e professor do Dartmouth College, disse que o projeto teve início quando ele viu uma exposição de Bruegel em 2001 no Metropolitan Museum of Art com a curadora da mostra, Nadine Orenstein, uma especialista em Bruegel do museu nova-iorquino. A exposição exibiu obras genuínas e falsas de Bruegel em um mesmo espaço. Enquanto observava as pinturas, Rockmore ficou pensando se um computador seria capaz de fazer aquilo que os especialistas fizeram: identificar as pinturas verdadeiras.

"Há um longo histórico de pinturas atribuídas a Bruegel que sabemos não terem sido feitas por ele", afirma. "Me ocorreu que talvez a matemática do processamento moderno de imagens digitais também pudesse identificar os quadros falsos, especialmente se fosse utilizada a matemática das pequenas ondas".

"Esse tipo de matemática é bom para determinar as características de linhas e curvas, ou linhas e curvas irregulares", explica. "Achei que tal análise poderia ser perfeita para discernir os traços e sombras característicos de Bruegel".

Para realizar a análise, Rockmore colaborou com um colega e co-autor do artigo, Hany Farid, professor do Departamento de Ciência da Computação do Dartmouth College, que possui longa experiência em caracterizar imagens por meio de estatística baseada na matemática das pequenas ondas. Farid vinha trabalhando particularmente com algoritmos computacionais para determinar quando uma imagem digital foi falsificada.

"Eu já me dedicava a estudar as propriedades estatísticas das imagens", conta Farid.

Orenstein emprestou ao grupo os seus slides da exposição de Bruegel, e a equipe, integrada por Siwei Lyu, um estudante de pós-graduação, começou a trabalhar. "No arquivo de dados resultante, todos os pontos representando os Bruegels verdadeiros foram agrupados juntos e todos os relativos aos falsos Bruegels ficaram de fora do grupo", conta Rockmore.

"Certamente não é um trabalho definitivo", afirma. "Mas é surpreendente constatar que a matemática pode distinguir diferenças que somente os especialistas conseguem ver".

A seguir os pesquisadores voltaram as suas atenções para o Perugino. "Atualmente, a ciência investigativa é incapaz de determinar quantas mãos realmente fizeram uma pintura", diz Farid. "Mas quem estiver comprando um Rafael em um leilão vai desejar saber que percentagem do quadro foi realmente pintada pelo mestre renascentista".

Segundo Orenstein, a especialista em Bruegel do Metropolitan, serão necessárias muitas outras experiências do gênero até que os historiadores da arte possam levar o trabalho a sério. "O computador precisaria se basear em um enorme banco de dados para cada artista", diz ela. "Serão necessárias décadas até que eles tenham uma máquina confiável capaz de ser utilizada nos leilões de arte".

Orenstein e Kanter dizem que Rembrandt seria um bom candidato caso os pesquisadores decidissem reunir dados sobre uma grande quantidade de obras de arte. "Há muita discussão em torno do seu trabalho, e muitos estudantes da sua obra", observa Orenstein. Software analisa pinceladas e técnica de autores famosos Danilo Fonseca

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