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28/12/2004

Imprevisibilidade de terremotos desafia cientistas

The New York Times
Sandra Blakeslee*

Em Nova York
Em certo sentido, o maremoto catastrófico na costa da Sumatra na manhã do último domingo (26/12) não foi surpresa. Depois de décadas dissecando as falhas sísmicas e os contatos entre placas tectônicas no solo do Oceano Índico, os cientistas conseguem prever onde são prováveis grandes tremores.

No entanto, o que as pessoas realmente querem saber --exatamente quando e exatamente onde o próximo "grande" ocorrerá-- continua inteiramente imprevisível. Apesar de suas melhores teorias, apesar de mais de US$ 1 bilhão (em torno de R$ 3 bilhões) investidos em instrumentos nas falhas da Califórnia e do Japão, os cientistas ainda não conseguem avisar com antecedência sobre a chegada de um terremoto.

O melhor que os sismologistas podem fazer atualmente é prever as probabilidades de os tremores voltarem a ocorrer nas mesmas regiões. As previsões são feitas, em geral, em prazos de 10 a 30 anos.

Esses dados são úteis para se decidir onde construir represas, usinas elétricas, estradas e dutos em regiões de terremotos, disse Lynn Sykes, especialista em geofísica do Observatório da Terra Lamont-Doherty em Palisades, Nova York. No entanto, eles não ajudam as pessoas comuns que moram nessas áreas.

A ciência da previsão de terremotos tem uma longa e triste história, incluindo boas idéias que fracassaram, experimentos que desapontaram e uma lista sempre crescente de previsões furadas.

Nos anos 70, havia muitas esperanças de que a hipótese do intervalo sísmico daria previsões acuradas. Acreditava-se que segmentos das longas falhas se rompiam em intervalos de tempo regulares. Assim, bastaria que os sismólogos cavassem ao longo desses segmentos e datassem os eventos passados para inferirem o momento dos tremores futuros.

No entanto, os segmentos da falha de San Andreas, na Califórnia, não se comportam assim tão bem, disse Kerry Sieh, sismologista do Instituto de Tecnologia da Califórnia, pioneiro da técnica. Algumas seções se rompem entre 50 e 350 anos.

"Não sabemos por quê", disse Sieh. "Pode ser por causa da interação de tantas outras falhas. Ou será algo fundamental, sobre nossas falhas individuais?"

Compreendendo que nunca resolveria o quebra-cabeça da previsão de terremotos na Califórnia, há uma década Sieh voltou sua atenção para as falhas na costa da Sumatra. Ele se concentrou em um trecho do oceano a poucas centenas de quilômetros ao sul do terremoto de domingo.

As duas áreas fazem parte de uma vasta zona onde um gigantesco bloco da crosta terrestre escorrega sob o arquipélago indonésio.

Ao datar os padrões de mortalidade dos recifes de corais afetados pelos movimentos das falhas e das tsunamis, Sieh determinou que grandes terremotos ocorrem regionalmente, aos pares, a cada 230 anos, aproximadamente. Em 1797, houve um tremor de magnitude 8.2 graus na escala Richter; em 1833, um de magnitude 8.7 ou maior. Houve outros nos anos 1500 e 1300.

"Estamos chegando ao início do próximo ciclo", disse Sieh. "Nos últimos quatro anos, uma série de tremores menores vêm flertando com esses trechos maiores trancados."

Por exemplo, em junho de 2000, sentiu-se um terremoto de magnitude 7.0, em Singapura. Em 2002, houve um tremor de 7.4 sob a ilha de Simeulue, na costa noroeste da Sumatra, que pode ter sido um choque prévio para o terremoto de domingo.

Um segundo terremoto muito grande na mesma região não seria surpreendente, disse Sieh. Pode estar a décadas de distância.

