UOL Notícias Internacional
 

26/12/2004

Província chinesa prospera com o tráfico de heroína

The New York Times
Howard W. French

The New York Times
Banlao, China - A estrada que leva a esta cidade, estreita e traiçoeira, termina após um trecho de vários quilômetros de lama que chega até aos joelhos, em uma trilha nas montanhas de onde se pode ver as nuvens lá embaixo. Era dia de comércio, e a rua principal, ligeiramente inclinada, estava tão cheia de gente e de mercadorias que, apesar de todas as roupas esfarrapadas e rostos enrugados pelo sol, o lugar irradiava uma certa prosperidade.

A mágica do mercado de grande escala que tirou grande parte da China da pobreza não passou por esta região, onde os camponeses vivem segundo os costumes tradicionais, carregando lenha nas costas e cultivando com as mãos o solo inclinado e cortado por terraços em curva de nível. Mas Banlao, que de outra forma estaria perdida nas sombras das altas montanhas, de onde o vizinho Mianmar, ex-Burma, é visível na distância, possui outra fonte de riqueza.

Segundo as autoridades, 10% dos narcóticos ilegais da China entram através do distrito de Lancang, e 85% das prisões nesta parte do sudoeste da província de Yunnan são efetuadas nesta localidade.

Durante um almoço simples a base de macarrão em um pequeno restaurante, perguntamos a um morador local onde deveríamos procurar por sinais de riqueza ilícita. Mal interrompendo o seu almoço, ele fez um sinal com a cabeça em direção a uma loja do outro lado da rua. Com suas portas de madeira, grandes janelas de vidro e telhado novo, ela realmente se destaca, com a aparência impecável de um restaurante japonês de sushi.

"Esse restaurante foi construído por um traficante de drogas", disse o homem tranqüilamente. "Ele foi preso e executado". Enquanto falava, levou a mão até a cabeça, imitando uma pistola, e puxou um gatilho imaginário. Se o que ele falou for verdade, trata-se de um destino comum por aqui.

A heroína é uma droga especialmente repugnante para o governo chinês, já que traz lembranças da subjugação do país pelas potências ocidentais no século 19, quando as companhias comerciais britânicas promoveram a dependência do ópio entre os chineses como forma de equilibrar o comércio.

O uso de drogas foi quase erradicado sob o regime comunista mas retornou após o relaxamento do controle sobre as fronteiras e os problemas sociais dos anos 80. Desde então, os vários anos de campanhas intensas pouco fizeram para conter o fluxo de narcóticos através da fronteira com Mianmar e Laos.

A pobreza local é uma causa do problema. A mais próxima escola de segundo grau está a vários quilômetros de distância, e o acesso até ela se dá por uma estrada tão ruim que somente os tratores nela conseguem transitar. A eletricidade chegou aqui há cinco anos, e o serviço de telefone celular só no ano passado.

Alguns habitantes locais dizem que a quantia de um milhão de iuans, ou cerca de US$ 120 mil, não é um preço incomum pago por aqueles que desejam caminhar os cerca de 35 quilômetros até Mianmar para trazer drogas para a China, onde uma porção é vendida para sindicatos do crime para uso doméstico, e a maior parte é exportada.

"A polícia vem combatendo intensivamente esse problema desde os anos 80, mas a população daqui é tão pobre que não vê diferença entre estar viva ou morta", explica Mo Zaigang, 36, um camponês que juntamente com amigos falou com a reportagem no quintal de uma casa arruinada, onde havia ervilhas no chão, secando ao sol. "A única alternativa é sair", disse ele, usando o termo comumente usado para indicar que alguém resolveu buscar a fortuna no tráfico de drogas.

"Tenho certeza que a pessoa pode ganhar muito dinheiro se não for pega. Porém, alguns não conseguem nada, e simplesmente perdem a vida", acrescenta Mo, enquanto os amigos concordam com um gesto de cabeça.

Depois disso, o assunto da conversa passou a ser os ciclos locais de miséria, desde o período mais difícil do qual eles conseguem se lembrar, antes do início das reformas há 25 anos, quando as fazendas coletivas ainda estavam em funcionamento. Um dos homens disse que as pessoas comiam folhas de árvores para sobreviver.

À medida que a liberação econômica da China adquiriu velocidade nos anos 80 e as fronteiras se abriram um pouco mais por aqui, muitos moradores se tornaram trabalhadores migrantes nas fazendas de papoulas em Mianmar, conhecendo pela primeira vez o comércio da heroína. A seguir veio o tráfico declarado, seguido por intensa repressão, com grandes batidas policiais, os programas compulsórios de reeducação e as execuções freqüentes.

Mas os esforços repressivos pouco contiveram o tráfico de drogas, porque, segundo diz muita gente, a pobreza não é a única causa do fenômeno. Segundo os moradores, a corrupção oficial, uma praga disseminada pela China, também é um fator que contribui para o problema.

Há várias histórias sobre como os parentes dos suspeitos de serem traficantes oferecem grandes quantias à polícia, somente para verem o dinheiro desaparecer e os familiares serem enviados para a prisão ou terminarem executados. Na China uma pessoa pode ser condenada à morte por portar um mínimo de 50 gramas de heroína.

Verdadeiras ou não, outras histórias freqüentemente ouvidas são ainda mais sinistras, envolvendo a alegada cooperação entre os traficantes birmaneses e a polícia chinesa.

"Os indivíduos compram drogas de um chefão em Burma, e este avisa a polícia", acusa Mo Shuli, morador de outra parte da cidade, cujo sobrinho foi preso recentemente após ser flagrado com um amigo portando mais de um quilo de heroína. "O chefe do narcotráfico fica com o dinheiro, e a polícia daqui se gaba de mais um sucesso".

Mo, cuja mulher cortou pedaços de palmito para alimentar um porco que grunhia impacientemente em uma pocilga próxima, não procurou dizer que o sobrinho é inocente.

"O garoto precisava de dinheiro, e ninguém o alertou a tempo", disse ele. "Agora, está encarcerado, e deixou para trás a sua filha pequena. Tenho certeza que ele está coberto de remorsos". Danilo Fonseca

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