UOL Notícias Internacional
 

24/12/2004

Habitantes voltam a poder entrar em Fallujah

The New York Times
Erik Eckholm e Eric Schmitt

The New York Times
Na quinta-feira, o primeiro grupo de moradores deslocados foi autorizado a voltar para Fallujah, uma cidade destruída pela guerra, para inspecionar suas casas, mesmo enquanto marines americanos e aviões de guerra travavam uma batalha feroz com rebeldes em outro canto da cidade, aparentemente deixando três marines mortos.

Este foi o começo oficial do retorno dos moradores a Fallujah, a ex-fortaleza rebelde que foi conquistada quarteirão por sangrento quarteirão no mês passado, a deixando uma virtual cidade fantasma, com muitos lares danificados, esgoto correndo pelas ruas e instalações de água e luz destruídas.

Mas foi um primeiro passo cuidadoso, quanto muito, para repovoação de uma cidade que antes abrigava 250 mil pessoas. Cerca de 900 delas, quase todos homens e todos de um único bairro no noroeste da cidade, Andalus, reentraram na cidade por poucas horas para ver a condição de seus lares e decidir se querem trazer suas famílias de volta, segundo oficiais marines no local.

As privações que as famílias que retornarem enfrentarão são significativas. Com as instalações de tratamento de água e sistemas de distribuição praticamente destruídos, os oficiais construíram 24 tanques de água temporários. Eles darão latas de água para aqueles que retornarem, que terão de enchê-las à mão.

Os moradores também receberão ajuda de alimentos, e querosene para alimentar geradores para luz. Cada família que retornar receberá o equivalente a poucas centenas de dólares. As famílias cujas casas foram destruídas receberão o equivalente a US$10 mil em moeda iraquiana.

Em um esforço para manter os rebeldes de fora, ou rastreá-los mais facilmente, todos os homens em idade militar que retornarem serão submetidos a procedimentos de identificação computadorizados: suas retinas e impressões digitais serão escaneadas, e terão que carregar tal informação em crachás pessoais que passarão por máquinas nas barreiras. Os procedimentos foram iniciados com muitos dos homens que se aventuraram a voltar na quinta-feira.

O governo iraquiano prometeu ousadamente acelerar a recuperação de Fallujah, esperando que seus moradores, a maioria sunitas, possam ser persuadidos a votar -em sua cidade- nas eleições nacionais de 30 de janeiro. A meta é atrair mais sunitas a um processo político que muitos têm desprezado.

Oficiais americanos, citando grandes danos físicos assim como ocorrências contínuas de combate, alertaram que ainda serão necessários meses para restaurar o fornecimento de água e luz, e ainda mais para criar a partir das ruínas de Fallujah a cidade modelo que prometeram.

Os 900 que visitaram Fallujah na quinta-feira eram menos da metade dos 2 mil previstos no dia anterior pelos ministros iraquianos. Mas o comandante dos marines americanos nesta região hostil no Oeste do Iraque, o general de exército John F. Sattler, disse esperar que o número de pessoas crescerá gradualmente.

"Quando as notícias se espalharem, o retorno ganhará impulso", disse Sattler, comandante da 1ª Força Expedicionária Marine, em uma entrevista por telefone, na quinta-feira.

Se a segurança e os suprimentos de ajuda permitirem, os outros 17 distritos da cidade serão abertos para inspeção dos moradores nas próximas semanas, com a próxima prevista para domingo. Logo após este passo preliminar, distrito por distrito, aqueles que quiserem poderão voltar para suas casas.

Quase todos os moradores de Fallujah, que fica a cerca de 100 quilômetros a oeste de Bagdá, fugiram da guerra em novembro e têm lotado tendas em campos ou casas de parentes em outros lugares.

O governo interino e os americanos retrataram a reconstrução de Fallujah como uma prioridade urgente e uma forma de reconquistar o apoio dos sunitas, que formaram a base da insurreição e em muitos casos estão ameaçando boicotar as futuras eleições.

Engenheiros americanos começaram a trabalhar nas estações de força e a drenar as ruas inundadas de esgoto, e os marines disseram que enterraram os corpos de mais de 500 rebeldes, muitos dos quais estavam estirados nas ruas por dias e até mesmo semanas após o fim do combate principal. A remoção de bombas e minas já começou.

Mas os obstáculos para recuperação da cidade são enormes.