Em terra, as previsões de terremotos nunca se provaram confiáveis. No dia 4 de fevereiro de 1975, o governo chinês disse que tinha evacuado a cidade de Haiching, com base em dados precursores de terremoto --mudanças na elevação da terra, do nível de água subterrânea, tremores pequenos e cavalos, cães e galinhas irrequietos. Um tremor de magnitude 7.3 atingiu o lugar dois dias depois, e dezenas de milhares de vidas foram salvas.

No entanto, investigações posteriores sugerem que a alegação foi mais ideológica do que científica. O terremoto, aparentemente, não tinha sido previsto com tanta clareza. Dezenas de milhares de pessoas foram mortas ou feridas.

Um ano depois, um terremoto de 7.6 na escala Richter atingiu Tangshan, China, sem avisos. Estima-se que 250.000 pessoas morreram. Em janeiro de 1994, uma falha previamente desconhecida rompeu-se sob Los Angeles, em um terremoto de magnitude 6.7, que matou 61 pessoas e causou bilhões de dólares de danos. Exatamente um ano depois, um terremoto similar, de 6.9, matou mais de 5.000 em Kobe, no Japão.

Um experimento ao longo da falha de San Andreas, perto de Parkfield no centro da Califórnia, previu que um tremor moderado ocorreria até 1993. Veio uma década depois, rompendo-se na direção "errada", no dia 28 de setembro de 2004.

Um pesquisador da Universidade da Califórnia em Los Angeles, Vladimir I. Keilis-Borok, previu um tremor de 6.4 graus no sul da Califórnia, entre 5 de janeiro e 5 de setembro deste ano, que não ocorreu.

Tais fracassos criam muito espaço para médiuns e outros profetas explicarem os terremotos. Vários sinais --comportamento animal esquisito, luzes estranhas no céu, força das marés-- tendem a ser invocados depois do fato.

Muitos sismologistas atualmente dizem que os terremotos nunca poderão ser previstos, porque a crosta terrestre é profundamente heterogênea. Qualquer tremor menor tem a probabilidade de se tornar um grande evento. Se um pequeno tremor vai crescer ou se dissipar dependerá de muitos detalhes de condições físicas na terra fraturada.

John Rundle, sismologista da Universidade da Califórnia diz que a maior esperança para a previsão de curto prazo está no método estatístico que identifica pontos propensos. Os instrumentos apontam para áreas com tremores pequenos freqüentes, em torno da magnitude 3. Se essa atividade aumentar, é mais provável que haja um terremoto em um prazo de 5 anos.

Esse método previu a localização de 12 de 14 tremores moderados na Califórnia nos últimos cinco anos, disse Rundel. Mesmo assim, acrescentou: "Somente diz onde, mas não exatamente quando."

Quando a terra começa a chacoalhar, é possível enviar advertências a instalações críticas como dutos e usinas térmicas, para o fechamento das operações. Tais sistemas estão ativos no Japão, inclusive sirenes para advertir as pessoas em regiões costeiras que tendem a sofrer com tsunamis.

As nações devastadas pelas tsunamis no domingo não têm sistema de aviso e os especialistas dizem que levará tempo até que sejam instalados.

Tais sistemas requerem medidores de terremotos e marés integrados e modelos de computador que possam rapidamente projetar a rota das tsunamis, disse George D. Curtis, especialista da Universidade do Havaí em Hilo.

Um desafio ainda maior, disse ele, é a necessidade de se criar um método eficiente para alertar centenas de comunidades costeiras, além de esforços educacionais para se assegurar que os moradores atendam ao alarme.

Isso é mais fácil de colocar em prática em países ricos avançados, como os EUA e o Japão, do que em países em desenvolvimento, onde a vulnerabilidade é enorme e os recursos limitados.

"Mesmo que você tenha o sistema técnico instalado", disse Curtis, "é preciso que as pessoas estejam preparadas para reagir imediatamente".

*Colaborou Andrew C. Revkin. Sismologistas podem estimar onde, mas nunca quando ocorrerão Deborah Weinberg

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