Primeiro, os rebeldes continuam em ação. Sattler disse ter ficado surpreso com a resistência enfrentada pelas forças americanas e iraquianas mais de um mês após o término do combate principal em Fallujah. Apenas nas duas últimas semanas, ele disse, entre 100 e 125 rebeldes foram mortos em múltiplos encontros.

Ele disse que não se sabe se eles estão vindo de fora da cidade, se estão escondidos em prédios bombardeados ou estão saindo do labirinto de túneis sob as ruas da cidade.

"Eu adoraria ser capaz de dizer a você que limpamos a cidade, mas não posso", disse Sattler, que em 18 de novembro disse que a ofensiva em Fallujah tinha "quebrado as costas da insurreição".

Na quinta-feira, marines encontraram combatentes em um prédio fortificado no nordeste de Fallujah, a certa distância do bairro reaberto, e eventualmente convocaram apoio aéreo. Posteriormente os militares disseram que três marines foram mortos na província de Anbar, sem especificar exatamente onde. Mas a batalha em Fallujah foi a única grande batalha relatada na província.

Sattler disse que as autoridades estavam preparadas para fornecer querosene, água potável, comida e cobertores para até 10 mil moradores. Ele disse que espera que grande parte ou toda a cidade possa ser aberta para a volta dos moradores em 30 dias, e espera que haja ajuda disponível para todos.

"A meta é que a população de Fallujah vote dentro de sua cidade em 30 de janeiro", disse ele. Em teoria, se a cidade for reaberta, os moradores que ainda não tiverem se mudado de volta poderão entrar para votar. Mas até o momento nenhum registro de eleitores ocorreu em Fallujah ou em outras partes da província volátil.

Fallujah está sob toque de recolher das 6 horas da noite às 6 horas da manhã, e os visitantes de quinta-feira tiveram que partir antes do anoitecer. Não se sabe quantos decidirão voltar em breve.

Independente de terem ou não apoiado a insurreição -que nesta cidade uniu ex-baathistas, um movimento local de islamitas radicais e alguns militantes estrangeiros- muitos moradores de Fallujah nutrem ressentimento pela invasão americana e o recente cerco. Assim, outro fator desconhecido é quanto da população que retornar cooperará com os planos americanos, dado seus sentimentos misturados de medo, tristeza e revolta.

Dhia Hussein, 28 anos, entrou na quinta-feira por uma barreira no lado leste de Fallujah para visitar a casa de seus pais. Neste outono, ele disse, ele comprou uma segunda casa, em um bairro diferente que ainda está fora dos limites, porque estava prestes a se casar.

"Eu tinha acabado de mobiliar a casa, e quando parti, a geladeira estava cheia de doces e frutas do meu casamento", disse ele enquanto esperava para ser revistado pelos soldados iraquianos.

Ele disse ter medo de ver o que aconteceu. "Nós ouvimos que a maioria das casas foi queimada ou destruída", disse ele.

Sua expressão mudou de tristeza para fúria quando acrescentou que soube que as mesquitas também tinham sido queimadas. "A mesquita é a casa de Deus!" ele gritou. "Você já ouviu falar de alguém destruindo a casa de Deus?"

Os ministros do governo interino iraquiano expressaram esperança nesta semana de que os cidadãos de Fallujah deixarão a guerra para trás e participarão entusiasticamente da eleição da assembléia constituinte em janeiro.

Em um briefing em Bagdá na quarta-feira, o ministro de Estado iraquiano, Qassim Daoud, e o ministro da indústria, Hajim Al Hassani, que está dirigindo o retorno dos moradores a Fallujah, exibiram folhetos que estavam sendo distribuídos para os moradores deslocados da cidade para explicar o programa de retorno. "Nos permitam construir uma nova Fallujah", diziam os folhetos, e "nos permitam construir juntos o futuro do Iraque".

Em violência ocorrida em outra parte, um soldado americano foi morto e dois ficaram feridos por um dispositivo explosivo improvisado em Bagdá.

Pelo menos nove iraquianos, incluindo civis, policiais e guardas nacionais, foram mortos em ataques de morteiro ou atentados a bomba ao redor da cidade na quinta-feira.

Em um novo revés para as metas dos Estados Unidos e seus aliados, o chefe de polícia da província de Anbar renunciou, após servir por apenas dois meses, após atiradores terem atacado sua casa e ferido seu irmão, informou a agência de notícias "Reuters". O chefe de polícia anterior da província foi preso pelos americanos em agosto, sob suspeita de cooperação com os rebeldes. Moradores são controlados e homens serão fichados George El Khouri Andolfato

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